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Ciência

Vênus parecia destruir qualquer coisa que tocasse sua superfície — mas cientistas agora acreditam que antigas sondas espaciais ainda podem estar intactas no planeta

Um novo estudo sugere que pelo menos sete espaçonaves enviadas a Vênus durante a Guerra Fria talvez ainda existam parcialmente preservadas na superfície infernal do planeta. A descoberta muda a visão sobre o ambiente venusiano e inaugura uma curiosa ideia: a arqueologia espacial em outro mundo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, Vênus foi tratado como um verdadeiro cemitério instantâneo de sondas espaciais. Com temperaturas capazes de derreter chumbo, pressão atmosférica esmagadora e nuvens carregadas de ácido sulfúrico, parecia impossível imaginar qualquer equipamento humano sobrevivendo por muito tempo naquele ambiente extremo.

Mas um novo estudo acaba de desafiar essa ideia.

Pesquisadores especializados em arqueologia espacial acreditam que os restos de pelo menos sete sondas enviadas a Vênus entre as décadas de 1960 e 1980 talvez ainda estejam espalhados pela superfície do planeta — parcialmente preservados após décadas enfrentando um dos ambientes mais hostis do Sistema Solar.

A pesquisa foi publicada na revista Geoarchaeology e sugere que Vênus pode conservar artefatos espaciais muito melhor do que os cientistas imaginavam anteriormente.

O “gêmeo maligno” da Terra

Vênus costuma ser chamado de “gêmeo maligno” da Terra porque possui tamanho, massa e composição semelhantes ao nosso planeta. Mas as semelhanças praticamente terminam aí.

Sua atmosfera extremamente densa aprisiona calor em um efeito estufa descontrolado, elevando as temperaturas da superfície para cerca de 467 graus Celsius.

Além disso, a pressão atmosférica em Vênus é aproximadamente 93 vezes maior do que ao nível do mar na Terra — equivalente à pressão encontrada a quase um quilômetro de profundidade nos oceanos terrestres.

Por causa dessas condições extremas, a maioria das sondas enviadas ao planeta sobreviveu apenas alguns minutos ou poucas horas após o pouso.

Cientistas decidiram investigar o que realmente acontece com as sondas

O estudo foi liderado pelo arqueólogo espacial Luca Forassiepi, que decidiu analisar até que ponto os materiais usados nessas missões poderiam resistir ao ambiente venusiano.

Os pesquisadores revisaram 15 missões enviadas ao planeta entre 1965 e 1985 e recriaram as condições de Vênus no laboratório GEER da NASA — uma instalação especializada em simular ambientes extremos.

A equipe escolheu como principal estudo de caso a sonda Pioneer Venus Day Probe, lançada pela NASA em 1978 para estudar a atmosfera venusiana durante sua descida.

A sonda sobreviveu mais do que se imaginava

A Pioneer Venus Day Probe surpreendeu os cientistas já na época da missão.

Mesmo após um impacto violento contra a superfície, ela continuou transmitindo dados durante 67 minutos antes de finalmente sucumbir ao calor extremo, à pressão atmosférica e ao esgotamento de energia.

Agora, as simulações feitas em laboratório indicam que partes importantes da estrutura talvez tenham permanecido intactas mesmo após o fim das transmissões.

Segundo os pesquisadores, o titânio utilizado na construção da sonda demonstrou resistência impressionante às condições venusianas.

Algumas peças internas de alumínio também poderiam ter sobrevivido relativamente bem.

Os componentes mais vulneráveis seriam borrachas, juntas de vedação e anéis de pressão, que provavelmente se degradaram rapidamente sob exposição contínua ao ambiente corrosivo do planeta.

Vênus pode preservar artefatos por muito tempo

O que mais chamou atenção no estudo foi uma característica pouco discutida sobre Vênus: apesar de seu ambiente extremo, o planeta possui relativa estabilidade climática e processos geológicos lentos em algumas regiões.

Isso significa que certos objetos podem permanecer preservados durante longos períodos sem sofrer destruição completa.

Os cientistas acreditam que algumas sondas provavelmente ficaram deformadas durante a descida pela atmosfera carregada de ácido sulfúrico, mas não totalmente destruídas.

Na prática, Vênus talvez funcione como uma espécie de museu espacial involuntário.

As futuras missões podem encontrar relíquias da Guerra Fria

Com base nas análises, os pesquisadores acreditam que pelo menos sete sondas históricas podem ainda existir parcialmente preservadas na superfície venusiana.

Esses artefatos representam não apenas capítulos importantes da exploração espacial, mas também uma oportunidade científica única para entender como materiais resistem a ambientes extremos fora da Terra.

A expectativa é que futuras missões consigam até mesmo fotografar alguns desses restos espaciais.

Entre os próximos projetos previstos estão as missões DAVINCI e VERITAS, planejadas pela NASA para o início da próxima década.

Se isso acontecer, talvez a humanidade veja algo inédito: os destroços de antigas máquinas humanas repousando silenciosamente em um planeta que, durante muito tempo, acreditamos ser incapaz de preservar qualquer vestígio de nossa presença.

 

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