Avaliar a dor em bebês recém-nascidos sempre foi um dos maiores desafios da medicina neonatal. Diferente de adultos ou crianças maiores, eles não conseguem descrever o que sentem. Por décadas, médicos dependeram apenas da observação de sinais físicos e comportamentais para tentar identificar desconforto. Agora, um novo estudo científico sugere que a inteligência artificial pode se tornar uma aliada poderosa nesse processo.
Inteligência artificial analisa expressões faciais de recém-nascidos

Pesquisadores brasileiros desenvolveram um sistema de inteligência artificial capaz de identificar sinais de dor em bebês internados em unidades de terapia intensiva neonatal.
A tecnologia foi criada por engenheiros do Centro Universitário FEI em colaboração com pediatras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo foi publicado na seção Pediatric Research da revista científica Nature.
O sistema utiliza modelos multimodais de inteligência artificial, capazes de combinar análise de imagens e interpretação de dados para avaliar expressões faciais dos recém-nascidos.
A partir dessas informações, o algoritmo consegue reconhecer padrões que indicam se o bebê está confortável ou apresentando sinais de dor.
Essa abordagem busca transformar um processo altamente subjetivo em uma análise mais objetiva e baseada em dados.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento, mas já demonstrou capacidade de identificar sinais importantes de desconforto.
Por que detectar dor em bebês é tão difícil

Avaliar dor em recém-nascidos é um desafio médico antigo.
Bebês não conseguem falar ou descrever o que estão sentindo, o que significa que médicos e enfermeiros precisam interpretar sinais indiretos como choro, movimentos corporais ou alterações fisiológicas.
Em unidades neonatais, existem escalas clínicas utilizadas para avaliar o nível de dor. No entanto, esses métodos dependem muito da interpretação humana.
Segundo especialistas envolvidos na pesquisa, fatores emocionais podem influenciar essa avaliação.
Profissionais diferentes podem interpretar o mesmo comportamento de maneiras distintas. Um médico, um enfermeiro ou até mesmo um familiar pode perceber sinais de dor de forma diferente dependendo da situação.
A nova ferramenta de inteligência artificial busca justamente reduzir essa margem de subjetividade.
Ao analisar expressões faciais com algoritmos treinados em grandes conjuntos de dados, o sistema pode identificar microexpressões ou padrões difíceis de perceber a olho nu.
O que a ciência descobriu sobre dor em recém-nascidos
Curiosamente, durante muito tempo acreditou-se que bebês recém-nascidos praticamente não sentiam dor.
Até a década de 1990, parte da comunidade médica defendia que o sistema nervoso ainda imaturo dos bebês impediria uma percepção real da dor.
Pesquisas posteriores demonstraram que essa ideia estava equivocada.
Hoje, a ciência entende que recém-nascidos podem ser ainda mais sensíveis à dor justamente por causa da imaturidade neurológica.
O sistema nervoso em desenvolvimento pode reagir de forma intensa a estímulos dolorosos.
Essa descoberta mudou profundamente os protocolos médicos em neonatologia.
Atualmente, existe uma preocupação crescente em monitorar e tratar a dor em bebês hospitalizados, especialmente em UTIs neonatais.
Um possível “painel de dor” para UTIs no futuro
Os pesquisadores acreditam que, no futuro, a tecnologia poderá funcionar como um sistema de monitoramento contínuo.
A ideia é que a inteligência artificial analise constantemente as expressões faciais do bebê e envie alertas automáticos quando identificar sinais de dor.
Esses alertas poderiam aparecer em monitores médicos ao lado de outros indicadores vitais, como frequência cardíaca e respiração.
Na prática, seria algo semelhante a um “painel de dor” digital.
Esse sistema poderia ajudar profissionais de saúde a identificar rapidamente quando um bebê precisa de atenção ou intervenção médica.
O equilíbrio delicado no tratamento da dor neonatal
Um dos objetivos centrais da pesquisa é ajudar médicos a encontrar um equilíbrio no tratamento da dor.
Isso porque tanto a dor não tratada quanto o uso excessivo de medicamentos podem ser prejudiciais ao cérebro em desenvolvimento dos recém-nascidos.
A dor prolongada pode afetar o desenvolvimento neurológico, enquanto doses elevadas de analgésicos ou sedativos também podem ter impactos negativos.
Ferramentas baseadas em inteligência artificial poderiam ajudar profissionais a tomar decisões mais precisas sobre quando intervir e quando evitar medicação desnecessária.
Embora a tecnologia ainda precise passar por mais testes e validações clínicas, os pesquisadores acreditam que ela representa um passo importante na integração entre medicina e inteligência artificial.
Se confirmada em estudos futuros, a ferramenta poderá transformar a forma como hospitais monitoram o bem-estar de pacientes extremamente vulneráveis.
[Fonte: Correio Braziliense]