Europa é considerada há décadas um dos lugares mais promissores para a busca de vida fora da Terra. Sob sua crosta de gelo, existe um oceano salgado gigantesco, em contato com rochas quentes no fundo. Agora, cientistas propõem um novo mecanismo energético que pode tornar esse ambiente habitável: a liberação de energia a partir do decaimento natural de elementos radioativos presentes nas rochas do leito oceânico.
Um novo modelo para a habitabilidade de Europa
A ideia foi apresentada durante a reunião anual da American Geophysical Union e propõe uma mudança importante na forma como entendemos a possível vida em Europa, lua de Júpiter. Em vez de depender principalmente do calor interno do satélite, o novo modelo aponta para as próprias rochas do fundo do oceano como fonte de energia.
O estudo foi liderado por Ngoc Tuan Truong, cientista planetário do NASA Goddard Space Flight Center, inspirado por ambientes extremos do nosso próprio planeta. Em regiões profundas dos oceanos terrestres, longe da luz solar, microrganismos sobrevivem graças a reações químicas — um processo conhecido como quimiossíntese.
Quando a vida não precisa de luz
Na Terra, comunidades inteiras prosperam próximas a fontes hidrotermais no fundo do mar. Elas não usam a fotossíntese, mas reações químicas entre minerais e a água para obter energia. Truong sugere que algo parecido possa ocorrer em Europa.
A lua abriga um oceano subterrâneo com mais do que o dobro de toda a água existente nos oceanos da Terra. Diferentemente de outras luas oceânicas do sistema solar, como Ganimedes e Calisto, há fortes indícios de que o oceano de Europa esteja em contato direto com rochas relativamente quentes no fundo.
Esse contato é essencial. Ao longo de bilhões de anos, elementos radioativos presentes nessas rochas podem se dissolver lentamente na água. Durante seu decaimento natural, eles liberam energia e quebram moléculas de água em íons de hidrogênio e oxigênio — uma verdadeira “refeição energética” para microrganismos.
Um “almoço radioativo” no fundo do oceano
Para testar essa hipótese, os pesquisadores modelaram a presença de três isótopos radioativos no oceano de Europa: urânio-235, urânio-238 e potássio. A partir das taxas de decaimento desses elementos, estimaram quantos íons seriam produzidos ao longo do tempo.
O resultado surpreende: a energia gerada poderia sustentar até um septilhão de células vivas. Em termos de biomassa, isso equivaleria aproximadamente ao peso de mil baleias-azuis — um valor expressivo para um ambiente completamente escuro e isolado sob quilômetros de gelo.
Uma alternativa ao calor interno
Até recentemente, muitos cientistas acreditavam que o interior rochoso de Europa produziria calor suficiente para sustentar a vida. No entanto, estudos mais recentes indicam que a crosta de gelo da lua pode ser bem mais espessa do que se pensava, dificultando a transferência de calor do interior para o oceano.
Isso enfraquece a hipótese de uma fonte térmica intensa e torna a energia gerada por elementos radioativos uma alternativa atraente. Diferentemente do calor interno, que pode variar ao longo do tempo, o decaimento radioativo é um processo constante e previsível — uma espécie de “bateria natural” de longa duração.
Como testar essa ideia na prática
A hipótese poderá ser colocada à prova pela missão Europa Clipper, da NASA, lançada em 2024 e com chegada prevista ao sistema de Júpiter por volta de 2030. A sonda vai estudar a composição química da lua, a espessura do gelo e possíveis sinais de troca de material entre o oceano e a superfície.
Embora a missão não vá perfurar o gelo, seus instrumentos poderão detectar indícios indiretos dos processos químicos que ocorrem no interior do oceano — inclusive pistas compatíveis com a liberação de energia por elementos radioativos.
Um passo além na busca por vida
A proposta não afirma que a vida em Europa exista, mas amplia o leque de possibilidades sobre como ela poderia sobreviver. Ao mostrar que ambientes escuros e frios podem ser energizados por processos químicos profundos, o estudo reforça uma ideia poderosa: a vida pode ser mais resiliente — e criativa — do que imaginávamos.
Se confirmada, essa fonte inesperada de energia não apenas fortalece o status de Europa como um dos alvos mais promissores da astrobiologia, mas também amplia nossa compreensão de onde e como a vida pode surgir no universo.