No coração do Pacífico, as Ilhas Marshall vivem o drama do que significa estar na linha de frente da crise climática. Com território a apenas dois metros acima do nível do mar, os moradores enfrentam enchentes cada vez mais frequentes, solos salinizados e recifes de coral branqueados — ameaças que colocam em risco a sobrevivência de um povo que habita o arquipélago há milênios.
Mas o problema não se restringe às ilhas. Em todo o planeta, tempestades extremas, ondas de calor e elevação do nível do mar revelam o impacto crescente das emissões de gases de efeito estufa. Ainda assim, depois de 30 anos de negociações internacionais, 10 anos do Acordo de Paris e trilhões em prejuízos, o mundo continua fora de rota: 2024 foi o ano mais quente da história, e as emissões globais atingiram níveis recordes.
Trump provoca, mas o mundo reage
Desde que voltou ao poder, o presidente Donald Trump tem usado seu peso político para sabotar iniciativas globais de descarbonização. Em setembro de 2025, durante discurso na Assembleia Geral da ONU, chamou as mudanças climáticas de “a maior fraude já inventada” e ironizou as energias renováveis.
Dias depois, ameaçou países com sanções e restrições comerciais caso apoiassem uma proposta da Organização Marítima Internacional para taxar as emissões do transporte marítimo. O resultado foi o adiamento da votação, mas não o colapso do movimento climático.
Mais de 100 países apresentaram novas metas de redução de emissões logo após o discurso. Entre eles, China, Brasil, Noruega, Japão, Reino Unido e Austrália anunciaram compromissos mais ambiciosos — ainda que insuficientes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C.
China muda o tom e adota meta absoluta

A China, maior emissora de gases-estufa do planeta, surpreendeu ao cumprir suas metas verdes cinco anos antes do previsto. O governo de Xi Jinping apresentou, pela primeira vez, uma meta absoluta de redução, prometendo cortar entre 7% e 10% das emissões líquidas até 2035 em relação ao pico atual.
O país também pretende triplicar sua capacidade de energia solar e eólica e ampliar os programas de reflorestamento. Embora ativistas considerem o plano tímido, ele marca uma virada importante: Pequim abandona as antigas metas de “intensidade de carbono”, que permitiam crescimento de emissões atrelado ao PIB, e assume um compromisso de redução real.
Europa busca liderança, mas enfrenta resistência
A União Europeia ainda não apresentou oficialmente suas novas metas, mas enviou uma carta de intenção com redução de 66% a 72% das emissões até 2035, em comparação com 1990. O bloco também avança na criação do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, que começará a funcionar em janeiro de 2026 e cobrará pelo impacto climático de produtos importados.
A medida, pioneira no mundo, vincula emissões a comércio internacional e tenta impedir a “exportação de poluição” para países sem taxação de carbono. Ainda assim, o projeto enfrenta ventos contrários: o Parlamento Europeu estuda afrouxar regras de sustentabilidade corporativa, e parte dos países membros pede adiar o novo mercado de carbono para transportes e edifícios.
Brasil e a nova proposta global

O Brasil, que sediará a COP30 em Belém em novembro, assumiu metas mais firmes: redução líquida de 59% a 67% até 2035 e neutralidade de carbono até 2050. O país, porém, enfrenta críticas por autorizar a exploração de petróleo na foz do Amazonas, o que contradiz seu discurso de liderança ambiental.
Ainda assim, o governo brasileiro tenta inovar no sistema de compromissos globais. Propôs um modelo chamado “Contribuição Globalmente Determinada”, diferente das metas individuais do Acordo de Paris. Nesse formato, as nações estabeleceriam objetivos coletivos — como triplicar a energia renovável e zerar o desmatamento até 2030 —, permitindo que cidades e estados também contabilizem ações climáticas próprias.
Se adotada, a proposta poderia renovar a cooperação internacional e preencher o vácuo deixado pelos Estados Unidos na liderança climática.
Avanços lentos, riscos urgentes

Apesar das novas promessas, a soma dos compromissos atuais ainda não é suficiente para conter o aquecimento global. Segundo estimativas científicas, o planeta caminha para um aumento superior a 2 °C até o fim do século — cenário que tornaria ilhas inteiras inabitáveis, ampliaria secas e elevaria o risco de colapsos alimentares.
Em um mundo dividido entre ambição e conveniência, as reações ao discurso de Trump mostraram que o negacionismo climático perdeu força, mas também que a ação concreta segue aquém da urgência.
Enquanto isso, as ondas de calor e as enchentes lembram diariamente que o tempo para reagir está se esgotando.
[ Fonte: The Conversation ]