O câncer de pâncreas continua sendo um dos maiores desafios da oncologia moderna. Silencioso no início e extremamente agressivo, ele costuma ser diagnosticado tarde e responde mal aos tratamentos disponíveis. Agora, um estudo espanhol apresenta um resultado raro: a eliminação completa dos tumores em modelos animais usando uma combinação de três fármacos. A descoberta aponta para uma mudança de estratégia — sair do ataque isolado e apostar em terapias combinadas e racionais.
Um triplo ataque contra os motores do tumor

O trabalho foi conduzido pela Fundação Cris Contra el Cáncer, uma das principais instituições de pesquisa oncológica da Espanha, sob liderança do oncologista e pesquisador Mariano Barbacid. Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo focou no adenocarcinoma ductal de pâncreas, o tipo mais comum da doença.
A abordagem foi direta: bloquear simultaneamente três mecanismos fundamentais para a sobrevivência das células tumorais. O primeiro alvo é o oncogene KRAS, considerado o principal motor do câncer de pâncreas. Os outros dois são as proteínas EGFR e STAT3, envolvidas tanto no crescimento quanto na resistência dos tumores aos tratamentos.
Separadamente, esses alvos já eram conhecidos pela ciência. A novidade está na combinação. Ao inibir os três ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram o desaparecimento completo dos tumores em diferentes modelos de camundongos, incluindo modelos PDX — que utilizam tecidos tumorais retirados de pacientes reais.
Resposta completa, duradoura e com baixa toxicidade
Os resultados chamaram atenção não apenas pela eficácia, mas também pela durabilidade. Mais de 200 dias após o fim do tratamento, os animais continuavam livres de câncer. Além disso, não foram observados efeitos colaterais relevantes, um ponto crítico quando se fala em terapias oncológicas agressivas.
Segundo Barbacid, trata-se de um marco experimental. Pela primeira vez, foi possível obter uma resposta completa e sustentada contra o câncer de pâncreas em laboratório, com toxicidade baixa. Para o pesquisador, isso indica que estratégias combinadas, desenhadas de forma racional, podem mudar o rumo desse tipo de tumor.
O impacto potencial é enorme. Hoje, apenas entre 8% e 10% dos pacientes com câncer de pâncreas sobrevivem cinco anos após o diagnóstico. Na Espanha, mais de 10 mil novos casos são registrados anualmente, e o número segue em crescimento. No Brasil, o cenário é semelhante, com alta mortalidade e poucas opções terapêuticas realmente eficazes.
O que falta para chegar aos pacientes
Apesar do entusiasmo, ainda há um caminho importante até os testes em humanos. O próximo passo é iniciar ensaios clínicos, o que depende de financiamento e de autorizações regulatórias. Parte da estratégia já conta com medicamentos em estágios avançados de desenvolvimento, mas nem todos estão aprovados para esse tipo de tumor.
O inibidor de KRAS utilizado no estudo, chamado RMC-6236, pode receber aprovação para algumas indicações até 2027, embora exista a possibilidade de chegar ao mercado já no próximo ano. Já os degradadores de STAT3 ainda não têm aprovação formal, mas estão sendo testados em leucemia mieloide aguda, o que pode acelerar seu uso em outros cânceres.
O principal entrave, segundo Barbacid, é o Afatinib, o inibidor de EGFR usado na pesquisa. Embora aprovado pela FDA para certos tipos de câncer de pulmão, ele ainda não tem autorização para tumores associados a mutações em KRAS — justamente o cenário mais comum no câncer de pâncreas.
Pressão por agilidade regulatória

Para a Fundação Cris Contra el Cáncer, o momento pede rapidez. A presidente da instituição, Lola Manterola, defendeu maior colaboração entre governos e agências reguladoras para acelerar a aprovação de medicamentos inovadores, especialmente dentro de programas de acesso prioritário.
Se os resultados se confirmarem em humanos, a combinação pode inaugurar uma nova fase no tratamento do câncer de pâncreas. Não se trata de um remédio milagroso, mas de uma mudança de lógica: atacar vários pontos vitais do tumor ao mesmo tempo. Para uma doença que há décadas avança mais rápido do que as terapias, essa pode ser a virada que a oncologia esperava.
[ Fonte: Infobae ]