A nova corrida espacial costuma ser apresentada como símbolo de inovação, internet global e avanço tecnológico. Mas cientistas começam a alertar para um efeito colateral pouco visível — e potencialmente preocupante.
Segundo um estudo publicado na revista Earth’s Future, a explosão recente de lançamentos de foguetes está acumulando grandes quantidades de fuligem na atmosfera superior da Terra. E esse tipo específico de poluição pode ser centenas de vezes mais prejudicial para o clima do que a fuligem emitida por carros, indústrias ou usinas na superfície.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do University College London e analisou o impacto ambiental da nova era das “megaconstelações” de satélites — enormes redes orbitais compostas por milhares de pequenos satélites lançados continuamente ao espaço.
O caso mais famoso é a SpaceX, de Elon Musk, responsável pela rede Starlink, que já possui quase 12 mil satélites em órbita.
A fuligem espacial permanece por anos na atmosfera

O principal problema identificado pelos pesquisadores envolve o chamado carbono negro, conhecido popularmente como fuligem.
Toda vez que um foguete é lançado — especialmente os movidos a combustíveis derivados de querosene — partículas microscópicas são liberadas em altitudes extremamente elevadas da atmosfera.
Diferente da poluição produzida ao nível do solo, essa fuligem não é rapidamente removida pela chuva ou pelos ciclos atmosféricos normais.
Ela permanece suspensa durante anos na estratosfera e em regiões ainda mais altas da atmosfera terrestre.
Isso faz com que seu impacto climático seja muito maior.
Segundo os pesquisadores, o carbono negro emitido por foguetes pode ser até 540 vezes mais eficiente em alterar o clima do que a fuligem produzida perto da superfície da Terra.
O crescimento da indústria espacial mudou completamente o cenário
Os cientistas analisaram lançamentos de foguetes e reentradas atmosféricas de satélites entre 2020 e 2022 para calcular o crescimento da poluição espacial.
O resultado mostra uma aceleração impressionante.
Em 2020, as megaconstelações já representavam cerca de 35% do impacto climático total do setor espacial. A previsão é que esse número chegue a 42% até 2029.
O motivo é simples: o número de lançamentos disparou.
Em apenas cinco anos, os lançamentos anuais de foguetes praticamente triplicaram, saltando de 114 em 2020 para 329 em 2025.
Grande parte desse aumento está ligada justamente à expansão da Starlink e de projetos concorrentes de internet via satélite.
O Falcon 9 aparece como um dos principais emissores
O estudo destaca especialmente o foguete Falcon 9, utilizado pela SpaceX para lançar satélites da Starlink.
O veículo utiliza combustível baseado em querosene, que produz grandes quantidades de partículas de carbono negro durante a queima.
Como os lançamentos acontecem em altitudes muito elevadas, a fuligem permanece presa em regiões atmosféricas onde os mecanismos naturais de limpeza funcionam muito lentamente.
Além disso, a reentrada de satélites descartados também contribui para o problema, liberando resíduos químicos e partículas metálicas enquanto queimam ao voltar para a atmosfera.
A poluição pode afetar até a camada de ozônio

Os pesquisadores alertam que o impacto não se limita ao aquecimento global.
Os lançamentos espaciais também liberam substâncias químicas como cloro e óxidos metálicos, capazes de interagir com a camada de ozônio.
A preocupação é especialmente relevante porque a camada de ozônio levou décadas para começar a se recuperar após o banimento progressivo de gases como os CFCs.
Agora, cientistas temem que a nova indústria espacial possa introduzir uma pressão adicional justamente nas regiões atmosféricas mais sensíveis do planeta.
O efeito lembra propostas de geoengenharia climática
Curiosamente, os pesquisadores observaram que o acúmulo de fuligem espacial pode gerar um efeito semelhante ao de algumas propostas de geoengenharia climática.
Essas técnicas sugerem injetar partículas na atmosfera superior para refletir parte da luz solar e reduzir temporariamente o aquecimento global.
Segundo o estudo, a quantidade de fuligem prevista para 2029 poderia bloquear parte da radiação solar de maneira parecida.
Mas os próprios autores fazem um alerta importante: qualquer possível efeito de resfriamento seria mínimo diante do avanço do aquecimento global causado pelas emissões terrestres.
Além disso, mexer no equilíbrio atmosférico dessa forma pode trazer consequências imprevisíveis.
Ainda há tempo para evitar um problema maior
Apesar da preocupação, os cientistas afirmam que o impacto atual ainda é relativamente pequeno em escala planetária.
Isso significa que existe uma janela de oportunidade para criar regulamentações e desenvolver tecnologias mais limpas antes que a situação se torne muito mais difícil de controlar.
O problema é que a indústria espacial está crescendo rápido demais.
As estimativas anteriores falavam em cerca de 65 mil novos satélites até o fim da década — mas os pesquisadores afirmam que esses números já parecem ultrapassados diante do ritmo atual da corrida espacial.
E quanto mais foguetes subirem, mais uma nova forma de poluição invisível continuará se acumulando silenciosamente acima das nossas cabeças.
[ Fonte: El Litoral ]