A NASA está prestes a tentar algo inédito para salvar um de seus telescópios mais importantes. O Neil Gehrels Swift Observatory, que opera há duas décadas em órbita baixa, está caindo mais rápido do que o previsto devido ao aumento da atividade solar. Agora, uma startup do Arizona foi encarregada de lançar uma missão de resgate ousada — e em tempo recorde — que usará um foguete lançado de um avião para dar a Swift o impulso orbital que pode prolongar sua vida útil.
Um telescópio prestes a cair — literalmente
Lançado em 2004, Swift foi projetado para detectar e estudar rajadas de raios gama, explosões tão energéticas que brilham em galáxias distantes. Como todos os satélites em órbita baixa, o observatório perde altitude de forma gradual, mas a intensificação da atividade solar nos últimos anos aumentou o arrasto atmosférico, acelerando perigosamente esse processo.
A Katalyst estima que Swift tem 50% de chance de reentrar de forma descontrolada até meados de 2026 e 90% até o fim do ano. Embora o telescópio queimasse completamente na reentrada e não oferecesse risco à população, sua perda antecipada encerraria um dos programas de astrofísica mais produtivos da NASA.
A missão LINK: uma corrida contra o relógio
Para salvar o telescópio, a startup recebeu da NASA um contrato de US$ 30 milhões para desenvolver o LINK, uma nave capaz de se aproximar, capturar e impulsionar Swift para uma órbita mais estável.
A empresa tem menos de oito meses para realizar o feito: o prazo de lançamento é junho de 2026. O mais curioso? O foguete que colocará a LINK em órbita será lançado do ar, não da Terra.
Pegasus: o foguete que cai do avião
A missão usará o Pegasus, da Northrop Grumman — um dos poucos foguetes do mundo lançados de um avião. A 12 mil metros de altitude, o foguete é liberado, cai por cerca de cinco segundos e então aciona seus motores para subir rumo ao espaço.
O Pegasus quase não voa mais: sua última missão foi em 2021, eclipsado por lançadores mais baratos. Mas, segundo a Katalyst, ele é o único veículo capaz de atingir a órbita necessária dentro do prazo e do orçamento.
Por que lançar de um avião é essencial
Swift orbita a 20,6° de inclinação, uma posição escolhida para evitar a temida Anomalia do Atlântico Sul — uma região do campo magnético terrestre que expõe satélites a altos níveis de radiação.
Para um foguete lançado do solo, atingir essa inclinação exigiria muito combustível extra. O Pegasus contorna o problema: como é lançado a partir de um avião, sua plataforma “móvel” permite apontar para a órbita exata antes do disparo.
Além disso, por ser um veículo já testado, está pronto para lançar em prazo curto — outro requisito crítico do projeto.
Como a LINK vai capturar um satélite sem porta de acoplamento
Assim que o Pegasus colocar a LINK em órbita, a nave realizará uma série de manobras conhecidas como operações de proximidade e rendezvous para se aproximar de Swift com segurança.
O desafio: Swift não possui portas de acoplamento, trilhos, ganchos ou qualquer estrutura pensada para ser agarrada por outra nave. Por isso, a LINK usará um mecanismo robótico personalizado, desenvolvido especialmente para prender-se a uma área do corpo do telescópio.
Após o acoplamento, a LINK acionará seus propulsores para elevar a órbita do observatório.
Muito mais do que salvar um telescópio
Se a missão for bem-sucedida, não apenas prolongará a vida do Swift — responsável por descobertas importantes sobre buracos negros e explosões estelares —, como também servirá como demonstração de uma nova capacidade para a NASA.
Ter uma nave capaz de interceptar, capturar e reposicionar satélites rapidamente pode se tornar essencial para manter a frota de observatórios em órbita baixa funcionando apesar do desgaste natural e do aumento dos efeitos do clima espacial.
Em outras palavras: o resgate de Swift pode inaugurar uma nova era de manutenção orbital rápida, algo que até poucos anos atrás parecia ficção científica.