Camp Century: A cidade subterrânea que escondia um propósito oculto
No auge da Guerra Fria, em 1959, o Exército dos Estados Unidos construiu uma base militar secreta sob o gelo da Groenlândia. Batizada de Camp Century, essa instalação foi projetada para abrigar cerca de 200 pessoas e funcionava com um reator nuclear portátil, o PM-2A.
Embora sua missão oficial fosse a pesquisa científica no Ártico, documentos desclassificados nos anos 90 revelaram que o verdadeiro objetivo era testar a viabilidade de implantar mísseis nucleares sob o gelo. Esse projeto, chamado Iceworm, nunca foi levado adiante, mas a base continuou operando por alguns anos antes de ser abandonada.
A rotina na cidade subterrânea
O médico Robert Weiss, enviado a Camp Century em 1962, descreveu a experiência de viver sob o gelo como surpreendentemente suportável. A base possuía dormitórios, hospital, biblioteca e até mesmo uma sala de cinema. No entanto, o ambiente era extremamente isolado, e os trabalhadores precisavam lidar com o medo constante de desmoronamentos devido ao peso do gelo sobre os túneis.
Apesar das dificuldades, Weiss e sua equipe seguiam suas rotinas. Quando não estava atendendo pacientes, ele passava o tempo jogando xadrez e estudando. No entanto, o que ele não sabia era que a exposição à radiação do reator nuclear poderia representar um perigo à sua saúde.
O perigo oculto sob o gelo
O reator nuclear de Camp Century enfrentou problemas técnicos desde o início, e algumas áreas da base registraram níveis elevados de radiação. Embora medidas de segurança tenham sido tomadas, a instabilidade da estrutura acabou levando ao seu fechamento definitivo em 1967.
Com o passar das décadas, Camp Century foi esquecida, soterrada pelo gelo. No entanto, em 2023, a NASA utilizou radares de penetração no solo para redescobrir a estrutura, trazendo à tona preocupações sobre o impacto ambiental do derretimento da camada de gelo na região.
O aquecimento global e a ameaça ambiental
O aquecimento global está acelerando o derretimento das geleiras da Groenlândia, o que pode expor Camp Century e os resíduos químicos, biológicos e radioativos deixados na base. Especialistas alertam que, se essas substâncias forem liberadas, podem representar um grande risco ambiental para o Ártico.
O cientista Chad Greene, da NASA, destaca que as novas tecnologias de imageamento permitem uma visão detalhada da estrutura subterrânea. Embora o risco imediato seja baixo, a progressão do derretimento pode causar colapsos e vazamentos no futuro.
Um legado perigoso da Guerra Fria
O caso de Camp Century é um exemplo de como segredos militares do passado podem retornar para assombrar o presente. Construída em um momento de tensão global, a base foi abandonada sem planejamento para lidar com seus resíduos. Agora, conforme o gelo derrete, a responsabilidade ambiental sobre esse legado sombrio se torna uma questão urgente para cientistas e governos.