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Ciência

A descoberta da NASA que liga vulcões gigantes ao gelo escondido em Marte

Cientistas acreditam ter encontrado a explicação para um dos maiores mistérios de Marte: enormes quantidades de gelo escondidas onde elas jamais deveriam existir.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Marte sempre foi visto como um planeta árido, congelado e praticamente morto. Mas algumas regiões próximas ao equador começaram a desafiar essa imagem nos últimos anos. Sondas espaciais detectaram sinais inesperados de hidrogênio sob a superfície marciana, indicando a possível presença de água congelada em áreas onde o gelo simplesmente não deveria sobreviver. Agora, um novo estudo propõe um cenário extremo envolvendo fogo, ácido e uma tempestade planetária capaz de transformar completamente o clima do planeta vermelho há bilhões de anos.

O mistério que deixou cientistas intrigados por décadas

As primeiras pistas apareceram durante análises feitas por orbitadores que monitoram Marte constantemente.

Equipamentos das missões Mars Odyssey e ExoMars Trace Gas Orbiter identificaram concentrações incomuns de hidrogênio em regiões equatoriais do planeta. Esse detalhe chamou atenção porque o hidrogênio costuma indicar a presença de água congelada abaixo da superfície.

O problema é que, teoricamente, essas áreas não deveriam conservar gelo.

A baixa pressão atmosférica e as condições extremas do equador marciano tornam praticamente impossível a permanência de grandes depósitos congelados durante longos períodos.

Durante anos, pesquisadores tentaram entender como aquele gelo poderia existir.

Agora, cientistas da NASA e da Universidade Estadual do Arizona acreditam ter encontrado a explicação mais plausível até hoje.

Segundo o novo modelo climático desenvolvido pela equipe, Marte teria vivido um dos eventos atmosféricos mais violentos já imaginados para outro planeta.

Tudo teria começado com duas erupções vulcânicas colossais ocorridas há aproximadamente quatro bilhões de anos.

Os vulcões Apollinaris Mons e Syrtis Major, dois dos mais antigos do planeta, teriam lançado quantidades gigantescas de vapor de água diretamente na atmosfera marciana durante vários dias consecutivos.

O resultado foi algo próximo de um cataclismo climático global.

Gelo Escondido Em Marte1
© Dimitry B – Unsplash

A nevasca planetária que cobriu Marte de gelo

De acordo com as simulações, mais de 400 trilhões de quilos de vapor d’água foram liberados durante as erupções.

As colunas vulcânicas alcançaram cerca de 45 quilômetros de altura, atravessando uma atmosfera muito mais densa do que a atual e rica em dióxido de carbono.

Quando esse vapor começou a esfriar, transformou-se em enormes cristais de gelo.

Os pesquisadores acreditam que Marte passou então por uma nevasca global sem precedentes.

A intensidade das precipitações teria sido comparável às tempestades mais severas registradas na Antártida terrestre. Em algumas regiões, o acúmulo poderia alcançar até meio metro de gelo por dia.

Em pouco tempo, vastas áreas do planeta ficaram cobertas por camadas congeladas com vários metros de espessura.

Mas a água não foi o único elemento lançado pelos vulcões.

As erupções também liberaram enormes quantidades de ácido sulfúrico na atmosfera. Essas partículas funcionaram como aerossóis refletivos, bloqueando parte significativa da luz solar e reduzindo drasticamente as temperaturas do planeta.

Marte teria entrado em um verdadeiro “inverno vulcânico”.

Os cientistas calculam que a temperatura média caiu cerca de dez graus Kelvin enquanto uma névoa de poeira e cristais permaneceu envolvendo o planeta por anos.

Esse fenômeno lembra o que ocorreu na Terra após a erupção do Monte Pinatubo, em 1991, quando partículas vulcânicas temporariamente resfriaram o clima global.

Só que em Marte, o efeito teria sido muito mais extremo.

O gelo escondido pode mudar futuras missões espaciais

Com o passar do tempo, poeira vulcânica e sedimentos teriam selado essas camadas congeladas sob a superfície marciana.

Isso significa que parte do gelo formado naquela época talvez ainda esteja preservada sob o solo avermelhado do planeta até hoje.

A descoberta pode ter consequências enormes para futuras missões espaciais.

Atualmente, os principais depósitos conhecidos de gelo em Marte ficam concentrados nos polos, regiões extremamente difíceis para exploração humana. Mas se realmente existirem reservas próximas ao equador, elas poderiam se tornar fontes estratégicas de água para futuras bases tripuladas.

Os pesquisadores também destacam outro detalhe ainda mais intrigante.

A combinação entre atividade vulcânica, calor subterrâneo, água congelada e minerais reativos pode ter criado ambientes temporariamente habitáveis no passado.

Segundo os cientistas, locais onde calor e gelo coexistiram são considerados alguns dos cenários mais promissores para procurar sinais antigos de vida microbiana.

As próximas missões poderão ajudar a confirmar essa hipótese.

Projetos como o Mars Ice Mapper e observatórios avançados que começarão a operar nos próximos anos devem buscar evidências dessas camadas subterrâneas.

Se os dados forem confirmados, Marte deixará de ser apenas o planeta vermelho e seco imaginado durante décadas.

Ele poderá passar a ser lembrado como um mundo onde o fogo criou o gelo — e talvez tenha aberto espaço para algo ainda mais extraordinário.

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