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Ciência

A evolução tentou duas vezes — e dois fungos diferentes aprenderam a produzir a mesma molécula que altera a mente

Um novo estudo revelou que duas espécies de fungos, separadas por milhões de anos de evolução, desenvolveram de forma independente a capacidade de sintetizar psilocibina, a substância responsável pelos efeitos psicodélicos dos chamados “cogumelos mágicos”. É a primeira evidência de evolução convergente no reino dos fungos — e essa descoberta pode revolucionar a forma como produzimos compostos psicodélicos para tratar depressão e ansiedade.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Dois caminhos, uma mesma molécula

Durante décadas, os cogumelos alucinógenos foram associados ao proibido, ao alternativo, a uma “porta mental” que poucos ousavam atravessar. Agora, a ciência está descobrindo que eles guardam uma história evolutiva fascinante: a natureza foi capaz de “escrever” a mesma solução química duas vezes.

A evolução tentou duas vezes — e dois fungos diferentes aprenderam a produzir a mesma molécula que altera a mente
© Getty Images / VICTOR de SCHWANBERG/SCIENCE PHOTO LIBRARY.

A equipe liderada por Dirk Hoffmeister, farmacólogo da Universidade Friedrich Schiller de Jena (Alemanha), identificou que Inocybe corydalina — um fungo micorrízico que cresce próximo às raízes de árvores — e os Psilocybe, os cogumelos mágicos clássicos, desenvolveram rotas enzimáticas totalmente diferentes para chegar ao mesmo produto final: a psilocibina.

Ou seja, a evolução encontrou dois caminhos distintos para fabricar a mesma molécula. Esse fenômeno, chamado de evolução convergente, é comum em animais e plantas (como a forma aerodinâmica de aves e morcegos, ou a cafeína surgindo em espécies vegetais diferentes), mas nunca havia sido observado entre fungos.

“O fato de dois grupos tão separados terem desenvolvido a mesma via química para produzir psilocibina sugere que essa molécula desempenha um papel importante na sobrevivência dos fungos”, explica Hoffmeister.

Um propósito biológico por trás do “barato”

Por que a natureza insistiria em criar uma substância psicodélica? Uma das hipóteses é que a psilocibina funcione como mecanismo de defesa, agindo como um repelente natural que desestimula insetos e predadores a consumirem os corpos frutíferos dos fungos — assim como a cafeína protege plantas de café e cacau contra pragas.

Em ecossistemas competitivos, esse “truque químico” seria uma ferramenta evolutiva poderosa para garantir a sobrevivência. Nada de magia: é pura biologia, com efeitos colaterais profundamente humanos.

Da floresta para o laboratório

A evolução tentou duas vezes — e dois fungos diferentes aprenderam a produzir a mesma molécula que altera a mente
© Unsplash – Masahiro Naruse.

O estudo não muda apenas nossa compreensão sobre a evolução — ele também abre um novo caminho para a produção sustentável de psilocibina.

Atualmente, a substância é sintetizada por métodos químicos caros, lentos e poluentes. A equipe de Hoffmeister mostrou que as enzimas naturais desses fungos podem ser usadas em laboratório para fabricar psilocibina de maneira mais limpa, escalável e eficiente, sem gerar resíduos tóxicos.

A biotecnologia já está de olho: reutilização de enzimas, biorreatores e produção industrial podem transformar essa molécula em uma ferramenta acessível para tratamentos psiquiátricos.

Psicodelia científica em ascensão

Após décadas de proibição, estudos clínicos recentes apontam que a psilocibina reduz a depressão resistente, pensamentos suicidas e ansiedade crônica. Ao entender como a natureza fabrica essa molécula, a ciência ganha não só uma “receita biológica”, mas também uma oportunidade de reconciliar os psicodélicos com a medicina moderna.

No fim das contas, os fungos nos oferecem uma lição curiosa: tanto a mente humana quanto a natureza tendem a repetir o que funciona. Duas espécies completamente diferentes chegaram, separadamente, à mesma fórmula para alterar a percepção da realidade.

Parece que a evolução, assim como nós, também sabe quando vale a pena tentar de novo.

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