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Ciência

A China descobriu que o verdadeiro ouro da corrida espacial não está nos foguetes, mas em quem paga quando eles explodem

Enquanto a disputa espacial parece girar em torno de lançamentos e novos satélites, a China mira um mercado muito menos conhecido — e extremamente lucrativo. O país quer assumir o controle dos seguros espaciais, um setor bilionário que determina quais missões conseguem financiamento e quais jamais deixam o papel.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando um foguete explode, o prejuízo não termina na plataforma de lançamento. Satélites destruídos, missões canceladas e anos de investimento podem desaparecer em poucos segundos. Foi exatamente isso que aconteceu em 2016, quando um foguete Falcon 9, da SpaceX, explodiu durante um teste em Cabo Canaveral, destruindo o satélite israelense Amos-6. O prejuízo chegou perto de US$ 300 milhões, mas acabou sendo absorvido pelas seguradoras.

É justamente nesse mercado pouco conhecido que a China decidiu entrar de forma agressiva. Mais do que fabricar foguetes ou lançar satélites, Pequim quer controlar quem assume os riscos financeiros da nova economia espacial.

O seguro é o combustível invisível da indústria espacial

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© SpaceX

Lançar um satélite nunca foi barato. Dependendo da missão, fabricar e colocar um equipamento em órbita pode custar entre US$ 150 milhões e US$ 400 milhões.

Sem um seguro, praticamente nenhum investidor aceita financiar projetos desse porte.

Além disso, o setor é respaldado pelo Tratado de Responsabilidade Internacional por Danos Causados por Objetos Espaciais, de 1972, que estabelece que os países são responsáveis pelos danos provocados por seus objetos lançados ao espaço.

Na prática, isso significa que seguros espaciais não são apenas uma proteção financeira: eles são uma condição essencial para que a indústria funcione.

Hoje, esse mercado movimenta mais de US$ 4 bilhões por ano e representa um dos pilares silenciosos da economia espacial.

A estratégia chinesa mudou completamente em 2025

Durante muitos anos, a China contratava seguros por meio da estatal PICC. No entanto, parte dos riscos era repassada para grandes resseguradoras internacionais, principalmente sediadas em Londres e Paris.

Quando o satélite ChinaSat-18 apresentou falhas em 2019, boa parte das perdas acabou sendo absorvida por empresas estrangeiras.

Na prática, a China financiava seu próprio programa espacial, mas deixava boa parte dos lucros do setor de seguros nas mãos do mercado internacional.

Isso começou a mudar em março de 2025.

Um consórcio formado por seguradoras chinesas passou a operar exclusivamente no setor aeroespacial comercial do país. Apenas em seu primeiro ano de funcionamento, o grupo cobriu 25 lançamentos privados, somando aproximadamente US$ 1,47 bilhão em ativos segurados.

O objetivo é claro: manter tanto o dinheiro quanto o controle desse mercado dentro da própria China.

O domínio dos seguros também significa poder estratégico

Controlar os seguros espaciais significa decidir quais empresas conseguem financiamento para desenvolver foguetes e satélites.

Pequim trata essa área da mesma forma que fez anteriormente com os setores de baterias, semicondutores e veículos elétricos: utilizando investimentos públicos para conquistar independência tecnológica.

Em abril de 2025, o governo municipal de Xangai anunciou cerca de 300 milhões de yuans em incentivos para empresas do setor aeroespacial comercial. Paralelamente, Pequim passou a oferecer subsídios específicos para reduzir o custo das apólices contratadas pelas companhias espaciais chinesas.

A estratégia fortalece empresas privadas como LandSpace, CAS Space e Space Pioneer, que começam a disputar espaço em um mercado antes dominado por empresas ocidentais.

Um mercado tradicional enfrenta uma nova concorrência

Durante décadas, o setor de seguros espaciais permaneceu concentrado na Europa.

Empresas como Lloyd’s of London, Munich Re, Swiss Re e AXA XL dominaram esse segmento desde os anos 1960, acompanhando praticamente toda a evolução da exploração comercial do espaço.

Mas o crescimento acelerado da SpaceX mudou completamente o cenário.

Mais lançamentos, redução dos custos e uma explosão no número de satélites criaram novos perfis de risco e abriram espaço para modelos de seguro mais flexíveis.

Agora, a entrada da China promete provocar uma transformação semelhante.

Como as seguradoras calculam os prêmios com base no histórico de confiabilidade de cada foguete, veículos recém-desenvolvidos costumam pagar valores muito mais altos. O novo consórcio chinês pode assumir riscos que empresas ocidentais preferem evitar, facilitando o crescimento da indústria espacial doméstica.

O setor também enfrenta desafios cada vez maiores

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© YouTube

Apesar do enorme potencial, o mercado de seguros espaciais atravessa um período delicado.

Em 2024, as seguradoras pagaram mais indenizações do que arrecadaram em prêmios, impulsionadas por perdas de satélites de alto valor, como o Intelsat 33e.

Ao mesmo tempo, a quantidade de lixo espacial continua aumentando rapidamente, elevando os riscos de colisões em órbita e tornando mais difícil calcular a probabilidade de acidentes.

Outro fator complica ainda mais esse cenário: as tensões geopolíticas.

Sanções impostas pelos Estados Unidos impedem que determinadas seguradoras americanas e europeias operem com ativos ligados ao setor espacial chinês. Isso fragmenta o mercado internacional e cria espaço para que a China desenvolva um ecossistema financeiro próprio.

No fim das contas, a nova corrida espacial pode não ser decidida apenas por quem constrói os melhores foguetes. Quem controlar os seguros terá influência direta sobre quais projetos conseguem sair do papel — e esse talvez seja o ativo mais valioso da economia espacial nas próximas décadas.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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