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Ciência

Um radar criado na Guerra Fria pode ajudar a rastrear o gelo no Ártico

Tecnologia capaz de detectar alvos a milhares de quilômetros pode ganhar uma nova função: acompanhar navios e blocos de gelo em rotas marítimas cada vez mais movimentadas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos passaram décadas desenvolvendo uma tecnologia capaz de enxergar muito além do horizonte. O objetivo era detectar antecipadamente aeronaves soviéticas que eventualmente se aproximassem pelo Ártico.

O sistema chegou tarde demais para desempenhar o papel imaginado. Agora, décadas depois, a mesma tecnologia pode encontrar uma nova missão: rastrear navios e o movimento do gelo marinho em uma região que está mudando rapidamente devido ao aquecimento global.

Um radar capaz de enxergar além da curvatura da Terra

Radares convencionais possuem uma limitação física importante: a curvatura do planeta.

Quanto maior a distância, mais um objeto desaparece abaixo do horizonte. Durante a Guerra Fria, isso representava um problema para militares interessados em detectar aeronaves voando a baixa altitude a grandes distâncias.

A solução foi o chamado radar além do horizonte, ou OTH.

Em vez de enviar sinais diretamente até o alvo, o sistema utiliza ondas de rádio de alta frequência que interagem com a ionosfera e retornam em direção à superfície terrestre.

O sinal pode atingir um objeto a milhares de quilômetros de distância e retornar pelo mesmo processo.

Essa técnica, conhecida como skywave, permitiu alcançar aproximadamente 2.900 quilômetros, várias vezes além do alcance de radares convencionais.

Uma tecnologia militar pode ganhar uma nova missão

O físico australiano Stuart Anderson acredita que o conceito pode ser adaptado para acompanhar as mudanças que estão ocorrendo no Ártico.

Anderson, professor adjunto da Escola de Física, Química e Ciências da Terra de Adelaide, apresentou sua pesquisa durante a IEEE Radar Conference de 2026, realizada em Phoenix, nos Estados Unidos.

Segundo o pesquisador, as mudanças climáticas estão transformando a região e criando simultaneamente novas oportunidades e novos riscos.

A redução do gelo marinho em determinadas épocas aumenta a possibilidade de utilização de algumas rotas marítimas. Com mais navios e infraestrutura chegando à região, cresce também a necessidade de monitorar enormes extensões do oceano.

É justamente aí que os antigos radares podem ajudar.

O Ártico apresenta um problema adicional

Anderson já possui experiência com sistemas semelhantes.

Ele participou do desenvolvimento do Jindalee Operational Radar Network, sistema australiano de radar além do horizonte utilizado para acompanhar atividades a grandes distâncias, incluindo embarcações.

Transferir a tecnologia para o Ártico, porém, não é tão simples.

O problema está justamente na ionosfera utilizada para transportar os sinais.

Nas regiões polares, ela é muito mais dinâmica e sofre influência intensa do clima espacial. A interação direta com a magnetosfera e partículas energéticas provenientes do vento solar pode alterar significativamente as condições de propagação das ondas de rádio.

A densidade de elétrons da ionosfera também varia conforme as estações do ano.

Um radar projetado para funcionar no Ártico precisaria, portanto, adaptar constantemente seus parâmetros às condições atmosféricas e espaciais.

O radar poderia identificar diferentes tipos de gelo

Apesar das dificuldades, pesquisas recentes indicam que o sistema pode fornecer informações valiosas sobre o gelo marinho.

Segundo Anderson, radares desse tipo podem potencialmente ajudar a distinguir diferentes categorias de gelo e fornecer informações relacionadas à sua extensão e características.

Uma aplicação particularmente interessante seria acompanhar o deslocamento das placas de gelo.

Essas enormes estruturas estão constantemente se movimentando e podem representar riscos para embarcações que atravessam águas polares.

No futuro, os sinais também poderiam ajudar a identificar navios em movimento entre essas placas e complementar outros sistemas de monitoramento.

O Canadá já trabalha em tecnologias relacionadas. A Defence Research and Development Canada desenvolve o Arctic Over-the-Horizon Radar, conhecido como A-OTHR, que deverá fornecer dados importantes sobre a maneira como sinais de radar interagem com o gelo polar.

Experimentos anteriores já conseguiram detectar navios

Existem motivos para acreditar que a tecnologia pode funcionar.

Anderson afirma que um radar experimental direcionado para o norte e instalado relativamente próximo das regiões polares já conseguiu produzir mapas Doppler de boa qualidade.

O sistema também detectou claramente embarcações em regiões do Ártico.

Esses resultados não significam que todos os desafios estejam resolvidos, mas reforçam a possibilidade de utilizar radares de alta frequência como parte de uma rede de monitoramento muito maior.

Satélites continuam sendo essenciais

A proposta não pretende substituir satélites ou outros sistemas utilizados atualmente.

Anderson destaca que nenhuma tecnologia consegue monitorar sozinha uma região tão extensa e complexa quanto o Ártico.

Satélites oferecem uma visão privilegiada do gelo e das embarcações, mas sua cobertura pode apresentar limitações dependendo da órbita, dos sensores utilizados e das condições ambientais.

Radares além do horizonte poderiam preencher algumas dessas lacunas.

Informações obtidas por satélites, radares, sistemas de navegação e outros sensores poderiam ser combinadas para criar uma imagem mais completa das condições marítimas.

Uma invenção da Guerra Fria encontra um problema do século 21

Existe uma ironia histórica na proposta.

Os Estados Unidos investiram durante praticamente toda a Guerra Fria no desenvolvimento de radares capazes de detectar possíveis ameaças soviéticas aproximando-se pelas regiões polares.

Quando sistemas avançados finalmente se tornaram operacionais, a Guerra Fria estava chegando ao fim.

Mais de três décadas depois, a tecnologia pode se tornar novamente importante no mesmo lugar para o qual havia sido originalmente imaginada.

Só que o alvo mudou.

Em vez de procurar exclusivamente aeronaves inimigas, esses radares poderão ajudar a localizar navios e acompanhar enormes massas de gelo em movimento.

Uma tecnologia criada para observar um conflito que nunca aconteceu no Ártico pode acabar ajudando embarcações a navegar por um oceano transformado pelas mudanças climáticas.

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