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Ciência

Um ponto crítico pode ter sido cruzado na Antártida e o alerta científico preocupa

Um novo estudo indica que partes do gelo antártico podem ter entrado em uma fase difícil de reverter. As simulações revelam riscos desiguais com possíveis impactos globais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A Antártida costuma parecer um bloco de gelo estável e imutável, mas pesquisas recentes mostram que a realidade pode ser bem mais dinâmica. Cientistas vêm observando sinais de que algumas regiões do continente estão se aproximando — ou até ultrapassando — limites críticos de estabilidade. O cenário não aponta para um colapso imediato, mas levanta preocupações importantes sobre o nível do mar e a velocidade das mudanças climáticas nas próximas décadas.

As áreas que mais preocupam os pesquisadores

Um ponto crítico pode ter sido cruzado na Antártida e o alerta científico preocupa
© Pexels

O recuo do gelo antártico é considerado um dos fatores mais sensíveis para a elevação global do nível do mar. No entanto, o comportamento do continente diante do aquecimento não é uniforme. Enquanto algumas regiões perdem gelo de forma gradual, outras podem sofrer mudanças abruptas ao ultrapassar determinados limiares de temperatura.

Um estudo publicado na revista Nature Climate Change, conduzido por pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático e do Instituto Max Planck de Geoantropologia, analisou 18 bacias de drenagem da Antártida sob diferentes cenários de aquecimento.

A principal conclusão é que a camada de gelo antártica não funciona como um único sistema. Na prática, ela se comporta como vários subsistemas interligados, capazes de atingir pontos de inflexão em momentos distintos.

Segundo as simulações, as regiões mais vulneráveis estão na Antártida Ocidental, especialmente na área do mar de Amundsen — onde ficam os glaciares Thwaites e Pine Island — além da bacia Ronne. Esses setores apresentam os menores limites de estabilidade.

Os cientistas alertam que, com o aquecimento global atual próximo de 1,3 °C acima dos níveis pré-industriais, algumas dessas áreas podem já ter entrado em processo de desestabilização. Mantido o cenário atual, cerca de 40% do volume de gelo marinho dessa região pode estar comprometido no longo prazo.

Na Antártida Oriental, o risco é diferente, mas igualmente relevante. Ali existem reservas de gelo capazes de elevar muito mais o nível do mar, e certos setores podem perder estabilidade se o aquecimento global atingir entre 2 °C e 5 °C.

Como os cientistas simularam o futuro do gelo

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© Pexels

Para chegar a essas conclusões, a equipe utilizou o Parallel Ice Sheet Model (PISM), uma das ferramentas mais avançadas para simular o comportamento de grandes mantos de gelo.

Cada uma das 18 bacias foi analisada separadamente. Nas simulações, a temperatura global foi elevada gradualmente, permitindo que o sistema atingisse equilíbrio antes de avançar para o próximo nível de aquecimento.

Esse método revelou respostas bastante diferentes entre as regiões. Em muitos casos, o comportamento do gelo se mostrou fortemente não linear, com mudanças abruptas após o cruzamento de certos limiares térmicos.

O modelo partiu de uma Antártida em condições semelhantes às do período pré-industrial e incorporou fatores como:

  • acúmulo de neve
  • derretimento superficial
  • fluxo do gelo sobre o terreno
  • possível fratura de penhascos de gelo
  • ajustes da crosta terrestre devido ao peso do gelo

Os resultados indicam que, em áreas como Thwaites e Pine Island, o limiar crítico pode estar abaixo de 1 °C de aquecimento — valor que já teria sido ultrapassado pelo aquecimento atual.

Caso essa dinâmica se confirme, a região pode perder cerca de 70% do gelo relevante para o nível do mar, o que equivaleria a aproximadamente 0,9 metro de elevação global no muito longo prazo.

Por que parte da perda pode ser irreversível

Um dos pontos mais preocupantes do estudo é a possibilidade de histerese no sistema de gelo. Em termos simples, isso significa que, depois de cruzado certo limite, o gelo pode continuar se perdendo mesmo que as temperaturas globais voltem a cair.

Esse comportamento sugere a existência de processos autoalimentados de recuo do gelo em algumas bacias.

A dimensão potencial do problema é enorme: a camada de gelo da Antártida contém o equivalente a quase 60 metros de elevação do nível do mar se derretesse completamente — embora esse cenário extremo não esteja nas projeções atuais.

Ainda assim, os pesquisadores destacam que perdas parciais já seriam suficientes para afetar regiões costeiras, a circulação oceânica e o clima global.

O que o estudo indica para o futuro

O trabalho reforça a necessidade de monitoramento contínuo das áreas com limiares mais baixos, especialmente na Antártida Ocidental. Também destaca que as decisões climáticas tomadas hoje terão impacto direto na estabilidade futura do gelo.

Entre as conclusões dos autores está um ponto central: reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa continua sendo a principal forma de evitar uma desestabilização maior.

O estudo não afirma que o destino do gelo antártico está selado, mas sugere que a margem de segurança pode ser menor do que se imaginava. Em um sistema climático complexo, pequenas mudanças de temperatura podem desencadear efeitos que se estendem por séculos.

[Fonte: Infobae]

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