Durante décadas, a tabela periódica parecia uma obra inacabada esperando novos nomes e descobertas. Cientistas expandiram suas fronteiras, criaram elementos artificiais e desafiaram os limites da física moderna. Mas agora a corrida pelos próximos números da tabela entrou em um território estranho, onde os átomos desaparecem quase instantaneamente e a própria matéria começa a desafiar as regras conhecidas da ciência. A pergunta deixou de ser apenas “o que vem depois” e passou a ser muito mais inquietante.
A tabela periódica ainda não chegou ao fim
A última grande atualização da tabela periódica aconteceu em 2016, quando quatro novos elementos passaram oficialmente a integrar o famoso quadro da química moderna. Entre eles estava o elemento 118, chamado oganessônio, batizado em homenagem ao físico Yuri Oganessian — um feito raro, já que pouquíssimos cientistas vivos receberam essa honra.
O detalhe mais curioso é que o elemento praticamente mal existe.
Os pesquisadores responsáveis pela descoberta conseguiram criar apenas alguns átomos extremamente instáveis, que desapareceram quase imediatamente após serem formados. Mesmo assim, o feito foi suficiente para garantir um novo espaço na tabela periódica.
Desde então, a busca pelos elementos 119 e 120 virou uma espécie de obsessão científica internacional. Laboratórios ao redor do mundo tentam ultrapassar os limites atuais da química nuclear para abrir uma nova linha na tabela periódica, mas os obstáculos se tornaram cada vez mais difíceis.
Para entender por que isso acontece, é preciso voltar à origem da própria tabela periódica.
Criada no século XIX pelo químico russo Dmitri Mendeléyev, a tabela surgiu como uma tentativa de organizar os elementos conhecidos segundo padrões de comportamento químico. O sistema foi tão eficiente que permitiu prever a existência de elementos ainda desconhecidos naquela época.
Hoje, a tabela é organizada pelo número atômico, ou seja, pela quantidade de prótons presentes no núcleo de cada átomo. O hidrogênio possui apenas um próton. Já o oganessônio possui 118.
E é justamente aí que começa o problema.
O que acontece quando os átomos ficam grandes demais

Quanto maior o número de prótons dentro de um núcleo atômico, mais difícil se torna manter essa estrutura estável. Isso ocorre porque prótons possuem carga positiva e naturalmente se repelem entre si.
Os nêutrons ajudam a equilibrar essa força, funcionando como uma espécie de “cola nuclear”. Mas existe um limite para essa estabilidade.
Os elementos mais leves encontrados na natureza conseguem permanecer estáveis durante bilhões de anos. Já os superpesados se desintegram rapidamente, emitindo radiação intensa. Alguns desaparecem em frações de segundo.
É por isso que cientistas precisam criar esses elementos artificialmente em aceleradores de partículas gigantescos. O processo envolve lançar núcleos atômicos uns contra os outros em velocidades absurdamente altas para tentar fundi-los.
O problema é que, à medida que os elementos ficam maiores, as chances de sucesso diminuem drasticamente.
Especialistas afirmam que os elementos acima do chumbo já são naturalmente radioativos e extremamente instáveis. Depois do elemento 100, chamado férmio, a situação se torna ainda mais complicada. Muitas vezes, os pesquisadores conseguem produzir apenas alguns poucos átomos antes que eles desapareçam.
Isso limita enormemente qualquer possibilidade de estudo mais profundo ou aplicação prática.
Ainda assim, os laboratórios continuam insistindo.
A corrida pelos elementos 119 e 120 virou um desafio global
Diversos grupos científicos tentam há anos encontrar os próximos elementos da tabela periódica. Até agora, todas as tentativas fracassaram oficialmente.
Mesmo assim, a corrida continua porque os pesquisadores acreditam que esses elementos podem revelar novas informações sobre o funcionamento dos núcleos atômicos e os limites da matéria.
Existe inclusive uma hipótese fascinante conhecida como “ilha de estabilidade”. Alguns físicos acreditam que certos elementos superpesados poderiam, teoricamente, permanecer estáveis por mais tempo do que o esperado, desafiando as previsões atuais da física nuclear.
Se isso realmente acontecer, abriria uma nova era para a química moderna.
O problema é que produzir esses elementos exige estruturas tecnológicas gigantescas e quantidades enormes de energia. Os cientistas precisam construir aceleradores cada vez maiores para aumentar as chances de fusão entre núcleos atômicos.
E mesmo quando conseguem gerar algo novo, surge outro obstáculo: provar que o elemento realmente existiu.
Como muitos desses átomos desaparecem quase instantaneamente, confirmar oficialmente uma descoberta pode levar anos. A União Internacional de Química Pura e Aplicada, responsável pela validação dos elementos, exige evidências extremamente rigorosas antes de reconhecer qualquer novo membro da tabela periódica.
Talvez a tabela periódica nunca seja completada
A ideia de uma tabela periódica infinita fascina cientistas há décadas, mas alguns pesquisadores acreditam que a natureza pode impor um limite definitivo.
Em determinado ponto, os núcleos atômicos se tornam tão instáveis que simplesmente deixam de conseguir existir por tempo suficiente. Ou seja: talvez haja elementos que jamais poderão ser observados de maneira significativa.
Essa possibilidade transformou a busca pelos elementos 119 e 120 em algo quase filosófico. A ciência não tenta apenas preencher espaços vazios na tabela periódica — ela está tentando descobrir até onde a matéria consegue existir.
Mesmo sem aplicações práticas imediatas, essas pesquisas ajudam a testar teorias fundamentais da física moderna e ampliam nossa compreensão sobre o universo.
Cada novo elemento criado, mesmo que sobreviva apenas por milissegundos, funciona como uma pequena janela para regiões desconhecidas da natureza.
E talvez seja justamente isso que torna essa corrida tão fascinante: a humanidade pode estar muito próxima de descobrir que a tabela periódica não termina porque ainda faltam elementos… mas porque a própria realidade impõe um limite invisível.
[Fonte: BBC]