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Tecnologia

A China está abraçando a IA enquanto os EUA começam a desconfiar dela — e há uma explicação

A inteligência artificial avança rapidamente nas duas maiores potências tecnológicas, mas a reação da sociedade é surpreendentemente diferente. A explicação vai muito além da tecnologia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial está deixando de ser uma novidade restrita aos laboratórios e entrando em serviços, empresas e tarefas cotidianas. Mas existe uma diferença curiosa entre duas das maiores potências tecnológicas do planeta. Enquanto nos Estados Unidos ganham espaço os alertas sobre os riscos de sistemas cada vez mais poderosos, na China a tecnologia parece encontrar uma recepção mais positiva. Por trás desse contraste existem fatores sociais, políticos e econômicos.

Quando a inteligência artificial deixa de parecer ficção

Na China, a IA já está incorporada a diversas atividades do cotidiano. Assistentes digitais podem ajudar em serviços governamentais, estudantes recebem avaliações automatizadas e alguns hotéis utilizam robôs para levar encomendas diretamente aos quartos.

Os números também sugerem uma diferença relevante na frequência de utilização. Uma pesquisa da Morgan Stanley citada pela CNN apontou que 80% dos entrevistados chineses utilizavam ferramentas de IA pelo menos uma vez por semana, contra 54% nos Estados Unidos.

A percepção sobre a tecnologia também apresenta uma distância significativa. Segundo uma pesquisa da Ipsos realizada em 2026, 83% dos participantes chineses consideravam interessantes produtos e serviços baseados em IA. Nos Estados Unidos, o índice era de 33%.

Existe ainda outro elemento: a confiança nas instituições.

Um levantamento da Edelman indicou que 86% dos entrevistados chineses confiavam que seu governo faria o que é correto, enquanto o percentual nos Estados Unidos era de 39%.

Esses números não significam que os chineses não estejam preocupados com os riscos da inteligência artificial. A diferença parece estar também na maneira como esses riscos são interpretados e, principalmente, em quem a população espera que seja responsável por controlá-los.

Para o analista Lian Jye Su, da Omdia, a confiança na capacidade do Estado de intervir quando uma tecnologia apresenta problemas pode ajudar a explicar parte dessa percepção.

Uma experiência diferente pode mudar a maneira de enxergar a IA

Existe ainda uma explicação mais simples: o contato direto com os benefícios.

Empresas chinesas estão incorporando inteligência artificial a plataformas e serviços que milhões de pessoas já utilizam. A tecnologia aparece no comércio eletrônico, no entretenimento, na indústria e em diversas outras atividades sem necessariamente exigir que o consumidor procure uma ferramenta específica.

Assim, para muitos usuários, a primeira experiência com IA não envolve robôs autônomos ou cenários futuristas. Envolve uma tarefa que ficou mais rápida, barata ou conveniente.

Essa experiência pode influenciar a percepção pública. O analista Poe Zhao, fundador da Hello China Tech, argumenta que quem percebe benefícios concretos no cotidiano tende a avaliar a tecnologia inicialmente pelo que ela consegue fazer, e não apenas pelo que poderia dar errado no futuro.

Nos Estados Unidos, parte do debate público é diferente. Pesquisadores e executivos do setor já discutiram riscos que vão desde desinformação e ataques cibernéticos até cenários extremos envolvendo sistemas altamente autônomos.

Isso não significa que a China ignore essas ameaças.

Autoridades chinesas também alertam para uso malicioso da IA, roubo de informações, ciberataques, desinformação e possíveis impactos sociais. A diferença está no modelo de resposta: a expansão tecnológica acontece dentro de uma estrutura em que o Estado exerce forte controle regulatório.

Duas potências estão correndo na mesma direção, mas por caminhos diferentes

A maneira como a China encara a IA também está ligada à própria história recente do país.

Nas últimas décadas, a China passou de uma potência fortemente associada à manufatura para um competidor direto dos Estados Unidos em áreas como veículos elétricos, baterias, smartphones e computação.

O avanço tecnológico passou a ser associado não apenas ao crescimento econômico, mas também à capacidade do país de competir internacionalmente.

A inteligência artificial se encaixa perfeitamente nessa trajetória.

Para parte da população e das empresas, desenvolver modelos competitivos representa uma oportunidade econômica e também uma demonstração de capacidade tecnológica nacional.

Existem, porém, limitações importantes. As restrições estadunidenses ao acesso aos processadores de IA mais avançados dificultam a expansão de alguns laboratórios chineses. Ao mesmo tempo, empresas dos dois países trabalham com níveis de investimento e acesso a infraestrutura diferentes.

Liang Wenfeng, fundador da DeepSeek, já destacou justamente hardware avançado e capital como fatores importantes na competição entre os laboratórios.

Isso ajuda a explicar outra diferença de estratégia. Enquanto algumas empresas estadunidenses concentram enormes recursos na construção de modelos cada vez mais avançados, empresas chinesas possuem fortes incentivos para transformar rapidamente a IA em produtos e serviços utilizáveis.

O verdadeiro contraste pode estar na confiança

No fim, a diferença entre China e Estados Unidos não parece ser simplesmente uma questão de quem gosta ou não de inteligência artificial.

Os dois países estão profundamente envolvidos no desenvolvimento da tecnologia, mas suas sociedades enfrentam contextos institucionais, econômicos e culturais diferentes.

Na China, a confiança relativamente maior no Estado, a experiência de décadas de crescimento tecnológico e a exposição cotidiana a aplicações de IA podem favorecer uma postura mais orientada aos benefícios e à implementação.

Nos Estados Unidos, uma tradição mais forte de desconfiança em relação a grandes empresas e instituições pode contribuir para que os riscos recebam maior atenção pública.

Nenhuma dessas diferenças significa que uma população esteja simplesmente “certa” e a outra “errada”. Também não significa que os cidadãos chineses sejam indiferentes aos riscos ou que os estadunidenses rejeitem a tecnologia.

O contraste é mais interessante do que isso.

A China parece abraçar a IA porque uma parcela maior da população a experimenta como ferramenta útil e confia mais na capacidade institucional de controlar seus problemas, enquanto nos Estados Unidos o debate público dá mais espaço às possíveis consequências negativas e à cobrança sobre empresas e governos.

E essa diferença de percepção pode acabar sendo tão importante quanto chips, investimentos e modelos de linguagem para determinar como a próxima fase da corrida pela inteligência artificial será construída.

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