Em 1963, todo o Japão tinha apenas 153 pessoas conhecidas com 100 anos ou mais. Pouco mais de seis décadas depois, esse número parece pertencer a outro planeta. O país acaba de atravessar pela primeira vez a barreira dos 100 mil centenários. Não existe uma fórmula mágica para explicar tamanha longevidade, mas pesquisadores encontraram algumas pistas importantes sobre o que pode estar ajudando os japoneses a viver tanto.
O número que parecia impossível finalmente chegou

Os novos dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão contabilizam 107.677 pessoas com pelo menos 100 anos em setembro de 2026.
São 7.914 a mais do que no ano passado. E existe outro detalhe impressionante: o número de centenários japoneses aumentou pelo 56º ano consecutivo.
A transformação fica ainda mais evidente olhando para trás.
Em 1963, quando o país começou a manter esses registros, eram apenas 153 centenários. A marca de mil foi superada em 1981; a de 10 mil, em 1998. Agora, pela primeira vez, o total ultrapassou 100 mil.
As mulheres dominam amplamente esse grupo.
Das 107.677 pessoas, 94.298 são mulheres, cerca de 88% do total. A pessoa mais velha atualmente reconhecida no Japão é Fuyo Kishimoto, de 114 anos, residente em Kyoto. Entre os homens, Hikaru Kato tem 112 anos.
Mas por que justamente o Japão?
Não existe um único “segredo japonês”

É tentador procurar um alimento milagroso ou hábito específico capaz de explicar os números.
A ciência aponta para algo muito mais complexo.
A longevidade japonesa provavelmente resulta de uma combinação de fatores, incluindo baixas taxas de obesidade, alimentação relativamente saudável, exames preventivos e amplo acesso aos serviços de saúde. Isso contribuiu para reduzir a mortalidade por doenças cardiovasculares e determinados tipos de câncer.
A dieta tradicional também chama atenção.
Peixes, vegetais e arroz possuem presença importante na alimentação japonesa, enquanto historicamente existe menor consumo de alguns alimentos ricos em gorduras saturadas em comparação com dietas ocidentais.
Isso não significa que comer sushi ou peixe regularmente fará alguém chegar aos 100 anos.
Genética, renda, ambiente, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, acesso à medicina e muitos outros fatores interagem durante décadas.
É justamente essa combinação que torna a longevidade tão difícil de reduzir a uma receita.
Existe algo ainda mais simples acontecendo nas ruas
Outro fator frequentemente observado é o movimento cotidiano.
Caminhar, utilizar transporte público, andar de bicicleta e continuar realizando tarefas de forma independente podem ajudar pessoas mais velhas a permanecer fisicamente ativas sem necessariamente transformar exercícios em uma atividade separada do restante do dia.
As conexões sociais também despertam interesse.
Muitos idosos japoneses mantêm hobbies, encontram amigos, participam de atividades comunitárias ou continuam trabalhando. Pesquisadores estudam como esses vínculos, associados a fatores físicos e médicos, podem contribuir para uma velhice mais saudável.
E essa distinção é fundamental.
A ciência não está interessada apenas em descobrir como fazer uma pessoa viver mais.
O objetivo cada vez mais importante é aumentar o chamado health span: a quantidade de anos vividos com boa saúde e independência.
Chegar aos 100 anos significa muito menos se as últimas décadas forem acompanhadas por doenças incapacitantes.
O recorde também esconde um enorme problema
O mesmo número que demonstra o sucesso japonês em longevidade expõe uma das maiores dificuldades do país.
Enquanto os idosos vivem mais, cada vez menos crianças estão nascendo.
A taxa de fecundidade japonesa caiu para 1,14 filho por mulher em 2025, o menor nível já registrado. Cerca de 30% da população possui atualmente 65 anos ou mais.
Isso cria uma equação difícil.
Mais pessoas precisam de aposentadorias, atendimento médico e cuidados de longa duração enquanto proporcionalmente menos trabalhadores entram no mercado para sustentar esses sistemas.
As projeções indicam que a população japonesa pode cair para aproximadamente 87 milhões de habitantes em 2070, quando cerca de quatro em cada dez moradores poderão ter 65 anos ou mais.
Viver mais não resolve tudo
Existe uma espécie de paradoxo no recorde japonês.
Durante séculos, aumentar a expectativa de vida foi uma das maiores conquistas perseguidas pela medicina.
O Japão mostra o que acontece quando uma sociedade consegue avançar muito nessa direção.
Mas também revela a próxima pergunta.
Como construir uma sociedade preparada para milhões de pessoas viverem muito mais tempo?
O próprio governo japonês estabeleceu anteriormente metas para aumentar não apenas a expectativa de vida, mas os anos vividos com saúde.
Esse provavelmente será um dos grandes desafios mundiais das próximas décadas.
Porque o Japão pode estar alguns passos à frente, mas dificilmente permanecerá sozinho.
Conforme medicina, prevenção e condições de vida melhoram em diferentes países, mais pessoas poderão chegar aos 90, 100 ou até ultrapassar essa idade.
O verdadeiro segredo que a ciência procura, portanto, talvez não seja simplesmente como chegar aos 100.
É descobrir como chegar lá ainda conseguindo aproveitar os anos conquistados.
[Fonte: La Razón]