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Ciência

Novo estudo revela que o café pode influenciar áreas do cérebro ligadas aos movimentos

Um novo estudo descobriu que poucas xícaras de café podem alterar a forma como o cérebro reage ao toque e aos movimentos — e isso pode ter implicações muito maiores.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para muita gente, o café é apenas um ritual diário ligado à energia, foco e produtividade. Mas pesquisadores começaram a perceber que os efeitos da cafeína podem ir muito além da sensação de despertar. Um novo estudo realizado na Dinamarca sugere que o cérebro muda seu comportamento após consumir o equivalente a duas xícaras de café. E o mais curioso: a alteração acontece justamente em áreas relacionadas à forma como sentimos o corpo e controlamos movimentos.

O efeito inesperado do café sobre o cérebro

Novo estudo revela que o café pode influenciar áreas do cérebro ligadas aos movimentos
© Unsplash

A cafeína já foi associada a inúmeros efeitos no organismo, desde melhora temporária da atenção até alterações no sono e na frequência cardíaca. Mas agora cientistas encontraram sinais de que ela também pode modificar processos neurológicos ligados à integração sensorial e motora.

A descoberta surgiu em um estudo publicado na revista Clinical Neurophysiology, conduzido por pesquisadores do Aarhus University Hospital, na Dinamarca.

Os cientistas analisaram 20 adultos saudáveis, entre homens e mulheres com média de idade de 27 anos. O objetivo era entender como o cérebro reage após o consumo de 200 miligramas de cafeína — quantidade equivalente a aproximadamente duas ou duas xícaras e meia de café.

Para reduzir interferências externas, os participantes precisaram ficar ao menos 12 horas sem consumir cafeína ou álcool antes de cada sessão do experimento.

Durante os testes, os pesquisadores mediram um mecanismo cerebral chamado inibição aferente de latência curta, conhecido pela sigla SAI.

Embora o nome pareça extremamente técnico, a função é relativamente simples de entender: esse mecanismo ajuda o cérebro a controlar melhor os movimentos após receber estímulos físicos, como um toque na pele.

Na prática, ele funciona como uma espécie de filtro neurológico que impede respostas motoras exageradas ou descoordenadas.

E foi justamente aí que a cafeína mostrou um efeito inesperado.

O que aconteceu no cérebro após duas xícaras de café

Os pesquisadores utilizaram técnicas de estimulação magnética transcraniana para observar a atividade cerebral dos participantes antes e depois da ingestão de cafeína.

Os resultados mostraram que a substância aumentou significativamente a atividade da SAI em determinados intervalos após os estímulos físicos. Isso sugere que o cérebro ficou mais eficiente ao integrar sensações táteis e respostas motoras.

Em outras palavras: após consumir cafeína, o sistema nervoso pareceu melhorar sua capacidade de processar estímulos físicos e modular os movimentos de maneira mais refinada.

O detalhe curioso é que esse efeito apareceu apenas em um método específico de medição utilizado pelos cientistas. Em outro protocolo, nenhuma mudança relevante foi detectada.

Ainda assim, os pesquisadores consideram a descoberta importante porque ela reforça a ideia de que a cafeína influencia diretamente circuitos cerebrais mais complexos do que se imaginava.

Segundo os autores, o efeito pode estar relacionado à forma como a cafeína bloqueia receptores de adenosina no cérebro. Esse bloqueio aumenta a liberação de acetilcolina, neurotransmissor fundamental para atenção, memória e controle motor.

Com isso, ocorre um fortalecimento da transmissão colinérgica, processo associado ao refinamento das respostas sensoriais e motoras.

Embora os efeitos observados tenham sido sutis, eles foram considerados estatisticamente significativos dentro do experimento.

O que a descoberta pode revelar sobre Alzheimer e Parkinson

A parte que mais chamou atenção dos pesquisadores envolve a possível relação entre esse mecanismo cerebral e doenças neurodegenerativas.

Distúrbios como Alzheimer e Parkinson costumam apresentar redução da atividade colinérgica e diminuição da própria SAI. Em pacientes com essas doenças, o cérebro perde parte da capacidade de modular adequadamente respostas motoras e sensoriais.

Por isso, cientistas acreditam que a cafeína talvez possa ajudar futuramente na compreensão desses circuitos neurológicos.

O estudo não afirma que café previne doenças neurodegenerativas nem propõe tratamento baseado em cafeína. Mas os autores defendem que futuras pesquisas investiguem se a substância poderia atuar como moduladora dessas funções cerebrais em determinados contextos clínicos.

Outro ponto relevante foi a diferença em relação a estudos anteriores.

Pesquisas mais antigas usaram doses menores de cafeína e não encontraram efeitos claros sobre o cérebro. Neste caso, a utilização de uma dose maior e uma análise mais detalhada permitiram detectar alterações específicas nos mecanismos neurológicos.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores reforçam que a cafeína continua sendo um fator importante em avaliações clínicas do cérebro. Tanto que muitos estudos neurológicos exigem abstinência prévia da substância antes dos testes.

No fim das contas, a descoberta amplia ainda mais a percepção de que o café faz muito mais do que apenas manter as pessoas acordadas. Mesmo em pequenas doses, ele parece interferir diretamente em processos cerebrais sofisticados que ainda estão sendo compreendidos pela ciência.

[Fonte: Infobae]

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