Desde que os cientistas descobriram como ler e editar o DNA, uma pergunta acompanha a biologia sintética: seria possível projetar um organismo vivo completamente novo a partir do zero? Um novo estudo publicado na revista Nature mostra que a inteligência artificial pode estar aproximando essa possibilidade. Pesquisadores desenvolveram um modelo capaz de analisar e gerar sequências genéticas, abrindo caminho para o design de genomas artificiais — embora transformar essas sequências em vida funcional ainda esteja longe de ser realidade.
O precedente: quando cientistas criaram um genoma sintético

A ideia de criar vida artificial não é totalmente nova. Em 2008, pesquisadores conseguiram sintetizar o genoma completo da bactéria Mycoplasma genitalium, que possui cerca de 580 mil “letras” de DNA.
Depois de reconstruir quimicamente esse genoma, os cientistas o introduziram em uma célula receptora, que passou a funcionar com esse material genético artificial. O feito foi considerado por muitos como um dos primeiros passos rumo à criação de formas de vida sintéticas.
Mas havia uma diferença importante: o genoma foi copiado a partir de um organismo real já existente. O verdadeiro desafio seria criar um genoma completamente novo.
Evo2: um modelo de linguagem para DNA
Agora entra a inteligência artificial. Um novo sistema chamado Evo2 foi treinado com trilhões de letras de DNA provenientes de organismos de todo o planeta.
Assim como modelos de linguagem aprendem padrões em textos humanos, Evo2 aprende padrões na informação genética.
O sistema consegue:
- analisar sequências genéticas
- prever funções biológicas
- gerar novas sequências de DNA
O pesquisador Patrick Yizhi Cai, da University of Manchester, descreveu o sistema como algo próximo de um “ChatGPT para genomas”.
Segundo ele, a tecnologia permite começar a escrever sequências genéticas que nunca existiram na natureza.
Primeiros experimentos com vírus
Versões anteriores do modelo Evo já haviam sido usadas em experimentos com vírus que infectam bactérias, conhecidos como bacteriófagos.
Em um estudo realizado em 2025, cientistas geraram genomas artificiais de vírus usando inteligência artificial e inseriram essas sequências em bactérias Escherichia coli.
Dos 285 genomas projetados, apenas 16 produziram vírus funcionais capazes de infectar e destruir bactérias.
O resultado foi impressionante, mas também revelou o desafio: a maioria dos designs não funcionou.
O problema de projetar um genoma completo
Os vírus são organismos relativamente simples. Seus genomas contêm apenas alguns milhares de letras e poucos genes.
Já organismos celulares — como bactérias ou leveduras — são muito mais complexos.
O modelo Evo2 tentou gerar sequências inspiradas em:
- o genoma de Mycoplasma genitalium
- o DNA mitocondrial humano
- um cromossomo da levedura Saccharomyces cerevisiae
Análises computacionais indicaram que cerca de 70% dos genes gerados pareciam plausíveis.
Mas isso ainda não é suficiente.
Como explica o biólogo sintético Nico Claassens, da Wageningen University:
“Não é possível projetar a vida com 70% de precisão. Um único gene essencial errado pode impedir que o organismo sobreviva.”
O DNA precisa mais do que genes corretos
Outro desafio importante é a organização do genoma.
Dentro das células, os genes não estão distribuídos aleatoriamente. A posição de cada sequência influencia quando e quanto ela será ativada.
Isso significa que um genoma que parece correto em um computador pode não funcionar em uma célula real.
Como destaca o cientista de aprendizado de máquina Maciej Wiatrak, da University of Cambridge:
“Avaliar se um genoma parece correto e demonstrar que ele realmente funciona são duas coisas muito diferentes.”
O verdadeiro gargalo: testar essas ideias no laboratório
Mesmo que a IA consiga projetar genomas plausíveis, transformá-los em organismos reais continua sendo extremamente difícil.
Para testar um design genético, os cientistas precisam:
- sintetizar centenas de milhares ou milhões de letras de DNA
- montar essas sequências na ordem correta
- inseri-las em uma célula hospedeira
- verificar se o sistema biológico funciona
Cada experimento pode ser caro e tecnicamente complexo.
Por isso, alguns pesquisadores acreditam que o futuro da área dependerá de laboratórios automatizados, onde inteligência artificial e robótica trabalhem juntas para projetar, testar e otimizar sequências genéticas em ciclos contínuos.
O futuro da biologia sintética
Nem todos os cientistas acreditam que criar um organismo completo do zero seja o objetivo mais prático.
Alguns defendem que esses modelos de IA podem ser mais úteis para projetar conjuntos específicos de genes capazes de realizar tarefas úteis.
Entre as aplicações possíveis estão:
- produção de biocombustíveis
- degradação de poluentes
- fabricação de novos medicamentos
O que parece cada vez mais claro é que a combinação entre IA, síntese de DNA e automação experimental está redefinindo os limites da biologia.
Criar vida sintética completa ainda pode estar distante. Mas pela primeira vez, máquinas estão começando a aprender a linguagem da vida — e a escrever novas frases nesse código biológico.