O problema do lixo espacial nunca foi tão urgente: milhões de fragmentos orbitam a Terra em velocidades capazes de destruir satélites e ameaçar tripulações inteiras. Nesse cenário, um jovem alemão decidiu agir. Leonidas Askianakis, de apenas 22 anos, fundou uma startup com a ambição de monitorar e remover detritos orbitais antes que a situação se torne irreversível. Sua proposta chamou atenção de gigantes da indústria e até do governo da Baviera, que agora aposta no projeto.
O estudante que declarou guerra ao lixo espacial
Leonidas Askianakis leva uma rotina quase militar. Aos 22 anos, divide o dia entre videochamadas que começam às 5h da manhã e se estendem até quase meia-noite. O tema, sempre o mesmo: lixo espacial. A motivação veio do incômodo constante com notícias sobre detritos que ameaçam missões, como o episódio recente em que astronautas chineses precisaram prolongar sua estadia no espaço por risco de colisão.
O estudante, que cursa Engenharia Espacial na Universidade Técnica de Munique, percebeu cedo que o problema era subestimado até dentro do ambiente acadêmico. Em 2021, quase ninguém compreendia a gravidade do tema, muito menos a necessidade de soluções comerciais. Foi apenas nas férias, observando o céu estrelado de Creta — sua terra natal — que a ideia tomou forma: transformar a remoção de detritos em um negócio sustentável.
As nuvens de escombros que rondam o planeta

A situação é crítica. Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), mais de 1,2 milhão de objetos com mais de um centímetro orbitam a Terra; cerca de 50 mil deles passam dos dez centímetros. Esses fragmentos viajam tão rápido que um pedaço de apenas 1 cm pode liberar, numa colisão, a energia equivalente à de uma granada.
E o problema se concentra especialmente entre 700 e 800 quilômetros de altitude, onde nuvens densas de escombros podem persistir por séculos. Para Jan Siminski, integrante do time de monitoramento de lixo espacial da ESA, a detecção ainda é limitada: radares terrestres só conseguem identificar objetos do tamanho de uma bola de tênis. Qualquer coisa menor escapa, elevando continuamente o risco.
A proposta: monitorar tudo, remover o que importa
A solução idealizada por Askianakis combina tecnologia de sensoriamento avançado e remoção ativa. O plano do Projeto-S envolve:
- Um satélite equipado com radar de alta sensibilidade, capaz de detectar fragmentos de 1 a 10 cm — uma faixa quase invisível para os sistemas atuais;
- Algoritmos e padrões de varredura próprios, desenvolvidos para mapear a órbita de forma contínua;
- Sondas com braços robóticos, responsáveis por capturar e retirar os detritos maiores.
Uma conversa com engenheiros da Airbus foi decisiva. Eles reconheceram o problema e incentivaram o jovem a prosseguir. Pouco depois, uma nova legislação espacial da União Europeia passou a obrigar operadores de satélites a remover os detritos que produzem — uma oportunidade perfeita para quem quer oferecer o serviço comercialmente.
Baviera investe: a startup encontra seu espaço
Fundar uma empresa espacial exige mais do que entusiasmo técnico — exige dinheiro. E foi o governo da Baviera que decidiu apostar no projeto. O ministro da Economia do estado, Hubert Aiwanger, afirma que a região quer se consolidar como o coração da indústria espacial europeia. Desde 2018, já foram investidos mais de 245 milhões de euros no setor.
O Projeto-S receberá cerca de 1 milhão de euros em cofinanciamento para sua primeira missão, prevista para 2026. Isso garante a Askianakis estabilidade e independência, algo raro para startups espaciais. Muitos investidores dos EUA, diz ele, só apoiam sob a condição de mudança para a América. Para o jovem, porém, a Baviera já oferece o ambiente ideal.
Um ecossistema que mira alto

A ambição bávara é clara. O estado concentra mais de 10 mil empregos qualificados no setor espacial e quase 40% dos contratos da Alemanha com a ESA desde 2015. O governo federal também promete investir 35 bilhões de euros em capacidades espaciais e defesa, o que fortalece ainda mais o ambiente de inovação regional.
Askianakis acredita que sua startup se beneficiará desse ecossistema. E seu objetivo é simples, embora gigantesco: garantir que, à medida que o espaço fica mais congestionado, a órbita permaneça navegável para novas missões, empresas e astronautas.
No fim das contas, alguém precisa liberar o céu — e ele decidiu assumir essa tarefa.
[ Fonte: DW ]