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Ciência

Um comprimido pode finalmente impedir a infecção por covid-19 antes mesmo dos sintomas — e ele já impressionou cientistas em testes internacionais

O antiviral ensitrelvir reduziu drasticamente o risco de infecção por covid-19 em pessoas expostas ao vírus dentro de casa, segundo um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine. O medicamento já foi aprovado no Japão como prevenção contra a doença e agora aguarda decisão da FDA nos Estados Unidos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante grande parte da pandemia, o foco dos medicamentos contra a covid-19 esteve em reduzir hospitalizações e mortes após a infecção. Vacinas ajudaram a diminuir casos graves, enquanto antivirais como o Paxlovid passaram a ser usados para tratar pacientes de risco logo nos primeiros sintomas.

Mas ainda faltava uma peça importante: um remédio capaz de impedir que a pessoa sequer desenvolvesse a doença após a exposição ao vírus.

Agora, um novo estudo internacional sugere que esse cenário pode estar mudando.

Pesquisadores dos Estados Unidos, Japão e Reino Unido divulgaram resultados promissores envolvendo o antiviral ensitrelvir, um medicamento desenvolvido pela farmacêutica japonesa Shionogi & Co.. Segundo o estudo, o remédio conseguiu reduzir significativamente o risco de infecção em pessoas que conviviam na mesma casa com pacientes contaminados pela covid-19.

Os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine e já chamaram atenção porque o medicamento pode se tornar o primeiro comprimido amplamente eficaz para prevenção pós-exposição da doença.

Como funciona o ensitrelvir

O ensitrelvir — pronunciado aproximadamente como “en-sí-trel-vir” — pertence a uma nova geração de antivirais que atuam bloqueando uma enzima fundamental para o coronavírus se multiplicar.

O alvo é a chamada protease principal, responsável por quebrar proteínas essenciais para que o vírus consiga produzir novas cópias de si mesmo dentro do organismo.

Esse mecanismo é semelhante ao utilizado pelo Paxlovid, tratamento antiviral bastante conhecido durante a pandemia. O Paxlovid utiliza o composto nirmatrelvir combinado ao ritonavir, um medicamento originalmente desenvolvido para HIV que prolonga a ação antiviral no corpo.

O problema é que, com o avanço da vacinação e das novas variantes, o impacto preventivo do Paxlovid diminuiu consideravelmente nos últimos anos.

Além disso, estudos anteriores não conseguiram demonstrar que o medicamento fosse eficaz para evitar a infecção em pessoas altamente expostas ao vírus.

É justamente aí que o ensitrelvir parece se destacar.

O estudo acompanhou quase 2 mil pessoas

O ensaio clínico de fase III aconteceu entre junho de 2023 e setembro de 2024 e envolveu aproximadamente 2 mil voluntários em cinco países, incluindo os Estados Unidos.

Os participantes moravam com alguém que havia acabado de testar positivo para covid-19, mas ainda estavam negativos no momento inicial do estudo.

Para participar, era necessário iniciar o tratamento em até 72 horas após o aparecimento dos sintomas na pessoa infectada da casa.

Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos:

  • Um recebeu comprimidos diários de ensitrelvir durante cinco dias
  • O outro recebeu placebo

Os pesquisadores então acompanharam os participantes durante dez dias para verificar quem desenvolveria covid-19.

Os resultados foram considerados muito promissores

Ao final do estudo, apenas 2,9% das pessoas que tomaram ensitrelvir desenvolveram covid-19.

No grupo placebo, o número chegou a 9%.

Na prática, isso representa uma redução expressiva no risco de infecção após exposição ao vírus dentro de casa — um dos ambientes mais difíceis para evitar transmissão.

Outro dado importante foi a segurança do medicamento.

Os efeitos adversos observados foram semelhantes entre os dois grupos, sugerindo que o antiviral foi relativamente bem tolerado pelos participantes.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que o início rápido do tratamento após exposição ao vírus pode funcionar como uma estratégia eficaz de prevenção, inclusive em pessoas com fatores de risco para formas graves da doença.

O Japão já aprovou o medicamento como prevenção

O ensitrelvir já havia sido aprovado anteriormente no Japão e em Singapura como tratamento contra covid-19 sob o nome comercial Xocova.

Após os novos resultados, o governo japonês ampliou a autorização do medicamento em março deste ano para incluir também uso preventivo.

Agora, a Shionogi aguarda a decisão da Food and Drug Administration, a FDA americana, que deve anunciar sua avaliação até junho.

Por que isso continua importante mesmo após o fim da pandemia

Embora a covid-19 já não provoque o mesmo nível de emergência global observado nos primeiros anos da pandemia, o vírus continua causando hospitalizações e mortes todos os anos, especialmente entre idosos e pessoas imunossuprimidas.

Além disso, cientistas lembram que novas epidemias ou pandemias continuarão surgindo inevitavelmente no futuro — e os coronavírus seguem entre os principais candidatos a provocar novos surtos globais.

Ter antivirais mais eficazes e capazes não apenas de tratar, mas também de prevenir infecções, pode mudar completamente a resposta médica em futuras emergências sanitárias.

Na pandemia de 2020, o mundo levou meses para desenvolver medicamentos específicos contra o coronavírus.

Agora, pela primeira vez, talvez estejamos começando uma futura crise já com parte desse arsenal pronta.

 

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