Imagine um organismo que mantém exatamente o mesmo DNA, mas que, diante de uma mudança no ambiente, reorganiza seu próprio corpo e passa a agir de maneira completamente diferente. Parece ficção científica, mas é uma estratégia real usada por determinados fungos. Um novo estudo realizado por pesquisadores espanhóis ajuda a explicar como essa transformação acontece e aponta para dois genes que parecem funcionar como peças centrais desse processo.
O fungo que parece ter duas identidades
O Mucor lusitanicus é um fungo encontrado no ambiente e capaz de viver decompondo matéria orgânica. Em determinadas condições, porém, ele pode alterar profundamente sua estrutura.
Essa capacidade faz parte de um fenômeno conhecido como dimorfismo, no qual um mesmo fungo consegue assumir formas distintas dependendo das condições ao seu redor. Em vez de simplesmente crescer mais ou menos, ele reorganiza sua estrutura e modifica seu comportamento.
A questão que intrigava os pesquisadores era justamente entender como uma transformação tão radical poderia acontecer sem que o organismo precisasse alterar seu DNA.
A resposta está na maneira como os genes são utilizados.
O genoma funciona como um enorme conjunto de instruções, mas uma célula não precisa executar todas elas ao mesmo tempo. Dependendo do ambiente, determinados genes podem ser ativados enquanto outros permanecem praticamente silenciosos.
É essa capacidade de mudar o programa de funcionamento que permite ao fungo assumir características diferentes.
O novo estudo, liderado por pesquisadores da Universidade de Murcia e publicado na revista Nature Communications, investigou justamente essa rede de controle. E foi aí que dois genes começaram a chamar atenção.

Dois genes ajudam a controlar a transformação
Os pesquisadores identificaram os genes dkl e dfl como componentes importantes da regulação que permite ao fungo alternar entre diferentes estados.
A descoberta é especialmente interessante porque esses genes não funcionam simplesmente como instruções para construir uma determinada estrutura. Eles participam de um sistema que ajuda a determinar quando e como determinados programas genéticos devem ser ativados.
Os experimentos mostraram que, quando esses genes são desativados, o fungo perde a capacidade normal de realizar essa transição entre suas diferentes formas.
Isso ajuda a explicar por que a transformação não deve ser entendida como uma simples mudança física. O organismo precisa coordenar uma série de processos celulares ao mesmo tempo, reorganizando seu crescimento e seu funcionamento de acordo com o ambiente.
Outro aspecto estudado pelos pesquisadores envolve genes duplicados que, ao longo da evolução, passaram a desempenhar funções diferentes. Alguns desses genes ficam associados a determinadas condições ambientais, enquanto outros participam de fases distintas do ciclo de vida.
É como se o fungo tivesse conservado diferentes conjuntos de instruções e desenvolvido mecanismos para escolher qual deles utilizar.
Por que essa mudança interessa à medicina
A descoberta ganha importância porque a capacidade de modificar sua forma está relacionada ao comportamento de fungos que podem causar infecções.
No ambiente, uma determinada estrutura pode ser suficiente para sobreviver. Em um hospedeiro, porém, as condições são completamente diferentes. Temperatura, nutrientes e outros sinais podem desencadear mudanças profundas no funcionamento do organismo.
Compreender os mecanismos envolvidos nessa transformação pode ajudar os cientistas a entender melhor como determinados fungos conseguem se adaptar a um hospedeiro.
Isso também abre uma possibilidade interessante para o futuro: em vez de tentar eliminar diretamente o fungo, uma estratégia terapêutica poderia, em princípio, interferir nos mecanismos que permitem sua transformação.
Ainda é cedo para falar em um novo tratamento. Identificar genes envolvidos em um processo biológico é apenas uma das primeiras etapas de uma longa investigação. Seria necessário descobrir como essas proteínas podem ser bloqueadas de maneira segura e se a mesma estratégia funcionaria em organismos responsáveis por infecções humanas.
Mesmo assim, o estudo revela algo surpreendente sobre a flexibilidade dos fungos. Eles não precisam adquirir um novo conjunto de genes para mudar radicalmente seu comportamento.
O segredo pode estar em algo muito mais sutil: decidir quais instruções do próprio DNA serão executadas em determinado momento.
E os genes dkl e dfl parecem ocupar uma posição importante nesse complexo sistema de controle.