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Ciência

Uma combinação de três medicamentos conseguiu apagar tumores de pâncreas em modelos animais — e abre caminho para uma nova estratégia contra um dos cânceres mais letais

Pesquisadores liderados por Mariano Barbacid mostraram que atacar três alvos centrais do câncer de pâncreas pode eliminar completamente os tumores em camundongos, com baixa toxicidade e resposta duradoura. O avanço, apoiado pela Fundação Cris Contra el Cáncer, reacende a esperança de terapias combinadas mais eficazes para uma doença que ainda tem prognóstico devastador.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O câncer de pâncreas continua sendo um dos maiores desafios da oncologia moderna. Silencioso no início e extremamente agressivo, ele costuma ser diagnosticado tarde e responde mal aos tratamentos disponíveis. Agora, um estudo espanhol apresenta um resultado raro: a eliminação completa dos tumores em modelos animais usando uma combinação de três fármacos. A descoberta aponta para uma mudança de estratégia — sair do ataque isolado e apostar em terapias combinadas e racionais.

Um triplo ataque contra os motores do tumor

Proteína minúscula criada com IA pode mudar o jogo contra o câncer
© https://x.com/divulgan2/

O trabalho foi conduzido pela Fundação Cris Contra el Cáncer, uma das principais instituições de pesquisa oncológica da Espanha, sob liderança do oncologista e pesquisador Mariano Barbacid. Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo focou no adenocarcinoma ductal de pâncreas, o tipo mais comum da doença.

A abordagem foi direta: bloquear simultaneamente três mecanismos fundamentais para a sobrevivência das células tumorais. O primeiro alvo é o oncogene KRAS, considerado o principal motor do câncer de pâncreas. Os outros dois são as proteínas EGFR e STAT3, envolvidas tanto no crescimento quanto na resistência dos tumores aos tratamentos.

Separadamente, esses alvos já eram conhecidos pela ciência. A novidade está na combinação. Ao inibir os três ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram o desaparecimento completo dos tumores em diferentes modelos de camundongos, incluindo modelos PDX — que utilizam tecidos tumorais retirados de pacientes reais.

Resposta completa, duradoura e com baixa toxicidade

Os resultados chamaram atenção não apenas pela eficácia, mas também pela durabilidade. Mais de 200 dias após o fim do tratamento, os animais continuavam livres de câncer. Além disso, não foram observados efeitos colaterais relevantes, um ponto crítico quando se fala em terapias oncológicas agressivas.

Segundo Barbacid, trata-se de um marco experimental. Pela primeira vez, foi possível obter uma resposta completa e sustentada contra o câncer de pâncreas em laboratório, com toxicidade baixa. Para o pesquisador, isso indica que estratégias combinadas, desenhadas de forma racional, podem mudar o rumo desse tipo de tumor.

O impacto potencial é enorme. Hoje, apenas entre 8% e 10% dos pacientes com câncer de pâncreas sobrevivem cinco anos após o diagnóstico. Na Espanha, mais de 10 mil novos casos são registrados anualmente, e o número segue em crescimento. No Brasil, o cenário é semelhante, com alta mortalidade e poucas opções terapêuticas realmente eficazes.

O que falta para chegar aos pacientes

Apesar do entusiasmo, ainda há um caminho importante até os testes em humanos. O próximo passo é iniciar ensaios clínicos, o que depende de financiamento e de autorizações regulatórias. Parte da estratégia já conta com medicamentos em estágios avançados de desenvolvimento, mas nem todos estão aprovados para esse tipo de tumor.

O inibidor de KRAS utilizado no estudo, chamado RMC-6236, pode receber aprovação para algumas indicações até 2027, embora exista a possibilidade de chegar ao mercado já no próximo ano. Já os degradadores de STAT3 ainda não têm aprovação formal, mas estão sendo testados em leucemia mieloide aguda, o que pode acelerar seu uso em outros cânceres.

O principal entrave, segundo Barbacid, é o Afatinib, o inibidor de EGFR usado na pesquisa. Embora aprovado pela FDA para certos tipos de câncer de pulmão, ele ainda não tem autorização para tumores associados a mutações em KRAS — justamente o cenário mais comum no câncer de pâncreas.

Pressão por agilidade regulatória

Pâncreas
© E-Crow – Shutterstock

Para a Fundação Cris Contra el Cáncer, o momento pede rapidez. A presidente da instituição, Lola Manterola, defendeu maior colaboração entre governos e agências reguladoras para acelerar a aprovação de medicamentos inovadores, especialmente dentro de programas de acesso prioritário.

Se os resultados se confirmarem em humanos, a combinação pode inaugurar uma nova fase no tratamento do câncer de pâncreas. Não se trata de um remédio milagroso, mas de uma mudança de lógica: atacar vários pontos vitais do tumor ao mesmo tempo. Para uma doença que há décadas avança mais rápido do que as terapias, essa pode ser a virada que a oncologia esperava.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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