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Ciência

Cientistas acreditam ter descoberto por que quase todo mundo usa mais a mão direita

Cientistas acreditam ter encontrado a origem de um dos comportamentos mais curiosos da humanidade. E a resposta envolve algo que mudou completamente nossa espécie milhões de anos atrás.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quase todo mundo conhece alguém canhoto. Mas basta olhar ao redor para perceber um padrão estranho: a esmagadora maioria das pessoas usa a mão direita para escrever, comer, apontar ou realizar tarefas delicadas. O mais intrigante é que isso acontece em praticamente todas as culturas humanas conhecidas. Durante décadas, cientistas tentaram entender por que nossa espécie desenvolveu essa preferência tão extrema. Agora, uma nova pesquisa sugere que a explicação pode estar ligada a dois acontecimentos decisivos da evolução humana.

O detalhe do corpo humano que pode explicar nossa preferência pela mão direita

Cientistas acreditam ter descoberto por que quase todo mundo usa mais a mão direita
© Unsplash

A predominância da mão direita sempre intrigou antropólogos, neurologistas e geneticistas. Cerca de 90% da população mundial é destra, um fenômeno raro no reino animal. Outros primatas até demonstram preferências ocasionais, mas nenhuma espécie apresenta um padrão coletivo tão forte quanto os humanos.

Durante anos, pesquisadores tentaram conectar essa característica a fatores como uso de ferramentas, alimentação, organização social e até hábitos culturais. Nenhuma hipótese, porém, parecia explicar completamente o fenômeno.

Agora, um estudo liderado pela Universidade de Oxford trouxe uma pista diferente. Em vez de olhar apenas para as mãos, os cientistas passaram a observar algo muito mais amplo: a forma como nossos ancestrais começaram a andar.

A pesquisa analisou dados de mais de 2 mil indivíduos pertencentes a 41 espécies diferentes de macacos e grandes primatas. Usando modelos matemáticos capazes de comparar relações evolutivas entre espécies, os pesquisadores cruzaram informações sobre tamanho cerebral, estrutura corporal, locomoção e comportamento manual.

O resultado chamou atenção porque os humanos pareciam completamente fora do padrão observado nos outros primatas. Mas isso mudou quando os cientistas adicionaram dois fatores específicos na análise: o crescimento do cérebro e a adaptação do corpo ao bipedalismo.

De repente, a espécie humana deixou de parecer uma exceção evolutiva.

O momento em que nossas mãos ganharam uma nova função

Segundo os pesquisadores, tudo pode ter começado quando nossos ancestrais passaram a caminhar sobre duas pernas. Essa transformação mudou radicalmente o papel das mãos.

Antes disso, os membros superiores participavam diretamente da locomoção, como ainda acontece com chimpanzés e outros grandes primatas. Mas, ao assumir uma postura ereta, os primeiros hominídeos libertaram as mãos da necessidade constante de apoiar o corpo.

Isso abriu espaço para novas habilidades: manipular objetos, carregar alimentos, fabricar ferramentas e executar movimentos cada vez mais precisos. E, ao que tudo indica, o cérebro começou gradualmente a favorecer um dos lados para realizar essas tarefas com mais eficiência.

O estudo sugere que os primeiros ancestrais humanos, como Ardipithecus e Australopithecus, provavelmente apresentavam apenas uma leve tendência ao uso da mão direita — algo parecido com o que ainda é observado em alguns primatas modernos.

Mas esse padrão começou a se intensificar conforme surgiu o gênero Homo.

Espécies como Homo erectus, Homo ergaster e até os neandertais já demonstrariam uma preferência manual muito mais forte. Em Homo sapiens, essa inclinação teria alcançado o nível extremo visto atualmente.

Os cientistas acreditam que o crescimento do cérebro desempenhou papel decisivo nesse processo. Conforme o cérebro humano aumentou de tamanho e reorganizou funções cognitivas, a lateralização entre os hemisférios teria se tornado mais marcada, consolidando a dominância da mão direita.

O “hobbit” da Indonésia pode ter revelado uma pista importante

Entre os ancestrais analisados, uma espécie chamou particularmente a atenção dos pesquisadores: Homo floresiensis, conhecido popularmente como “hobbit” da Indonésia.

Diferente dos demais representantes do gênero Homo, essa espécie possuía cérebro relativamente pequeno e características corporais mais adaptadas à combinação entre escalada e caminhada ereta. E justamente por isso apresentava uma preferência manual muito menos intensa.

Para os autores do estudo, esse detalhe reforça ainda mais a hipótese central da pesquisa: quanto mais o cérebro crescia e quanto mais eficiente se tornava a locomoção bípede, maior era a tendência ao domínio da mão direita.

A descoberta ajuda a construir uma narrativa evolutiva em duas etapas. Primeiro, o bipedalismo libertou as mãos e criou pressão evolutiva para movimentos especializados. Depois, a expansão cerebral consolidou essa especialização até transformá-la em um padrão quase universal.

O que ainda intriga os cientistas sobre os canhotos

Apesar do avanço, a pesquisa não resolveu todos os mistérios relacionados à lateralidade humana. Um dos maiores continua sendo a persistência dos canhotos ao longo da evolução.

Se a preferência pela mão direita trouxe vantagens adaptativas tão fortes, por que cerca de 10% da população ainda mantém dominância esquerda?

Os pesquisadores acreditam que fatores genéticos, culturais e até benefícios específicos associados ao canhotismo podem ter contribuído para preservar essa diversidade.

Outra questão em aberto envolve padrões semelhantes encontrados em outras espécies. Alguns animais, como papagaios e cangurus, também demonstram preferências laterais consistentes, levantando a possibilidade de que o fenômeno tenha raízes evolutivas mais profundas do que se imaginava.

Por enquanto, uma coisa parece cada vez mais clara: a resposta para um dos comportamentos mais comuns da humanidade talvez não esteja apenas nas nossas mãos — mas no momento em que nossos ancestrais decidiram ficar de pé.

[Fonte: Phys Org]

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