Durante grande parte da pandemia, o foco dos medicamentos contra a covid-19 esteve em reduzir hospitalizações e mortes após a infecção. Vacinas ajudaram a diminuir casos graves, enquanto antivirais como o Paxlovid passaram a ser usados para tratar pacientes de risco logo nos primeiros sintomas.
Mas ainda faltava uma peça importante: um remédio capaz de impedir que a pessoa sequer desenvolvesse a doença após a exposição ao vírus.
Agora, um novo estudo internacional sugere que esse cenário pode estar mudando.
Pesquisadores dos Estados Unidos, Japão e Reino Unido divulgaram resultados promissores envolvendo o antiviral ensitrelvir, um medicamento desenvolvido pela farmacêutica japonesa Shionogi & Co.. Segundo o estudo, o remédio conseguiu reduzir significativamente o risco de infecção em pessoas que conviviam na mesma casa com pacientes contaminados pela covid-19.
Os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine e já chamaram atenção porque o medicamento pode se tornar o primeiro comprimido amplamente eficaz para prevenção pós-exposição da doença.
Como funciona o ensitrelvir
O ensitrelvir — pronunciado aproximadamente como “en-sí-trel-vir” — pertence a uma nova geração de antivirais que atuam bloqueando uma enzima fundamental para o coronavírus se multiplicar.
O alvo é a chamada protease principal, responsável por quebrar proteínas essenciais para que o vírus consiga produzir novas cópias de si mesmo dentro do organismo.
Esse mecanismo é semelhante ao utilizado pelo Paxlovid, tratamento antiviral bastante conhecido durante a pandemia. O Paxlovid utiliza o composto nirmatrelvir combinado ao ritonavir, um medicamento originalmente desenvolvido para HIV que prolonga a ação antiviral no corpo.
O problema é que, com o avanço da vacinação e das novas variantes, o impacto preventivo do Paxlovid diminuiu consideravelmente nos últimos anos.
Além disso, estudos anteriores não conseguiram demonstrar que o medicamento fosse eficaz para evitar a infecção em pessoas altamente expostas ao vírus.
É justamente aí que o ensitrelvir parece se destacar.
O estudo acompanhou quase 2 mil pessoas
O ensaio clínico de fase III aconteceu entre junho de 2023 e setembro de 2024 e envolveu aproximadamente 2 mil voluntários em cinco países, incluindo os Estados Unidos.
Os participantes moravam com alguém que havia acabado de testar positivo para covid-19, mas ainda estavam negativos no momento inicial do estudo.
Para participar, era necessário iniciar o tratamento em até 72 horas após o aparecimento dos sintomas na pessoa infectada da casa.
Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
- Um recebeu comprimidos diários de ensitrelvir durante cinco dias
- O outro recebeu placebo
Os pesquisadores então acompanharam os participantes durante dez dias para verificar quem desenvolveria covid-19.
Os resultados foram considerados muito promissores
Ao final do estudo, apenas 2,9% das pessoas que tomaram ensitrelvir desenvolveram covid-19.
No grupo placebo, o número chegou a 9%.
Na prática, isso representa uma redução expressiva no risco de infecção após exposição ao vírus dentro de casa — um dos ambientes mais difíceis para evitar transmissão.
Outro dado importante foi a segurança do medicamento.
Os efeitos adversos observados foram semelhantes entre os dois grupos, sugerindo que o antiviral foi relativamente bem tolerado pelos participantes.
Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que o início rápido do tratamento após exposição ao vírus pode funcionar como uma estratégia eficaz de prevenção, inclusive em pessoas com fatores de risco para formas graves da doença.
O Japão já aprovou o medicamento como prevenção
O ensitrelvir já havia sido aprovado anteriormente no Japão e em Singapura como tratamento contra covid-19 sob o nome comercial Xocova.
Após os novos resultados, o governo japonês ampliou a autorização do medicamento em março deste ano para incluir também uso preventivo.
Agora, a Shionogi aguarda a decisão da Food and Drug Administration, a FDA americana, que deve anunciar sua avaliação até junho.
Por que isso continua importante mesmo após o fim da pandemia
Embora a covid-19 já não provoque o mesmo nível de emergência global observado nos primeiros anos da pandemia, o vírus continua causando hospitalizações e mortes todos os anos, especialmente entre idosos e pessoas imunossuprimidas.
Além disso, cientistas lembram que novas epidemias ou pandemias continuarão surgindo inevitavelmente no futuro — e os coronavírus seguem entre os principais candidatos a provocar novos surtos globais.
Ter antivirais mais eficazes e capazes não apenas de tratar, mas também de prevenir infecções, pode mudar completamente a resposta médica em futuras emergências sanitárias.
Na pandemia de 2020, o mundo levou meses para desenvolver medicamentos específicos contra o coronavírus.
Agora, pela primeira vez, talvez estejamos começando uma futura crise já com parte desse arsenal pronta.