Setembro mal chegou à metade e São Paulo já registrou chuva suficiente para quebrar um recorde de mais de 80 anos. Em outras partes do Brasil, 2026 trouxe temperaturas acima dos 40 °C, temporais e preocupação com uma nova seca severa. Seria um cenário perfeito para colocar o clima no centro das eleições presidenciais. Mas, a poucas semanas da votação, acontece algo bem diferente.
São Paulo precisou de apenas 14 dias para quebrar um recorde

Os números ajudam a entender o contraste.
Nos primeiros 14 dias de setembro, a estação do Mirante de Santana, em São Paulo, acumulou 253,8 milímetros de chuva. Foi o setembro mais chuvoso desde o início da série histórica, em 1943, superando os 243,1 mm registrados em 1983.
E São Paulo não está isolada.
Em agosto, o Centro-Oeste enfrentou temperaturas extremas. Rondonópolis, em Mato Grosso, chegou a 42,3 °C, então a maior temperatura registrada no Brasil em 2026. Cuiabá ultrapassou 41 °C, enquanto Goiânia e Brasília também registraram marcas excepcionais para o período.
O Cemaden afirma que a frequência das ondas de calor aumentou em todos os estados brasileiros nas últimas quatro décadas, com intensificação especialmente evidente desde o início dos anos 2000.
Há ainda outro componente entrando nessa equação: o El Niño.
O próximo verão já preocupa os cientistas

O El Niño foi oficialmente configurado em junho de 2026.
Segundo o painel formado por instituições como Inmet, Inpe, Cemaden e Agência Nacional de Águas, modelos indicavam mais de 90% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com possibilidade elevada de atingir intensidade muito forte.
Entre os possíveis efeitos estão mais chuva em áreas do Sul e condições mais secas em partes do centro-norte do Brasil.
Isso aumenta a preocupação com eventos extremos justamente depois de anos marcados por enchentes, estiagens e ondas de calor.
Apesar desse contexto, a reportagem da RFI publicada pelo Yahoo chama atenção para uma aparente contradição: o clima ocupa pouco espaço no debate eleitoral.
E isso não significa que os brasileiros considerem o assunto irrelevante.
91% querem propostas dos candidatos
Uma pesquisa da Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima ouviu 1.800 brasileiros adultos, entre 17 e 20 de agosto.
O resultado é expressivo: 91% consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Para 62%, isso é “muito importante”.
Além disso, 79% afirmaram que o tema deveria ser prioridade do próximo governo mesmo que isso implique custos econômicos, segundo os dados divulgados junto ao levantamento.
Mas existe uma diferença importante.
Quando os entrevistados precisam escolher os maiores problemas do Brasil, mudanças climáticas aparecem apenas em nono lugar. Segurança pública e custo de vida estão entre as preocupações que ocupam posições superiores.
Isso ajuda a explicar um paradoxo: o eleitor pode considerar o clima importante sem colocá-lo entre os assuntos que determinam imediatamente sua atenção política.
Os candidatos falam de energia limpa, mas divergem bastante no restante
As análises dos programas eleitorais também apresentam nuances.
Uma avaliação da CNN Brasil sobre cinco planos registrados no Tribunal Superior Eleitoral encontrou um ponto de convergência: Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema mencionam energia limpa, embora proponham metas e instrumentos diferentes.
Outra análise, realizada pela organização Política por Inteiro, concluiu que os programas de Lula e Caiado apresentam tratamento mais transversal da questão climática entre os seis examinados, conectando o tema a outras políticas públicas.
Já o Observatório do Clima adotou uma avaliação mais crítica. Em sua própria metodologia, que considerou 28 itens distribuídos por oito áreas, classificou o programa de Lula como o que reúne mais compromissos socioambientais detalhados entre os seis candidatos avaliados.
Essas são avaliações de organizações externas, e não uma classificação independente dos candidatos.
As diferenças incluem metas de emissões, petróleo, mineração, desmatamento, adaptação a eventos extremos e o papel do Brasil nos acordos internacionais.
Outro assunto tomou conta da eleição
Há ainda uma explicação política para o clima ter perdido visibilidade.
A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal passou a dominar grande parte do noticiário e das discussões eleitorais nas últimas semanas.
Entidades ouvidas pela Agência Brasil afirmaram que essa disputa acabou deslocando temas estruturais que vinham ganhando espaço anteriormente.
O clima é um deles.
Isso acontece justamente quando o próximo governo terá de lidar com compromissos ambientais já assumidos pelo Brasil e, independentemente das políticas adotadas, com consequências concretas de eventos meteorológicos extremos.
O clima pode desaparecer do debate, mas não do lado de fora
Existe uma diferença fundamental entre mudanças climáticas e muitos outros assuntos de campanha.
Elas continuam acontecendo independentemente do espaço que recebem nos discursos eleitorais.
Chuvas históricas não consultam pesquisas de intenção de voto. Ondas de calor não esperam o fim da campanha. Secas e enchentes também produzem consequências econômicas que atingem agricultura, energia, infraestrutura e preços.
Por isso, o contraste de 2026 chama tanta atenção.
Enquanto os brasileiros atravessam um ano marcado por novos extremos meteorológicos, uma pesquisa indica que a grande maioria gostaria de ouvir propostas climáticas dos candidatos.
Mesmo assim, o assunto disputa espaço com preocupações mais imediatas e com uma crise institucional que domina o debate público.
O clima pode ter saído do centro da campanha. O problema é que ele não parece disposto a sair do cotidiano dos brasileiros.
[Fonte: Noticias Yahoo]