Robôs, inteligência artificial, futuros distópicos e grandes dilemas tecnológicos parecem territórios naturais de Hollywood. Na América Latina, porém, transformar essas ideias em filmes e séries ainda pode exigir anos de insistência. Lucía Puenzo conhece essa dificuldade de perto. Depois de lutar por seis ou sete anos para realizar uma produção de ficção científica, a diretora argentina acredita que existe uma resistência cultural profunda, mas também enxerga sinais de que essa barreira finalmente começou a perder força.
Uma série precisou sobreviver durante anos antes de chegar às telas

Lucía Puenzo atravessa 2026 com diferentes projetos. A diretora lançou Pepita, la pistolera nos cinemas e Futuro desierto na Netflix, além de trabalhar em um novo livro e em outro projeto cinematográfico internacional.
Mas foi Futuro desierto que exigiu uma batalha particularmente longa.
Os primeiros roteiros chegaram até Puenzo por volta de 2018. A ideia original era filmar na Patagônia argentina, aproveitando as enormes extensões e paisagens desertas da região.
Durante aproximadamente quatro anos, a equipe tentou manter essa localização. O projeto acabou migrando para o sul do México, onde a história também poderia funcionar devido ao caráter isolado dos experimentos apresentados na trama.
No total, foram seis ou sete anos até a produção finalmente acontecer.
Para Puenzo, a dificuldade revela algo maior do que os obstáculos enfrentados por uma única série. Existe, segundo ela, uma resistência persistente à ideia de que criadores latino-americanos possam produzir ficção científica.
A diretora relaciona parte desse fenômeno ao peso cultural dos Estados Unidos, onde o gênero possui tradição, grandes orçamentos e estruturas industriais capazes de sustentar produções extremamente ambiciosas.
A série começou a pensar sobre IA antes da explosão do ChatGPT
Existe outro detalhe curioso em Futuro desierto: boa parte da história foi concebida quando a inteligência artificial ainda não ocupava as conversas cotidianas como acontece atualmente.
Durante o desenvolvimento, os criadores procuraram Freddy Vivas, especialista argentino em IA, além de técnicos, engenheiros e psicólogos ligados ao MIT Media Lab.
Naquele período, já existiam experimentos envolvendo androides e sistemas inteligentes, mas a relação cotidiana do público com essas tecnologias estava muito distante da atual.
A série poderia facilmente ter envelhecido antes mesmo de estrear.
Aconteceu o contrário.
Para Puenzo, isso ocorreu porque a história deliberadamente evitou a fórmula tradicional de humanos contra robôs. O interesse estava menos na máquina e mais nas pessoas e organizações que permanecem atrás dela.
Essa perspectiva tornou-se ainda mais atual com o crescimento das gigantes tecnológicas e a presença da IA em situações profundamente pessoais.
Puenzo menciona, por exemplo, serviços que utilizam fotografias, imagens e outros registros digitais para recriar virtualmente pessoas que morreram.
É justamente quando a tecnologia entra em experiências como luto, infância e relacionamentos que surgem, para ela, algumas das questões mais perturbadoras.
O sucesso de outras produções pode começar a mudar as regras
Puenzo acredita que parte da resistência à ficção científica latino-americana nasce de uma comparação automática com Hollywood.
Se os Estados Unidos possuem mais dinheiro, mais dias de filmagem e maior tradição no gênero, surge a pergunta: por que tentar fazer o mesmo na América Latina?
A resposta da diretora passa justamente por rejeitar essa lógica.
Produções latino-americanas não precisam simplesmente reproduzir aquilo que Hollywood já faz. Elas podem construir ficção científica a partir de seus próprios territórios, conflitos e perspectivas.
Um exemplo recente citado por Puenzo é O Eternauta. Para ela, quando projetos desse tipo funcionam e encontram público, tornam mais fácil financiar aquilo que vem depois.
O efeito pode ser cumulativo.
Uma série consegue financiamento, encontra espectadores e demonstra que existe demanda. A próxima produção deixa de parecer uma aposta tão improvável.
Assim, cada sucesso não representa apenas uma conquista individual. Ele pode ampliar aquilo que produtores e plataformas consideram possível dentro da região.
A disputa também acontece fora das telas
A entrevista também entra em um terreno político quando Puenzo é questionada sobre a situação da ENERC e do INCAA na Argentina.
A diretora, que já foi professora da ENERC, relembra uma instituição que conseguia formar realizadores mesmo trabalhando com poucos recursos. Em sua avaliação, o atual enfraquecimento das estruturas públicas ligadas ao cinema representa uma perda importante para a cultura argentina.
Puenzo criticou duramente a condução do governo argentino nesse processo, acusando-o de asfixiar gradualmente essas instituições em vez de assumir diretamente seu fechamento. Essa é a avaliação política da própria cineasta sobre as medidas governamentais, e não uma conclusão independente sobre seus efeitos.
A discussão ajuda a revelar o paradoxo enfrentado pelo audiovisual latino-americano.
Justamente quando produções da região demonstram que podem explorar gêneros antes considerados difíceis, criar mundos próprios e alcançar audiências internacionais, financiar novos projetos continua sendo uma batalha.
Para Puenzo, entretanto, cada produção realizada enfraquece um pouco essa barreira.
Talvez o futuro da ficção científica latino-americana não dependa de tentar construir uma Hollywood ao sul do continente. Pode depender justamente do contrário: provar que imaginar o futuro a partir da América Latina produz histórias que nenhum outro lugar conseguiria contar da mesma maneira.
[Fonte: El planeta urbano]