Durante décadas, o tratamento do Parkinson se concentrou em aliviar sintomas como tremores e rigidez. Agora, um avanço vindo do Japão sugere uma mudança mais profunda: tentar reparar o cérebro. A aprovação condicional de uma terapia com células-tronco reacende a esperança de restaurar funções perdidas e coloca a medicina regenerativa em um novo patamar.
Como funciona a nova terapia com células iPS
A base do tratamento, chamado raguneprocel, está no uso de células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como iPS. Essas células são criadas a partir de células adultas doadas, que passam por um processo de reprogramação em laboratório.
Depois dessa “reinicialização”, elas recuperam a capacidade de se transformar em praticamente qualquer tipo celular do corpo. No caso do Parkinson, os cientistas direcionam essa transformação para gerar neurônios dopaminérgicos — responsáveis pela produção de dopamina.
A falta desse neurotransmissor é o que causa os principais sintomas motores da doença, como tremores, lentidão e rigidez muscular.
Implante direto no cérebro

O procedimento envolve uma cirurgia delicada. As células produzidas em laboratório são implantadas no putâmen, uma região do cérebro diretamente ligada ao controle dos movimentos e fortemente afetada no Parkinson.
Segundo o pesquisador Jun Takahashi, da Universidade de Kyoto, a ideia é que essas novas células se integrem ao cérebro do paciente e passem a produzir dopamina de forma contínua.
Se isso acontecer como esperado, o tratamento pode não apenas aliviar sintomas, mas também recuperar parte da função motora perdida — algo que as terapias atuais não conseguem fazer.
O que mostraram os primeiros testes
Os resultados iniciais vieram de um ensaio clínico com sete pacientes entre 50 e 69 anos. Cada um recebeu entre cinco e dez milhões de células, distribuídas nos dois hemisférios do cérebro.
O estudo, publicado na revista Nature, acompanhou os pacientes por 24 meses. Nesse período, as células transplantadas sobreviveram sem formar tumores nem causar efeitos adversos graves — um dos principais temores desse tipo de terapia.
Para evitar rejeição, os pacientes receberam medicamentos imunossupressores.
Melhora nos sintomas e produção de dopamina
Os pesquisadores avaliaram os participantes em dois cenários: sem medicação (após pelo menos 12 horas) e com o uso dos remédios tradicionais para Parkinson.
Os resultados indicaram melhora em ambos os casos. Sem medicação, quatro dos seis pacientes avaliados apresentaram avanços na função motora. Com medicação, esse número subiu para cinco.
Além disso, exames mostraram um aumento de 44,7% na produção de dopamina no putâmen — especialmente nos pacientes que receberam doses mais altas de células.
As avaliações foram feitas com base em uma escala internacional usada para medir a progressão dos sintomas do Parkinson.
Por que a aprovação é condicional
O governo japonês concedeu uma aprovação condicional e limitada no tempo. Isso significa que o tratamento pode ser utilizado, mas apenas em um número restrito de pacientes e sob monitoramento rigoroso.
Esse modelo permite acelerar o acesso a terapias inovadoras, desde que existam sinais positivos de eficácia e segurança nos estudos iniciais.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores continuam coletando dados para confirmar os resultados em longo prazo.
Monitoramento e próximos passos
Os pacientes que receberem o tratamento serão acompanhados por até sete anos. O protocolo inclui exames clínicos, ressonâncias magnéticas e estudos de imagem cerebral para verificar se as células continuam vivas e produzindo dopamina.
Por enquanto, a terapia está disponível apenas no Japão e indicada para pacientes cujos sintomas não respondem bem aos tratamentos convencionais.
Os dados coletados servirão como base para futuras aprovações em outros países.
Um possível novo padrão no tratamento
O objetivo central da terapia é substituir os neurônios dopaminérgicos perdidos — a raiz do problema no Parkinson. Se os resultados se confirmarem, essa abordagem pode ir além do controle dos sintomas e alterar o curso da doença.
A chegada das células-tronco iPS à prática clínica marca um momento importante para a medicina regenerativa. Ainda há desafios e incertezas, mas o caminho está aberto para uma nova geração de tratamentos que não apenas tratam, mas tentam reconstruir o que foi perdido.
[ Fonte: Infobae ]