Pular para o conteúdo
Ciência

Uma fábrica de fungos pode estar prestes a mudar a indústria de materiais

Um novo biomaterial feito a partir de fungos acaba de superar um dos maiores obstáculos para substituir o couro: sair do laboratório e ganhar uma fabricação contínua.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

O couro tradicional combina resistência, flexibilidade e durabilidade como poucos materiais conseguem. Suas alternativas sintéticas, por outro lado, frequentemente dependem de plásticos derivados do petróleo. Agora, pesquisadores na Finlândia estão seguindo uma terceira rota: cultivar uma estrutura produzida por fungos e transformá-la em um material semelhante ao couro. E o mais interessante não está apenas na matéria-prima, mas na maneira como ela pode ser fabricada.

O maior desafio não era criar o material, mas produzir em escala

O protagonista dessa história é o micélio, uma rede de filamentos que forma a estrutura de crescimento dos fungos. Nos últimos anos, ele passou a chamar atenção como matéria-prima para biomateriais capazes de substituir produtos de origem animal ou derivados de petróleo.

Mas existe um problema prático.

Muitos métodos utilizados para produzir materiais de micélio dependem de bandejas ou recipientes nos quais o fungo cresce até formar uma estrutura compacta. Isso funciona para pequenas amostras, mas se torna muito mais complicado quando a intenção é fabricar quilômetros de material de maneira consistente.

Pesquisadores do Centro de Pesquisa Técnica VTT, na Finlândia, decidiram atacar justamente essa limitação.

Em vez de cultivar o fungo diretamente sobre uma superfície para formar uma folha, a equipe utilizou Trichoderma reesei em um processo de fermentação submersa. O fungo cresce dentro de um líquido rico em nutrientes, em biorreatores semelhantes aos utilizados em outros processos industriais de fermentação.

O resultado é uma massa fibrosa de micélio que pode ser posteriormente processada.

Essa mudança parece técnica, mas tem uma consequência enorme: o material deixa de depender do tamanho de uma bandeja individual e passa a poder seguir uma rota de produção contínua.

É aí que a pesquisa começa a se aproximar de algo que a indústria realmente poderia utilizar.

De uma massa de fungos a uma espécie de couro em rolo

Depois de cultivada, a biomassa é coletada, lavada e combinada com outros componentes, incluindo sorbitol e celulose. A mistura ajuda a ajustar propriedades como flexibilidade e resistência.

Em seguida, o material é espalhado em camadas finas e seco. O processo produz uma espécie de tecido não tecido com aparência e características semelhantes às do couro.

Também é possível modificar sua aparência e acabamento. Pigmentos podem ser adicionados, a textura pode ser ajustada e o material pode ser aplicado diretamente sobre tecidos de algodão.

Mas o verdadeiro teste veio quando os pesquisadores deixaram de trabalhar apenas com pequenas amostras.

A equipe utilizou um sistema contínuo de rolos inspirado nos equipamentos empregados pela indústria de papel. Com ele, conseguiu fabricar uma faixa de aproximadamente 20 centímetros de largura e oito metros de comprimento.

Parte desse material foi transformada em um bolso preto funcional.

O objeto demonstra algo mais importante do que simplesmente a existência de outro “couro de cogumelo”: o processo pode produzir uma folha contínua, em vez de exigir que cada peça seja cultivada separadamente.

Essa possibilidade abre caminho para uma fabricação muito mais compatível com processos industriais já conhecidos.

Ainda assim, o material não está pronto para substituir todo o couro convencional.

couro
© Anna Tarazevich – Pexels

A resistência já impressiona, mas ainda existe uma fraqueza

Nos testes mecânicos, o biomaterial apresentou resistência à tração comparável à do couro tradicional. Isso significa que consegue suportar forças significativas quando é puxado em direções opostas sem se romper imediatamente.

Para produtos como bolsas, roupas e acessórios, porém, a resistência à tração não é suficiente.

Esses objetos precisam suportar perfurações, dobraduras, atrito e pequenos cortes que podem evoluir rapidamente para rasgos. E é justamente nesse ponto que o novo material ainda apresenta uma deficiência: sua resistência ao rasgo precisa melhorar.

Essa característica pode ser decisiva para determinar quais aplicações comerciais serão realmente viáveis.

Um material pode funcionar perfeitamente em um acessório decorativo e ainda não estar preparado para enfrentar anos de uso intenso em calçados, móveis ou outros produtos submetidos a esforços constantes.

Por isso, os pesquisadores ainda precisam aprimorar a formulação e demonstrar que o desempenho permanece estável em condições mais próximas das encontradas no mundo real.

Mesmo assim, existe outra característica que torna o material especialmente interessante quando pensamos no fim de sua vida útil.

A diferença aparece quando o produto deixa de ser útil

Em testes controlados, o material apresentou degradação em água ao longo de 28 dias. Sob condições de compostagem industrial, a desintegração completa ocorreu em aproximadamente seis semanas.

É importante não interpretar isso como se uma bolsa feita desse material fosse simplesmente desaparecer depois de 42 dias. Esses resultados foram obtidos em condições específicas de biodegradação e não representam o comportamento do produto em um armário, em um aterro ou abandonado ao ar livre.

A proposta é justamente criar um equilíbrio diferente: resistir enquanto está sendo utilizado, mas não permanecer indefinidamente como resíduo depois do descarte.

Esse é um dos grandes desafios dos materiais sustentáveis.

O couro convencional pode ter longa durabilidade, enquanto muitas alternativas sintéticas incorporam polímeros que permanecem no ambiente por períodos muito maiores. O material desenvolvido na Finlândia tenta combinar desempenho durante o uso com uma degradação muito mais rápida ao final da vida útil.

E talvez essa seja a parte mais importante da pesquisa.

O micélio não precisa mais ser cultivado individualmente na forma do produto final. Graças ao processo contínuo, ele pode ser transformado em folhas de vários metros produzidas em rolos.

Ainda falta melhorar propriedades mecânicas e demonstrar viabilidade econômica em grande escala. Mas a barreira mudou de lugar: a pergunta já não é apenas se fungos podem produzir um material parecido com couro.

Agora começa uma questão muito mais interessante: até onde essa fábrica biológica pode chegar?

Partilhe este artigo

Artigos relacionados