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Tecnologia

YouTube e o império do “AI Slop”: como a enxurrada de vídeos gerados por IA já domina parte da plataforma

Um novo relatório da Kapwing revela que até um terço do conteúdo entregue a novos usuários no YouTube Shorts é formado por vídeos automatizados de baixa qualidade. Produzido em escala industrial, esse material já movimenta milhões em publicidade, sufoca criadores humanos e distorce a experiência digital.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O YouTube enfrenta um problema crescente — e longe de ser acidental. Trata-se do chamado AI Slop, uma avalanche de vídeos gerados quase integralmente por inteligência artificial, pensados não para informar ou entreter com criatividade, mas para capturar cliques, visualizações e assinaturas em massa. O fenômeno já ocupa uma fatia significativa da plataforma e levanta alertas sobre o futuro da economia de criadores.

Segundo um estudo recente da Kapwing, empresa especializada em ferramentas de edição digital, até 33% do feed de novos usuários no YouTube Shorts é composto por AI Slop ou por seu “parente próximo”, o brainrot — conteúdos visualmente chamativos, repetitivos e vazios, feitos para estimular atenção constante sem substância.

Um algoritmo que empurra a “basura” digital

Youtube
© Olly Curtis/Future via Getty Images

Para entender o papel do algoritmo, a Kapwing criou uma conta totalmente nova no YouTube, sem histórico ou preferências. O objetivo era observar o comportamento da plataforma em seu estado “neutro”. O resultado foi contundente: dos primeiros 500 vídeos exibidos no Shorts, 104 (21%) foram classificados como AI Slop.

“Isso sugere que o YouTube está bombardeando novos usuários com vídeos gerados por IA”, explicou à WIRED en Español Taylor Tomita, especialista sênior da Kapwing. “Se existem filtros, eles não estão detectando uma quantidade massiva desse conteúdo.”

O que antes era spam em forma de texto nos e-mails evoluiu para spam em vídeo, impulsionado por algoritmos que priorizam volume, retenção e repetição.

Um negócio milionário baseado em mediocridade

O relatório analisou os 100 canais em tendência em diversos países e chegou a uma conclusão incômoda: produzir conteúdo automatizado e descartável virou um negócio altamente lucrativo.

O canal Bandar Apna Dost, da Índia, lidera em visualizações globais, com mais de 2 bilhões de views. Seu conteúdo gira em torno de um macaco gerado por IA em situações dramáticas ou humorísticas. A estimativa é que o canal fature US$ 4,25 milhões por ano apenas em publicidade.

A Espanha aparece como o país com mais assinantes em canais de AI Slop, somando mais de 20 milhões. Um dos exemplos é o canal Imperio de Jesus, que utiliza versões digitais de figuras religiosas em cenários absurdos. Já o canal com mais assinantes no mundo é o norte-americano Cuentos Facinantes (com erro ortográfico no nome), que explora estéticas de franquias como Dragon Ball por meio de processos totalmente automatizados.

O que é, afinal, o AI Slop

A Kapwing define o AI Slop como “conteúdo descuidado, de baixa qualidade, gerado por aplicações automáticas e distribuído para acumular visualizações, assinaturas ou influenciar opiniões políticas”. A diferença entre uso legítimo de IA e Slop não está na ferramenta, mas na intenção.

Canais como Bandar Apna Dost ou Pouty Frenchie, de Singapura, repetem fórmulas visuais simples — animais, personagens fictícios, narração artificial — em escala industrial, sem qualquer traço de autoria humana.

Paquistão, o epicentro da produção

Embora o consumo seja global, a produção massiva tem polos bem definidos. O Paquistão lidera o ranking mundial: 20 dos 100 canais em tendência no país produzem exclusivamente AI Slop. Ou seja, um quinto do conteúdo considerado “mais relevante” pelo algoritmo é totalmente automatizado.

Países latino-americanos também aparecem no top 10, como Brasil, Colômbia e Peru, o que acende um alerta para a sustentabilidade da economia criativa na região.

Monetização, ruído e risco sistêmico

Enquanto o YouTube promove a IA como ferramenta de democratização criativa, a realidade do feed aponta para o oposto. Os canais que mais faturam são justamente os que entenderam como hackear o algoritmo, priorizando quantidade em vez de qualidade.

O risco vai além do gosto pessoal. Quando uma parcela tão grande do feed é ocupada por ruído automatizado, a confiança na informação e a curadoria humana se tornam escassas e valiosas. Há ainda impactos psicológicos e sociais: a exposição repetida a imagens geradas por IA tende a normalizar o artificial, borrando a fronteira entre o real e o fabricado.

No fim, o AI Slop não é apenas “conteúdo ruim”. É um sintoma de um ecossistema onde o algoritmo virou cúmplice da saturação — e onde a criatividade humana luta para não ser soterrada pelo volume.

 

[ Fonte: Wired ]

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