Algumas produções atravessam tantos problemas que parecem condenadas a permanecer eternamente no papel. Esta passou cerca de duas décadas nesse limbo. O roteiro mudou, diferentes profissionais entraram e saíram e até um dos cenários mais importantes esteve perto de desaparecer para reduzir custos. Mas a combinação certa de estrela e diretor finalmente apareceu, transformando uma adaptação considerada ambiciosa demais em um dos filmes mais lembrados da ficção científica.
Uma história que Hollywood queria filmar, mas não sabia como
Muito antes de Arnold Schwarzenegger entrar em cena, Hollywood já estava interessada em adaptar “We Can Remember It for You Wholesale”, conto de Philip K. Dick publicado em 1966. O problema era transformar aquelas ideias em um longa-metragem tecnicamente viável.
As primeiras tentativas começaram no início dos anos 1970. Durante aproximadamente duas décadas, o projeto passou por empresas, produtores, roteiristas e diferentes propostas criativas. A ambição da história esbarrava principalmente nas limitações técnicas e financeiras daquele período.
Em determinado momento, uma solução radical chegou a ser considerada: eliminar Marte da trama.
A mudança poderia reduzir significativamente os custos, especialmente em um momento no qual produções grandiosas de ficção científica eram vistas com cautela em Hollywood. O fracasso comercial de Duna, de 1984, também pesava sobre produtores envolvidos no desenvolvimento do projeto.
Mas as dificuldades não eram exclusivamente financeiras. Havia diferenças sobre qual deveria ser o tom do filme e até onde a adaptação poderia se afastar da obra de Philip K. Dick.
Entre os nomes que passaram pelo desenvolvimento estava David Cronenberg, diretor de A Mosca. Sua participação deixou elementos importantes no roteiro, incluindo ideias relacionadas aos mutantes marcianos e ao personagem Kuato.
O quebra-cabeça, porém, só começaria realmente a se encaixar quando uma das maiores estrelas de ação daquela geração resolveu entrar no projeto.
Schwarzenegger ajudou a tirar o projeto do limbo

Na segunda metade dos anos 1980, Arnold Schwarzenegger já havia consolidado sua relação com a ficção científica. O Exterminador do Futuro, O Predador e O Sobrevivente haviam transformado o ator em um dos rostos mais reconhecíveis do gênero.
Ele também enxergava potencial naquele projeto que Hollywood tentava realizar havia anos.
Schwarzenegger teve participação decisiva para que o filme finalmente avançasse e apoiou a contratação de Paul Verhoeven, cineasta que pouco antes havia chamado atenção em Hollywood com RoboCop.
O resultado chegou aos cinemas em 1990 com o nome de O Vingador do Futuro, conhecido internacionalmente como Total Recall.
A história acompanha Douglas Quaid, um trabalhador que vive em 2084 e sonha em conhecer Marte. Como viajar até lá não parece uma opção simples, ele procura uma empresa especializada em implantar memórias artificiais.
A experiência deveria permitir que Quaid tivesse lembranças convincentes de uma aventura no planeta vermelho sem precisar sair da Terra.
Só que alguma coisa dá terrivelmente errado.
A partir daí, o filme começa a brincar com uma pergunta que permanece até seus momentos finais: aquilo que Quaid está vivendo realmente aconteceu ou pode ser apenas uma memória artificial extraordinariamente elaborada?
Marte, mutantes e efeitos que ajudaram a criar um clássico

Verhoeven aproveitou essa premissa para construir uma mistura incomum de ação, paranoia, violência, humor e ficção científica.
Marte, que quase havia desaparecido do projeto, tornou-se justamente um dos elementos mais marcantes da produção. Cenários gigantescos, maquiagens elaboradas, miniaturas e efeitos práticos ajudaram a criar um futuro visualmente extravagante que ainda hoje identifica imediatamente o filme.
Toda essa ambição teve seu preço.
O orçamento exato continua sendo objeto de versões diferentes. Algumas estimativas apontam aproximadamente US$ 48 milhões, enquanto outras colocam o custo em um patamar consideravelmente superior. Independentemente do número exato, tratava-se de uma produção cara para 1990.
Nas bilheterias, entretanto, o risco funcionou.
Total Recall arrecadou mais de US$ 261 milhões mundialmente e terminou entre os cinco filmes de maior bilheteria daquele ano. A recepção inicial da crítica foi mais dividida, mas a reputação da obra cresceu com o passar do tempo.
Personagens, cenas e criaturas acabaram incorporados à cultura pop, enquanto a dúvida central sobre realidade e memória ajudou o longa a sobreviver muito além de seus espetáculos visuais.
Hollywood tentou repetir a fórmula décadas depois

O sucesso deixou consequências inevitáveis.
Em 1999 surgiu Total Recall 2070, série inspirada naquele universo que teve vida curta. Mais tarde, Hollywood decidiu reconstruir completamente a história.
O remake de 2012 colocou Colin Farrell no papel principal e reuniu nomes como Kate Beckinsale, Jessica Biel e Bryan Cranston. Desta vez, Marte desapareceu da história, justamente uma das possibilidades discutidas décadas antes durante o conturbado desenvolvimento do original.
A nova versão, porém, não conseguiu reproduzir o mesmo impacto cultural.
Talvez isso ajude a explicar por que o longa de 1990 continua sendo revisitado mais de três décadas depois. Sua mistura de efeitos práticos, ideias filosóficas e exageros típicos do cinema de ação daquela época criou algo difícil de reproduzir.
A versão original está atualmente disponível no catálogo do Movistar Plus+. A disponibilidade em streaming varia de acordo com o país e pode mudar com o tempo.
Foram necessários cerca de 20 anos para que Hollywood descobrisse como transformar aquela história em filme.
Talvez a espera tenha sido justamente parte do segredo.
[Fonte: 3D]