O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a monitorar com atenção a nova ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 25% a países que mantêm relações comerciais com o Irã. A medida, ainda não formalizada, preocupa setores estratégicos da economia brasileira, especialmente o agronegócio, e levou o Planalto a adotar uma postura de cautela e diálogo.
Segundo apuração da CNN Brasil, Lula orientou sua equipe a evitar reações precipitadas e priorizar canais diplomáticos. Caso a ameaça avance, o presidente brasileiro não descarta um contato direto com Trump para explicar que a relação entre Brasil e Irã é predominantemente comercial e voltada à segurança alimentar, sem envolvimento com produtos estratégicos ou bélicos.
Comércio Brasil-Irã no centro da preocupação

Os números ajudam a dimensionar o debate. Em 2024, as exportações brasileiras para o Irã somaram cerca de US$ 2,9 bilhões. Desse total, aproximadamente 87% correspondem a produtos do agronegócio, com destaque para milho e soja. O país persa é atualmente o segundo maior comprador de milho brasileiro, posição que torna o setor particularmente sensível a qualquer mudança no cenário internacional.
As importações brasileiras vindas do Irã, por outro lado, são bem mais modestas: cerca de US$ 84 milhões no último ano. Elas se concentram em fertilizantes, adubos, frutas e castanhas, itens de baixo peso geopolítico. Apesar disso, o temor é que uma tarifa norte-americana afete indiretamente cadeias produtivas brasileiras, encareça exportações ou reduza a competitividade do país em mercados estratégicos.
Orientação é manter a calma, diz ministro
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, minimizou o risco imediato e reforçou a orientação presidencial de cautela. “Por hora, segue tudo normal. Não teve nada formalizado ainda”, afirmou à CNN. “Vamos com calma. Essa é a orientação do presidente: diálogo é a palavra”, acrescentou.
No Planalto, a avaliação é de que o Irã não figura entre os principais destinos das exportações brasileiras — não está sequer entre os 30 maiores parceiros comerciais do país. Ainda assim, o peso específico do milho nas vendas ao país torna o tema sensível, sobretudo em um momento em que o agronegócio busca estabilidade para manter investimentos e previsibilidade.
Contexto internacional mais tenso

A ameaça de Trump ocorre em meio a uma nova escalada de tensão entre Washington e Teerã. Nos últimos dias, o Irã afirmou estar preparado para um eventual conflito armado com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que sinalizou abertura para negociações diplomáticas.
O cenário interno iraniano também contribui para a instabilidade. Protestos que começaram com reivindicações econômicas se transformaram rapidamente em manifestações políticas contra o regime dos aiatolás. A população tem ido às ruas para denunciar o alto custo de vida, a inflação elevada e a forte desvalorização da moeda local, além de exigir o fim do sistema político instaurado após a Revolução Islâmica de 1979.
Estratégia brasileira aposta na diplomacia
Diante desse quadro, o governo brasileiro tenta equilibrar interesses econômicos e prudência diplomática. A disposição de Lula em conversar diretamente com Trump, se necessário, reflete a tentativa de evitar que decisões unilaterais dos Estados Unidos causem efeitos colaterais sobre o comércio exterior brasileiro.
A leitura no Itamaraty é de que o Brasil pode sustentar, com dados e argumentos, que sua relação com o Irã não viola sanções internacionais nem representa ameaça à segurança global. Ainda assim, o episódio evidencia como disputas geopolíticas podem afetar cadeias comerciais aparentemente distantes do conflito central.
Enquanto não há anúncios oficiais por parte de Washington, o Planalto segue acompanhando os desdobramentos com atenção. Para o governo e para o agronegócio, a palavra de ordem é ganhar tempo, manter o diálogo aberto e evitar que uma nova rodada de tensões internacionais se traduza em prejuízos concretos para a economia brasileira.
[ Fonte: CNN Brasil ]