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Ciência

A Amazônia não é o “pulmão do planeta”: o que a ciência realmente diz sobre o oxigênio da Terra

Por décadas, repetiu-se que a Amazônia produz “20% do oxigênio do mundo”. A imagem é poderosa e mobilizadora — mas cientificamente equivocada. Estudos mostram que a contribuição líquida da floresta ao oxigênio atmosférico atual é próxima de zero. Ainda assim, seu papel climático continua crucial, mas por razões bem diferentes do mito.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A ideia da Amazônia como o “pulmão da Terra” ganhou força em discursos ambientais, livros didáticos e campanhas de conservação. No entanto, pesquisadores que estudam os ciclos de carbono e oxigênio afirmam que essa analogia, embora bem-intencionada, distorce o funcionamento real da floresta. A produção e o consumo de oxigênio nos ecossistemas modernos ocorrem de forma equilibrada. E é esse equilíbrio que desmonta o mito.

Por que o mito do oxigênio está errado

Amazonas Rio
© Unsplash

O equívoco começa na interpretação da fotossíntese. Árvores e plantas capturam dióxido de carbono (CO₂) e liberam oxigênio (O₂). Mas o mesmo oxigênio é consumido pela própria floresta — tanto pelas plantas, que respiram durante a noite, quanto pelos microrganismos que decompõem matéria orgânica no solo.

Michael Coe, diretor do Programa Amazônico no Woods Hole Research Center, resume de forma direta:

“A contribuição líquida de oxigênio da Amazônia é aproximadamente zero.”

Ou seja: embora a floresta produza muito oxigênio durante o dia, ela consome praticamente a mesma quantidade ao longo de seu ciclo.

Quanto oxigênio vem realmente da Amazônia?

Pesquisas do ecólogo de Oxford, Yadvinder Malhi, mostram que:

  • as florestas tropicais correspondem a cerca de 34% da fotossíntese terrestre;

  • a Amazônia representa cerca da metade desse total, chegando a aproximadamente 16% do oxigênio produzido em terra.

Mas isso muda quando se considera o oceano. O fitoplâncton marinho — microalgas microscópicas — é responsável pela maior parte da fotossíntese global. Quando incluído:

  • a contribuição amazônica cai para entre 6% e 9% na produção de oxigênio.

E, novamente, quase todo esse oxigênio é consumido no próprio ecossistema. O ar que respiramos hoje é resultado de bilhões de anos de acúmulo de oxigênio no passado geológico, não da produção atual.

Então quem é o verdadeiro “produtor” de oxigênio do planeta?

O principal responsável é o fitoplâncton marinho, que, ao longo de eras, liberou oxigênio que se acumulou na atmosfera. Porém, isso só foi possível quando parte dessa biomassa foi enterrada no fundo do oceano antes de ser decomposta. Se tivesse se decomposto, o processo teria consumido todo o oxigênio liberado.

Como explica o climatólogo Scott Denning, da Universidade Estadual do Colorado:

“A atmosfera moderna é um legado da história biológica do planeta, não da fotossíntese que está acontecendo agora.”

Por que a Amazônia continua sendo essencial

Amazonas
© Unsplash

Se a floresta não fornece “20% do oxigênio”, por que preservá-la?

Três razões principais:

1. Regulação climática global

A floresta armazena enormes quantidades de carbono. Quando desmatada, esse carbono volta à atmosfera, aquecendo o planeta. Por isso, ela funciona não como um pulmão, mas como um gigantesco sistema de resfriamento natural.

2. Ciclos de chuva

A Amazônia influencia o regime de chuvas em boa parte da América do Sul, incluindo o agronegócio no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

3. Biodiversidade

A região abriga a maior diversidade terrestre conhecida — uma riqueza biológica única e irreproduzível.

Como afirma o cientista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP:

“A Amazônia é vital para a estabilidade climática, hídrica e ecológica. O mito do oxigênio não deve nos desviar do que realmente importa.”

Um símbolo que precisa ser atualizado

Chamar a Amazônia de “pulmão do mundo” é uma metáfora que ajudou a conscientizar, mas que agora pode confundir mais do que esclarecer. Os cientistas defendem uma narrativa que reflita seu papel real:

  • não um pulmão, mas um sistema de resfriamento global;

  • não uma fábrica de oxigênio, mas uma guardiã da estabilidade climática.

Preservá-la continua urgente — não para respirarmos amanhã, mas para garantirmos um planeta habitável nas próximas gerações.

 

[ Fonte: National Geographic ]

 

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