A chegada da inteligência artificial às empresas não é mais uma promessa futurista: ela já está mudando a forma como o trabalho acontece. De Wall Street ao varejo digital, tarefas que antes pertenciam a estagiários e recém-formados agora podem ser executadas por algoritmos. Para quem está entrando no mercado, o cenário é desafiador e pode alterar de forma duradoura o início das carreiras de colarinho branco.
CEOs soam o alarme sobre a substituição de empregos
O alerta vem de altos executivos. Jim Farley, CEO da Ford, afirmou recentemente que “a inteligência artificial vai substituir literalmente metade dos trabalhadores de escritório nos Estados Unidos”. Aravind Srinivas, da Perplexity, prevê que recrutadores e assistentes executivos podem ser substituídos em apenas seis meses.
Exemplos não faltam. A Anthropic lançou, em julho, um assistente de IA capaz de realizar praticamente todas as tarefas de um estagiário de finanças em Wall Street. O CEO do Shopify, Tobias Lütke, exigiu que gerentes só contratem alguém se puderem justificar por que a IA não faria melhor o trabalho. Empresas como Duolingo seguiram o mesmo caminho, cortando vagas iniciais e repensando contratações.
Para John McCarthy, professor da Cornell University, o efeito é profundo: “Estamos diante de um colapso nas primeiras etapas das carreiras de colarinho branco, e essa base está começando a ser retirada”.
Jovens formados enfrentam um mercado hostil
Relatórios recentes confirmam a dificuldade. O Federal Reserve de Nova York indicou que o mercado de trabalho para jovens graduados, entre 22 e 27 anos, “deteriorou-se visivelmente” no primeiro trimestre de 2025. O desemprego atingiu seu ponto mais alto desde a pandemia, e a diferença entre a taxa para recém-formados e para todos os trabalhadores é a maior desde 1990.
Embora fatores macroeconômicos, como o fim do boom de contratações pós-Covid e o desaquecimento econômico, também influenciem, a IA tem peso relevante. Ela é especialmente eficaz em tarefas básicas, justamente as que os iniciantes costumam executar.
McCarthy alerta para o risco de uma “geração perdida”: jovens que entram no mercado durante a transição para a automação podem ver suas oportunidades evaporarem. Com menos vagas de treinamento prático, aumenta a dependência de estágios em empresas de elite e redes de contato, ampliando desigualdades.
IA: ameaça real ou bode expiatório?
Nem todos concordam que o impacto imediato seja tão dramático. Robert Seamans, professor da Universidade de Nova York, argumenta que a taxa de adoção da IA ainda é baixa fora dos setores de tecnologia, finanças e pesquisa científica. Implementar sistemas inteligentes exige mão de obra especializada para treinar e supervisionar os modelos, o que muitas empresas ainda não têm.
Segundo ele, algumas companhias podem estar usando a IA como desculpa para cortes ou congelamentos de contratações. “É muito mais fácil culpar a tecnologia do que tarifas ou incertezas econômicas”, afirma. Ainda assim, Seamans reconhece que há sinais de que a IA já contribui para a retração do mercado, mesmo que parcialmente.
O futuro incerto das carreiras de entrada
A grande questão é que o modelo tradicional de carreira – começar em posições júnior para aprender e crescer – está sendo redesenhado. Sem políticas públicas, ajustes educacionais e novas normas de contratação, uma geração inteira corre o risco de ver seu início profissional comprometido.
Para McCarthy, a solução passa por ação governamental e adaptação das empresas, mas ele não demonstra grande otimismo quanto à velocidade dessas mudanças. Seamans, por sua vez, defende que os Estados Unidos acompanhem em tempo real a adoção da IA para medir seu impacto real e criar políticas eficazes.
Seja ameaça ou bode expiatório, a inteligência artificial já está pressionando o mercado de trabalho. E, para milhares de jovens que sonham com uma carreira estável, cada vaga perdida para um algoritmo parece transformar esse sonho em um desafio cada vez mais distante.