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Ciência

Vacina contra o herpes-zóster pode fazer mais do que evitar dor — ela também pode proteger o coração e o cérebro

Pesquisadores da Case Western Reserve University descobriram que pessoas vacinadas contra o herpes-zóster têm menor risco de infarto, AVC e demência vascular. O achado reforça que prevenir o vírus da catapora reativado pode salvar vidas — e não apenas evitar sofrimento.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A vacina contra o herpes-zóster, infecção conhecida pelas erupções dolorosas e pelas crises de dor crônica que pode causar, pode estar oferecendo uma proteção muito maior do que se imaginava. Segundo um novo estudo da Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, pessoas vacinadas contra a doença têm menos chances de sofrer infarto, AVC e até demência.

O vírus que nunca vai embora

O herpes-zóster é causado pelo vírus varicela-zóster, o mesmo que provoca catapora na infância. Após a infecção inicial, o vírus permanece adormecido no corpo por décadas, escondido nos nervos. Quando o sistema imunológico enfraquece — seja pela idade, por estresse ou por outras doenças —, ele pode “acordar” e causar uma nova infecção, desta vez muito mais agressiva.

O resultado é uma erupção cutânea dolorosa, geralmente em uma faixa do corpo, acompanhada de dor intensa que pode durar semanas. Em alguns casos, o sofrimento persiste por meses ou anos, numa condição conhecida como neuralgia pós-herpética.

A boa notícia é que a vacina contra o herpes-zóster, aplicada em duas doses, é altamente eficaz e recomendada para todos os adultos a partir dos 50 anos. Ela reduz drasticamente o risco de desenvolver a infecção — e, agora, parece também reduzir outras doenças graves.

Um escudo para o coração e o cérebro

O novo estudo, apresentado na conferência IDWeek 2025, analisou os registros médicos de mais de 174 mil adultos nos Estados Unidos. Os pesquisadores acompanharam os participantes por até sete anos e compararam dois grupos: pessoas que haviam tomado a vacina contra o herpes-zóster e aquelas que haviam recebido a vacina contra pneumococo (também indicada para idosos).

Os resultados impressionaram:

  • Pessoas vacinadas contra o herpes-zóster tiveram 27% menos risco de desenvolver coágulos sanguíneos;

  • 25% menos risco de infarto ou AVC;

  • 50% menos risco de demência vascular, causada por danos nos vasos do cérebro;

  • E uma redução geral de 21% no risco de morte durante o período de estudo.

Para o pesquisador Ali Dehghani, médico da Escola de Medicina da Case Western Reserve, os dados mostram que o vírus é mais perigoso do que parece:

“O herpes-zóster é mais do que uma simples erupção. Ele pode aumentar o risco de sérios problemas cardíacos e neurológicos”, disse. “Nossos resultados sugerem que a vacina pode ajudar a reduzir esses riscos, especialmente em pessoas já propensas a infarto ou derrame.”

Por que o vírus afeta o coração e o cérebro

Embora o estudo seja observacional — ou seja, não prove causa e efeito direta —, as evidências acumuladas apontam para uma ligação biológica plausível. O vírus varicela-zóster pode inflamar vasos sanguíneos e nervos, elevando o risco de coágulos e comprometendo a circulação no cérebro. Essa inflamação crônica explicaria o aumento de problemas cardiovasculares e demência em pessoas que tiveram herpes-zóster.

Prevenir a reativação do vírus com a vacina, portanto, pode evitar toda essa cascata de danos secundários. Estudos anteriores já sugeriam benefícios semelhantes, mas o novo trabalho reforça a amplitude do efeito protetor.

Uma vacina que salva mais do que a pele

A descoberta amplia o alcance de uma imunização que muitos ainda encaram como opcional. O herpes-zóster afeta cerca de 1 em cada 3 pessoas ao longo da vida, e o risco cresce significativamente após os 50 anos. A vacina atualmente disponível — uma série de duas doses — é segura, amplamente distribuída e aprovada em vários países, incluindo o Brasil.

Mais do que prevenir dor e sofrimento, ela pode ser uma aliada silenciosa na prevenção de doenças cardiovasculares e neurológicas, com potencial de salvar milhares de vidas.

Em tempos de crescente resistência vacinal, o estudo serve como lembrete de que vacinas protegem muito além do esperado.

 

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