Os robôs humanoides deixaram de ser apenas uma promessa distante e começaram a atrair dinheiro em uma escala difícil de ignorar. Na China, investidores estão colocando cifras enormes em empresas que apostam que essas máquinas serão capazes de transformar fábricas, armazéns e até tarefas do cotidiano. O detalhe é que esse futuro ainda não chegou completamente. E é justamente aí que começa a parte mais interessante desta história.
O mercado ainda é pequeno, mas alguém já está apostando no futuro
A febre começou a ganhar uma nova dimensão quando a Unitree, fabricante chinesa conhecida por seus robôs quadrúpedes e humanoides, estreou na Bolsa de Xangai. A empresa levantou cerca de US$ 904 milhões em sua oferta pública inicial e viu suas ações dispararem durante o primeiro pregão.
Em determinado momento, a alta ultrapassou 600%. No fechamento, o avanço ainda estava próximo de 460%, levando a companhia a uma capitalização de mercado superior a US$ 50 bilhões.
É um número impressionante para uma empresa inserida em um setor que ainda está tentando descobrir qual será seu verdadeiro tamanho.
A explicação está menos no que a Unitree vende hoje e mais no que os investidores imaginam que ela poderá vender amanhã. Os humanoides são vistos como uma possível próxima grande plataforma tecnológica, especialmente se conseguirem realizar tarefas variadas sem depender de programação específica para cada movimento.
O fundador da Unitree, Wang Xingxing, chegou a comparar o possível salto da robótica a um “momento ChatGPT”. A ideia é que os robôs consigam receber instruções, compreender o contexto e executar atividades novas de maneira muito mais flexível.
O prazo, porém, é incerto. Esse salto poderia acontecer em apenas dois ou três anos, segundo o cenário mais otimista, mas também poderia levar cinco ou dez anos.
O detalhe que muda a história está em quem compra essas máquinas
Existe uma questão menos evidente por trás dos números impressionantes: quem está realmente comprando os robôs?
A Unitree já acumulou milhares de unidades distribuídas e ganhou notoriedade com máquinas capazes de correr, saltar e executar movimentos cada vez mais sofisticados. Mas a demanda atual ainda não significa necessariamente que empresas estejam substituindo trabalhadores por humanoides em larga escala.
Na China, parte importante do ecossistema está ligada a centros de treinamento. O país possui mais de 90 instalações desse tipo apoiadas por governos locais, segundo uma investigação do Financial Times.
Esses centros ajudam a desenvolver a tecnologia. Os robôs realizam diferentes tarefas e geram enormes quantidades de dados sobre movimentos e comportamento. Essas informações podem posteriormente ser utilizadas pelos próprios fabricantes para melhorar seus sistemas.
O modelo cria um ciclo interessante: os governos ajudam a financiar a infraestrutura, os centros compram robôs e os fabricantes obtêm dados importantes para desenvolver máquinas mais capazes.
Mas existe uma consequência. Torna-se mais difícil saber quanto da demanda atual representa um mercado comercial consolidado e quanto está relacionado ao próprio esforço chinês para acelerar o desenvolvimento da tecnologia.
Além disso, muitos humanoides continuam caros, relativamente lentos e limitados a determinadas tarefas. A distância entre demonstrar que um robô consegue fazer algo e provar que ele pode fazer aquilo de maneira barata, confiável e durante milhares de horas ainda é considerável.
A China pode estar construindo a indústria antes de saber exatamente quem será o cliente
Essa estratégia não surgiu do nada. A China já utilizou políticas industriais, financiamento e incentivos para acelerar setores como veículos elétricos, baterias e painéis solares.
Em vários desses mercados, o processo produziu inicialmente excesso de capacidade e uma forte competição entre fabricantes. Com o tempo, porém, algumas empresas chinesas conseguiram conquistar posições relevantes no mercado mundial.
A robótica humanoide pode seguir uma trajetória parecida.
Enquanto a demanda comercial ainda amadurece, a China está criando fornecedores, fábricas, centros de treinamento, cadeias de componentes e infraestrutura necessária para produzir essas máquinas em escala.
Para uma empresa como a Unitree, isso pode representar uma vantagem enorme caso o mercado realmente exploda.
É justamente por isso que sua valorização chama tanta atenção. Os investidores não parecem estar avaliando apenas a quantidade de robôs vendidos atualmente, mas a possibilidade de a empresa ocupar uma posição importante em uma indústria que ainda está sendo formada.
E aí aparece o grande risco.
Se os humanoides finalmente conseguirem executar tarefas complexas, com autonomia e baixo custo, essa preparação antecipada poderá parecer uma jogada brilhante. A empresa terá experiência, fornecedores e uma base instalada quando a concorrência estiver tentando alcançar o mesmo nível.
Mas, se a tecnologia avançar mais lentamente ou as empresas descobrirem que existem poucas tarefas realmente vantajosas para esses robôs, parte dessa enorme aposta poderá ter sido construída sobre expectativas muito maiores do que o mercado real.
No fim, a pergunta não é apenas quanto a China está investindo nos robôs humanoides. É se ela conseguirá criar uma demanda suficientemente grande para justificar tudo o que está sendo construído antes que essa demanda exista.