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Tecnologia

Uma nova tecnologia transforma os dispositivos que carregamos em uma espécie de rastro digital

Uma tecnologia está mudando a lógica da vigilância: em vez de identificar primeiro uma pessoa, ela observa os aparelhos ao redor e procura padrões que se repetem.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, a vigilância eletrônica seguiu uma lógica relativamente simples: uma câmera registra uma placa, alguém consulta o veículo e, a partir daí, tenta descobrir quem estava dentro dele. Uma nova tecnologia propõe inverter esse caminho. Ela observa os sinais emitidos pelos aparelhos que nos acompanham e transforma combinações aparentemente banais em uma espécie de assinatura digital. O mais curioso é que o nome da pessoa pode ser a última informação a aparecer.

A assinatura que nasce dos aparelhos ao seu redor

A tecnologia se chama SignalTrace e está sendo comercializada pela empresa Leonardo para forças de segurança dos Estados Unidos. Sua proposta amplia as possibilidades dos tradicionais leitores automáticos de placas.

Em vez de depender apenas da identificação visual de um automóvel, sensores podem captar sinais e identificadores emitidos por dispositivos próximos. Um carro pode passar acompanhado por um celular, um smartwatch, fones de ouvido, um sistema multimídia e até uma etiqueta eletrônica.

Isoladamente, nenhum desses aparelhos é necessariamente uma pista muito específica. Mas a combinação pode ser bastante diferente.

Imagine, por exemplo, milhares de veículos circulando com celulares semelhantes. Um deles, porém, aparece repetidamente junto de determinado modelo de smartphone, um sistema de entretenimento automotivo, fones específicos, um relógio e outro dispositivo eletrônico. Com o tempo, essa combinação pode formar uma chamada “impressão digital eletrônica”.

O sistema consegue relacionar essas assinaturas e cruzá-las com informações obtidas por câmeras de leitura de placas. Assim, um padrão que inicialmente não possui nome ou identidade pode passar a ser reconhecido sempre que volta a aparecer.

É justamente essa mudança de lógica que torna a tecnologia tão interessante — e também tão controversa.

O carro pode ser reconhecido mesmo quando a placa desaparece

Uma das possibilidades apresentadas pela Leonardo é justamente identificar um veículo associado a determinada assinatura eletrônica mesmo quando sua placa não é registrada posteriormente.

Isso significa que a vigilância deixa de depender exclusivamente de uma imagem do automóvel. Os aparelhos que viajam juntos podem funcionar como uma espécie de rastro complementar.

O sistema também pode procurar grupos de assinaturas que costumam aparecer simultaneamente. Na prática, isso poderia ajudar investigadores a identificar padrões de deslocamento ou grupos de veículos que viajam juntos.

E existe outro detalhe importante: os sensores não precisam necessariamente estar instalados ao lado de uma câmera de trânsito. Eles poderiam ser utilizados em outros ambientes, como áreas comerciais, estações de transporte e diferentes espaços públicos.

A consequência é uma mudança significativa na pergunta feita pelo sistema. Em vez de começar com “quem é essa pessoa?”, a tecnologia pode começar com algo muito mais discreto: “quais dispositivos aparecem juntos aqui?”

Com repetição suficiente, esse padrão pode se tornar identificável.

Não é preciso ler suas mensagens para descobrir muita coisa

A Leonardo afirma que o SignalTrace não decifra nem acessa o conteúdo das comunicações. A tecnologia trabalha com sinais e identificadores emitidos pelos dispositivos.

Isso, porém, não significa automaticamente que os dados sejam anônimos.

Pesquisas anteriores já demonstraram como os padrões de localização e proximidade podem revelar informações altamente específicas sobre indivíduos. Um estudo publicado na Scientific Reports, por exemplo, analisou dados de mobilidade de 1,5 milhão de pessoas e concluiu que apenas quatro combinações de localização e horário poderiam distinguir 95% dos participantes.

Outro trabalho, publicado na PNAS, mostrou que informações obtidas por smartphones e proximidade Bluetooth poderiam ser usadas para inferir relações sociais com elevada precisão.

Essas pesquisas não estudaram especificamente o SignalTrace, mas ajudam a explicar por que a discussão sobre a tecnologia vai muito além da leitura de placas.

Existe ainda uma limitação evidente: um dispositivo detectado dentro ou perto de um carro não prova quem o está utilizando. Pode pertencer ao motorista, a um passageiro ou simplesmente a alguém que estava próximo.

Nem todos os aparelhos transmitem sinais úteis o tempo inteiro, e as condições reais também podem dificultar a coleta.

Por isso, o sistema deve ser entendido como uma ferramenta para gerar pistas, e não como uma prova definitiva da identidade de alguém.

A tecnologia ainda é limitada, mas já aponta para uma mudança

O SignalTrace não representa, pelo menos por enquanto, uma gigantesca rede nacional capaz de rastrear automaticamente todos os smartphones dos Estados Unidos.

Pesquisadores independentes identificaram quatro instalações em Oxon Hill, Maryland, que consideram compatíveis com a tecnologia. Elas são operadas pelo Departamento de Polícia do condado de Prince George. Uma tecnologia anterior, chamada EOC Plus, também apareceu em documentos relacionados a contratos públicos em Nova York.

Isso não significa que qualquer pessoa possa ser acompanhada permanentemente em qualquer lugar do país.

Mas o conceito revela uma direção importante para o futuro da vigilância. Quanto mais dispositivos carregamos, mais sinais e combinações podem existir ao nosso redor. E quanto mais vezes essas combinações aparecem nos mesmos lugares, veículos e horários, maior pode ser a capacidade de transformá-las em padrões reconhecíveis.

O detalhe mais inquietante está justamente aí: o sistema não precisa descobrir primeiro quem você é para começar a construir um retrato dos seus deslocamentos.

Seu nome pode vir depois. Antes dele, podem existir o carro, o celular, o relógio, os fones e todos os outros pequenos aparelhos que viajam com você.

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