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Ciência

A dieta do ovo promete emagrecimento rápido, mas esconde efeitos pouco discutidos no metabolismo, no intestino e no efeito sanfona

Popular nas redes sociais, a chamada dieta do ovo voltou a ganhar força ao prometer perda de peso acelerada em poucos dias. Mas por trás da balança descendo rápido, surgem dúvidas importantes sobre saúde intestinal, equilíbrio nutricional e sustentabilidade do emagrecimento a médio e longo prazo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Toda vez que uma dieta promete resultados rápidos, ela chama atenção — e a dieta do ovo não é exceção. Baseada no consumo quase exclusivo desse alimento, com forte restrição de carboidratos, a estratégia se espalhou em vídeos e depoimentos online. Embora o emagrecimento inicial seja real, especialistas alertam que os efeitos metabólicos e nutricionais desse método vão muito além do que aparece no espelho.

Por que a dieta do ovo faz o peso cair tão rápido

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© Unsplash

A queda rápida no peso corporal observada nos primeiros dias não está ligada a nenhuma “propriedade mágica” do ovo. Segundo a nutricionista Patrícia Mirisola, especialista em Nutrição de Precisão, o principal fator é o déficit calórico severo combinado à redução abrupta de carboidratos.

Quando o consumo de carboidratos cai drasticamente, os níveis de insulina diminuem e o corpo passa a esvaziar seus estoques de glicogênio — a forma como músculos e fígado armazenam energia. Como o glicogênio retém água, sua redução leva a uma perda significativa de líquidos, refletida imediatamente na balança.

Esse mecanismo gera uma sensação de emagrecimento rápido, mas transitório. Trata-se de uma resposta metabólica aguda, não necessariamente de uma perda consistente de gordura corporal.

O ovo é vilão ou aliado?

Isoladamente, o ovo está longe de ser um problema. Pelo contrário: é um alimento de alta densidade nutricional, rico em proteínas de alto valor biológico, vitaminas do complexo B, minerais e compostos que promovem saciedade.

O ponto crítico, segundo a especialista, é o contexto. O emagrecimento não acontece “por causa do ovo”, mas pelo forte corte calórico. Quando o alimento passa a ser consumido de forma quase exclusiva, ele deixa de cumprir seu papel dentro de uma alimentação equilibrada e passa a integrar um padrão nutricional limitado e desequilibrado.

O que acontece com o corpo em uma dieta baseada quase só em ovos

A exclusão quase total de carboidratos costuma levar o organismo a um estado chamado cetose nutricional, no qual a gordura se torna a principal fonte de energia. Esse processo pode provocar sintomas como dor de cabeça, fadiga intensa, fraqueza e hálito cetônico, especialmente nos primeiros dias.

Outro impacto relevante ocorre no intestino. A retirada de frutas, legumes, verduras variadas e grãos reduz drasticamente a ingestão de fibras. O resultado pode ser constipação intestinal e prejuízo da microbiota, conjunto de bactérias fundamentais para a imunidade, o controle inflamatório e até a regulação do metabolismo.

Colesterol, fígado e inflamação: o que a ciência mostra

Colesterol
© Kateryna Kon/Science Photo Library – Sciencephoto

O antigo temor de que o colesterol do ovo eleva automaticamente o colesterol sanguíneo já não se sustenta para a maioria das pessoas saudáveis. O alimento é uma das principais fontes de colina, nutriente essencial para o metabolismo das gorduras e para a prevenção do acúmulo de gordura no fígado.

Além disso, o ovo contém carotenoides com ação antioxidante e anti-inflamatória, como luteína e zeaxantina. O problema, mais uma vez, não está no alimento em si, mas na estrutura da dieta, que priva o organismo de fibras prebióticas e fitonutrientes presentes em uma alimentação mais diversa.

O papel da restrição severa de carboidratos

A redução intensa de carboidratos diminui a insulina e acelera a mobilização do glicogênio, o que explica a perda de peso acelerada nos primeiros dias — especialmente em pessoas com resistência à insulina.

Dietas hiperproteicas e com controle de carboidratos podem, sim, ter aplicação clínica em contextos específicos, como obesidade ou preservação de massa magra. A diferença é que esses protocolos são completos, variados e acompanhados por profissionais. Não se baseiam em um único alimento.

Riscos no curto e no longo prazo

No curto prazo, a dieta do ovo pode causar constipação, desequilíbrios eletrolíticos — como deficiência de potássio e magnésio —, queda de energia, hipovitaminose e halitose cetônica.

A longo prazo, os riscos incluem deficiência de cálcio e vitamina K, que podem favorecer osteopenia e osteoporose, além de adaptações metabólicas que aumentam a probabilidade do efeito sanfona. O emagrecimento rápido, nesse caso, cobra um preço alto quando não vem acompanhado de equilíbrio e variedade nutricional.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

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