Chegar a Vênus é apenas parte do problema. O verdadeiro desafio começa quando uma nave mergulha em sua atmosfera e encontra temperaturas capazes de destruir equipamentos eletrônicos rapidamente. Por isso, antes de enviar a missão DAVINCI ao planeta, a NASA decidiu reproduzir uma parte desse inferno aqui na Terra. Uma cápsula experimental entrou repetidamente em um forno industrial, enfrentando condições próximas daquelas que encontrará durante uma das etapas mais arriscadas da viagem.
Um forno na Pensilvânia virou Vênus durante alguns minutos
Entre 28 de agosto e 10 de setembro, engenheiros levaram uma unidade de desenvolvimento da sonda DAVINCI para uma instalação industrial em Bedford, na Pensilvânia.
O local foi escolhido por uma característica pouco comum: seu forno consegue elevar rapidamente a temperatura até níveis semelhantes aos encontrados perto da superfície venusiana.
A cápsula experimental, aproximadamente do tamanho de uma bola grande de exercícios, foi colocada dentro de uma câmara revestida de cerâmica. Em cerca de uma hora, a temperatura chegou aos 465 °C.
Esse intervalo não foi escolhido por acaso.
Durante sua futura descida pela atmosfera de Vênus, a sonda também deverá aquecer progressivamente até enfrentar condições semelhantes em aproximadamente 55 a 60 minutos.
Os engenheiros precisavam descobrir se a estrutura conseguiria manter seus delicados instrumentos científicos protegidos enquanto o exterior se transforma em um ambiente extremamente quente.
Uma tentativa, porém, não seria suficiente.
A equipe repetiu o procedimento outras cinco vezes. No total, foram seis ciclos térmicos completos simulando a descida.
E a cápsula passou por todos sem sofrer danos.
Mais de 100 sensores acompanharam o que acontecia lá dentro
Enquanto o exterior enfrentava temperaturas extremas, mais de 100 sensores monitoravam o comportamento térmico dos componentes internos.
O objetivo era descobrir quanto calor atravessava a proteção e se os futuros instrumentos científicos permaneceriam dentro das condições necessárias para funcionar.
A cápsula utilizará uma estrutura de titânio, material escolhido por combinar resistência, baixo peso e proteção contra corrosão.
Mas simplesmente isolar completamente seu interior não resolveria o problema.
A missão precisa fazer justamente o contrário em determinados momentos: permitir que gases extremamente quentes da atmosfera venusiana entrem na sonda para serem analisados.
Por isso, o projeto inclui entradas especiais capazes de conduzir amostras aos instrumentos sem comprometer a proteção térmica do restante do equipamento.
É um equilíbrio delicado. DAVINCI precisará sobreviver ao ambiente que pretende estudar enquanto, ao mesmo tempo, permite que parte dele entre em contato com seus sensores.
A NASA considera o resultado especialmente relevante porque uma avaliação tão completa de hardware espacial em temperaturas semelhantes às de Vênus não era realizada nos Estados Unidos desde meados da década de 1970.
DAVINCI vai mergulhar em um planeta que pode ter sido muito diferente
A missão tem um objetivo maior do que simplesmente provar que uma cápsula consegue sobreviver ao calor.
Vênus e Terra possuem algumas semelhanças importantes em tamanho e composição, mas seguiram caminhos radicalmente diferentes.
Enquanto nosso planeta desenvolveu oceanos e condições favoráveis à vida conhecida, Vênus terminou envolvido por uma atmosfera extremamente densa, dominada por dióxido de carbono e com temperaturas superficiais devastadoras.
DAVINCI tentará entender como essa transformação aconteceu.
Durante a descida, a sonda medirá a composição química da atmosfera, analisará gases nobres, temperatura, pressão e outros parâmetros capazes de revelar pistas sobre bilhões de anos de evolução planetária.
Uma das grandes perguntas é se Vênus já teve oceanos.
Descobrir isso ajudaria os cientistas a compreender se o planeta passou por uma fase mais parecida com a Terra antes de entrar no estado extremo observado atualmente.
Mas a atmosfera não será o único alvo.
As câmeras tentarão mostrar Vênus como nunca vimos antes

Depois de atravessar as espessas nuvens venusianas, DAVINCI apontará suas câmeras para uma região montanhosa chamada Alpha Regio.
Essa área desperta interesse porque pode preservar algumas das superfícies mais antigas do planeta. Há hipóteses de que suas formações tenham relação com processos geológicos ocorridos quando Vênus era muito diferente.
A sonda deverá registrar imagens em alta resolução durante sua descida.
Essas fotografias permitirão reconstruir partes do terreno em três dimensões e analisar características das rochas.
Meses antes do teste térmico, a NASA realizou outra experiência importante no deserto de Utah. Instrumentos semelhantes aos que serão utilizados pela missão foram transportados por helicóptero sobre uma região escolhida por apresentar características geológicas comparáveis às esperadas em Alpha Regio.
Agora, com o teste do forno concluído, duas peças importantes da missão avançaram: a capacidade de observar o terreno durante a queda e a resistência necessária para sobreviver às temperaturas venusianas.
Sobreviver por uma hora pode responder perguntas de bilhões de anos
DAVINCI ainda precisa avançar pelas próximas etapas de desenvolvimento antes de iniciar sua jornada.
A missão trabalha para obter aprovação para entrar na fase final de projeto e fabricação.
Quando chegar a Vênus, a cápsula terá pouco tempo para fazer seu trabalho. Durante aproximadamente uma hora de descida, precisará analisar gases, registrar imagens e transmitir os dados para a espaçonave que permanecerá milhares de quilômetros acima.
É uma janela curta para investigar uma história que começou há cerca de 4,5 bilhões de anos.
Por isso, colocar uma esfera metálica dentro de um forno industrial pode parecer um experimento simples diante da complexidade de uma missão interplanetária.
Na realidade, aqueles seis ciclos a 465 °C responderam a uma pergunta essencial antes que DAVINCI possa enfrentar Vênus de verdade: se a cápsula entrar nesse inferno, seus instrumentos conseguirão continuar trabalhando?
Agora, os engenheiros têm uma evidência importante de que a resposta pode ser positiva.
[Fonte: Infobae]