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A ascensão silenciosa do império cripto dos Trump: política, lucro e possíveis conflitos éticos

De críticos a defensores entusiasmados, os Trump agora lideram um império bilionário em criptomoedas. Enquanto Donald Trump promove políticas favoráveis ao setor, sua família lança tokens, mineradoras e fundos que podem lucrar diretamente com essas decisões. O entrelaçamento entre política e interesses privados nunca foi tão evidente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Até pouco tempo atrás, Donald Trump chamava as criptomoedas de “fraude” e “perigo”. Hoje, da cadeira presidencial, defende o setor como o futuro das finanças. Essa guinada não é apenas retórica: está sustentada por uma rede crescente de empresas de cripto ligadas diretamente à sua família — e que já movimentam bilhões. O novo império dos Trump no mundo digital levanta sérias questões sobre conflito de interesses entre o poder público e os lucros privados.

 

O coração do império: a stablecoin $USD1

A principal joia do império é a empresa World Liberty Financial (WLFI), lançada em setembro de 2024. Antes de assumir o cargo, Trump era listado como “cofundador honorário”. Hoje, os filhos Donald Jr., Eric e Barron são os nomes à frente da companhia. Seu produto principal é a stablecoin USD1, atrelada ao valor do dólar e já avaliada em US$ 2,2 bilhões.

Stablecoins são criptomoedas que mantêm valor estável. Para cada USD1 emitido, há um dólar real em reserva. A moeda tem sido usada até como meio de pagamento por fundos soberanos, como o MGX dos Emirados Árabes Unidos.

O projeto também é extremamente lucrativo: segundo dados do Escritório de Ética Governamental dos EUA (OGE), Trump recebeu US$ 57,4 milhões apenas no ano passado por meio de tokens ligados à WLFI.

Coincidentemente, o Senado aprovou recentemente a “Genius Act”, uma lei que favorece a adoção em massa de stablecoins — o que pode impulsionar ainda mais a WLFI.

 

Memecoins: $TRUMP e $MELANIA

Além da stablecoin, a família mergulhou no universo dos memecoins — criptos sem valor intrínseco que operam na base do hype. Em janeiro, a Trump Organization lançou a moeda $TRUMP na blockchain Solana. Em pouco tempo, a iniciativa rendeu US$ 350 milhões em taxas de transação, com valor de mercado estimado em US$ 1,8 bilhão.

Logo em seguida, uma empresa ligada à primeira-dama, Melania Trump, lançou a $MELANIA, usada para “eventos, NFTs e aparições públicas”. Mesmo com propósito vago, a moeda já vale mais de US$ 128 milhões.

 

Mineração: American Bitcoin Corp

Eric Trump também entrou de vez no setor ao fundar, em parceria com a Hut 8, a empresa American Bitcoin Corp, voltada à mineração de Bitcoin. A companhia, que já foi listada em bolsa, detém hoje cerca de US$ 22 milhões em Bitcoin e planeja expandir sua operação.

Mineração de Bitcoin é o processo que mantém a rede funcionando, recompensando os mineradores com novas unidades da moeda. É uma atividade altamente lucrativa, porém intensiva em energia.

 

NFTs, ETFs e o próximo passo

O império não para por aí. Desde 2024, Trump já lucrou mais de US$ 1,1 milhão com NFTs que usam sua imagem. Agora, a Trump Media & Technology solicitou autorização para lançar um fundo de investimento (ETF) combinado de Bitcoin e Ether — produto que tornaria o acesso às criptos mais fácil para o público tradicional.

Além disso, a campanha de reeleição de Trump passou a aceitar doações em criptomoedas, criando uma ponte direta entre sua base política e o ecossistema digital que ele e sua família estão construindo.

 

A teia de conflitos e as dúvidas éticas

Todo esse crescimento levanta uma pergunta central: até onde o presidente pode promover políticas que favorecem diretamente negócios familiares? Para críticos como a senadora Elizabeth Warren, há riscos graves. Ela afirma que a USD1 pode se tornar “uma ferramenta coercitiva” para comprar favores políticos e recompensar aliados com isenções, cargos e até perdões presidenciais.

O caso expõe uma realidade inédita nos EUA: um presidente no cargo defendendo abertamente políticas que podem enriquecer sua própria família — enquanto amplia o uso da máquina pública para promover ativos digitais sob seu controle indireto.

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