Nas montanhas suíças, existe uma infraestrutura que normalmente só ganha protagonismo quando chega o frio. Reservatórios, bombas, tubulações e centenas de equipamentos trabalham juntos para garantir neve suficiente nas pistas. Mas o cenário está mudando. Com verões mais quentes e períodos de seca mais frequentes, uma estação de esqui começou a olhar para toda essa estrutura de uma maneira completamente diferente.
Uma rede construída para fabricar neve
Durante o inverno, Adelboden-Lenk, nos Alpes suíços, depende de uma extensa rede hidráulica para manter suas pistas funcionando. A estação possui cerca de 200 quilômetros de pistas, espalhadas por altitudes entre aproximadamente 1.000 e 2.300 metros.
A localização ajuda a explicar o problema. Como se trata de uma estação de média montanha, o aumento das temperaturas torna a neve natural cada vez menos previsível. Hoje, cerca de 70% da neve utilizada nas pistas precisa ser produzida artificialmente.
Para isso, a infraestrutura é considerável: são aproximadamente 210 canhões de neve e 50 lanças conectados por bombas e dezenas de quilômetros de tubulações subterrâneas. A estação também possui reservatórios que acumulam água da chuva e do degelo durante os meses mais quentes para utilizá-la posteriormente.
É justamente aí que surgiu uma ideia inesperada.
Em vez de deixar boa parte desse sistema praticamente sem utilização durante o verão, os responsáveis começaram a estudar se a mesma estrutura poderia ajudar a enfrentar um problema que cresce justamente nessa época: os incêndios florestais.
A proposta não significa simplesmente apontar os canhões de neve para as chamas. O verdadeiro recurso valioso está escondido por baixo da montanha: uma rede de distribuição de água já instalada e preparada para transportar grandes volumes.
Os canhões podem ganhar uma segunda missão
A ideia mais interessante está em transformar a infraestrutura de produção de neve em uma espécie de rede hidráulica de emergência.
Os próprios canhões poderiam, em determinadas situações, ser usados para umedecer terrenos ou proteger áreas próximas de infraestruturas importantes. Porém, essa seria apenas uma das possibilidades.
Os bombeiros poderiam utilizar pontos específicos da rede para obter água diretamente das tubulações, levando o recurso para áreas onde fosse necessário durante uma emergência.
Os reservatórios também poderiam desempenhar um papel importante. Helicópteros usados no combate a incêndios poderiam reabastecer seus tanques diretamente nesses locais, reduzindo o tempo necessário para encontrar fontes de água e permitindo realizar mais operações consecutivas.
Existe ainda uma possibilidade preventiva: usar a água para manter determinadas faixas de terreno úmidas antes que o fogo alcance a região. A ideia seria criar uma espécie de barreira de proteção capaz de retardar a propagação das chamas e oferecer mais tempo para os bombeiros atuarem.
Não seria uma solução mágica, mas aproveitaria uma estrutura que já existe e que, durante boa parte do verão, tem uma utilização muito menor.
Os Alpes também começam a levar o fogo mais a sério
A proposta ganha importância diante da mudança nas condições climáticas observadas nos Alpes.
A Suíça não enfrenta necessariamente o mesmo cenário de incêndios registrado em partes do sul da Europa, como Espanha, Portugal ou Grécia. A vegetação, o relevo e as condições locais são diferentes. Ainda assim, períodos de maior secura estão aumentando a preocupação das autoridades e dos operadores de áreas montanhosas.
Na região de Adelboden, os períodos de solo seco podem começar antes mesmo do auge do verão. Isso faz com que um sistema pensado originalmente para lidar com a falta de neve no inverno possa adquirir uma função completamente diferente alguns meses depois.
Mas existe uma ressalva importante: a proposta ainda está sendo estudada. Não significa que Adelboden-Lenk já tenha transformado sua rede de neve em um sistema comprovadamente capaz de combater grandes incêndios.
Especialistas também lembram que poucas regiões possuem uma infraestrutura hidráulica tão extensa. A maioria das florestas suíças não conta com quilômetros de tubulações subterrâneas e grandes reservatórios prontos para serem utilizados em emergências.
Por isso, o projeto deve ser visto principalmente como uma estratégia de adaptação local.
E talvez seja justamente essa a parte mais curiosa da história. Durante décadas, a estação construiu uma enorme estrutura para resolver um problema típico do inverno: a falta de neve. Agora, enquanto o clima torna os verões mais quentes e secos, a mesma infraestrutura pode ajudar a enfrentar o problema oposto.
Nos Alpes, aquilo que foi construído para levar água às pistas quando falta neve pode acabar sendo usado para levar água às montanhas quando sobra fogo.