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Centenas de pessoas acampam no centro de Madri contra os altos preços dos aluguéis e os despejos

Centenas de barracas ocuparam uma das praças mais simbólicas de Madri após um episódio que transformou a insatisfação com os preços da moradia em um grande protesto.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Barracas, lonas, assembleias improvisadas e centenas de pessoas passaram a ocupar um dos lugares mais conhecidos de Madri. A imagem inevitavelmente lembra protestos históricos realizados no mesmo local, mas desta vez existe uma questão muito concreta no centro da mobilização: morar na Espanha está ficando cada vez mais difícil. Um despejo particularmente simbólico serviu como estopim e levou milhares de pessoas às ruas durante o fim de semana.

Tudo começou com o despejo de uma mulher de 87 anos

Centenas de pessoas acampam no centro de Madri contra os altos preços dos aluguéis e os despejos
© YouTube

A história que impulsionou a mobilização tem nome: María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen.

Aos 87 anos, ela foi despejada do apartamento em Madri onde havia vivido como inquilina durante cerca de sete décadas. O contrato original era de 1956 e havia sido herdado de seus pais. A Justiça considerou que o vínculo havia terminado e decidiu a favor da empresa proprietária do imóvel.

O caso rapidamente ultrapassou a situação individual da aposentada.

No sábado, 26 de setembro, milhares de pessoas saíram às ruas da capital espanhola. A Delegação do Governo calculou aproximadamente 25 mil participantes, enquanto os organizadores apresentaram uma estimativa muito maior.

Depois da manifestação, parte dos participantes decidiu não voltar para casa.

Cerca de 500 pessoas permaneceram inicialmente na Puerta del Sol, no coração da capital, montando uma acampada diante da sede do governo regional de Madri.

Em poucos dias, a estrutura cresceu. Nesta segunda-feira, aproximadamente 600 pessoas haviam amanhecido na praça, distribuídas entre cerca de 350 barracas.

O local ganhou áreas para alimentos, pontos de carregamento de celulares, reuniões e distribuição de materiais. Mesmo com previsão de chuva e queda nas temperaturas, os manifestantes começaram a preparar lonas para continuar no local.

A Puerta del Sol revive imagens que a Espanha conhece muito bem

Centenas de pessoas acampam no centro de Madri contra os altos preços dos aluguéis e os despejos
© Pexels

Para quem acompanha a política espanhola, as cenas despertam uma lembrança inevitável.

Foi na mesma Puerta del Sol que, em maio de 2011, milhares de pessoas participaram das mobilizações do 15-M. Naquela época, indignação com desemprego, desigualdade, crise econômica e funcionamento do sistema político levou manifestantes a ocupar a praça durante semanas.

Mais de 15 anos depois, as barracas voltaram.

A comparação, porém, tem limites. Desta vez, existe uma reivindicação muito mais concentrada: habitação.

Os participantes querem mudanças nas regras de aluguel e despejo. Entre as demandas apresentadas pelo Sindicato de Inquilinas estão contratos indefinidos ou com renovação automática, congelamento dos aluguéis, proibição de despejos sem alternativa habitacional e medidas contra determinadas modalidades de aluguel temporário e por quartos.

A organização também defende restrições à compra de imóveis quando o comprador não pretende utilizá-los como residência e medidas contra propriedades controladas por grandes empresas e fundos de investimento.

Durante a acampada, assembleias passaram a discutir experiências de moradores com contratos e problemas relacionados ao aluguel.

Os números ajudam a entender por que o protesto ganhou força

O caso de Maricarmen funciona como símbolo de um problema que já vinha pressionando milhões de espanhóis.

Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que os preços das moradias na Espanha subiram 12,2% em um ano no segundo trimestre de 2026. Na Comunidade de Madri, o avanço chegou a 12,9%.

Existe ainda um problema de oferta.

Entre 2021 e 2025, foram construídas cerca de 750 mil moradias a menos do que seria necessário para acompanhar a criação de novos lares, segundo estimativas do Banco da Espanha.

É justamente nesse ponto que aparece uma das grandes divergências sobre como enfrentar a crise.

Os movimentos de inquilinos defendem controles mais rígidos sobre aluguéis e maior proteção para moradores.

Alguns economistas argumentam que determinadas limitações podem produzir efeitos indesejados. Um estudo publicado pelo Banco da Espanha em 2020 apontou que controles de aluguel podem reduzir preços das unidades reguladas no curto prazo, mas também diminuir a oferta disponível, afetar a manutenção dos imóveis e elevar valores fora do mercado controlado.

Para esse grupo, aumentar significativamente a construção e a oferta de moradias seria fundamental para aliviar os preços.

Agora todas as atenções estão voltadas para uma decisão do governo

A acampada também aumentou a pressão sobre o governo de Pedro Sánchez.

O primeiro-ministro espanhol afirmou que trabalha para levar ao Conselho de Ministros um decreto relacionado à habitação. Entre as medidas em discussão está a proteção contra despejos sem alternativa habitacional.

Mas os manifestantes querem conhecer os detalhes antes de desmontar as barracas.

O Sindicato de Inquilinas já avisou que considera insuficiente uma medida que não contemple algumas de suas principais reivindicações, incluindo mudanças na renovação dos contratos.

A pressão também chegou aos sindicatos trabalhistas CCOO e UGT, que foram chamados pelos organizadores a considerar uma greve geral caso as medidas reivindicadas não avancem.

Enquanto isso, o Partido Popular, principal força de oposição, apresenta uma abordagem diferente. Entre suas propostas estão eliminar áreas onde existem limitações aos aluguéis e ampliar mecanismos de garantia para facilitar a compra de imóveis por jovens.

O governo municipal de Madri, também controlado pelo PP, pediu o restabelecimento da normalidade na Puerta del Sol e criticou a continuidade da acampada.

O protesto já deixou de ser apenas uma história de Madri

Embora as imagens mais marcantes venham da Puerta del Sol, a mobilização ultrapassou rapidamente a capital.

Também houve manifestações em cidades como Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela, enquanto protestos foram convocados em dezenas de localidades espanholas.

A permanência das barracas dependerá agora, em grande medida, das decisões políticas dos próximos dias.

Mas a cena produzida no centro de Madri já conseguiu transformar uma discussão econômica em algo muito mais visível.

Centenas de pessoas dormindo em uma das praças mais conhecidas da Espanha representam uma crise que costuma aparecer em porcentagens, índices de preços e estatísticas de construção.

Desta vez, porém, ela ganhou barracas, colchões e rostos.

E tudo começou com uma mulher de 87 anos obrigada a deixar a casa onde havia vivido durante praticamente toda a sua vida.

[Fonte: bbc]

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