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Ciência

Os mitos sobre o sono dos bebês que a ciência está começando a derrubar

Algumas das ideias mais populares sobre o sono dos bebês parecem certezas absolutas para muitas famílias. Mas pesquisas recentes mostram que várias dessas crenças podem estar erradas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Poucos temas da infância geram tantas dúvidas quanto o sono dos bebês. Entre conselhos familiares, livros especializados e programas de treinamento do sono, pais recebem orientações muitas vezes contraditórias. A verdade é que parte dessas recomendações populares não tem base científica sólida. Pesquisas recentes ajudam a esclarecer o que realmente sabemos — e o que ainda é apenas crença — sobre como os bebês dormem.

O mito de que os bebês deveriam dormir a noite inteira

Os mitos sobre o sono dos bebês que a ciência está começando a derrubar
© Pexels

Uma das ideias mais difundidas é que os bebês deveriam dormir a noite toda ainda nos primeiros meses de vida. Para muitos pais, esse objetivo acaba se tornando uma espécie de meta ideal.

No entanto, estudos científicos indicam que acordar durante a noite é extremamente comum na infância.

Uma pesquisa realizada na Noruega com mais de 55 mil bebês mostrou que cerca de 70% das crianças de seis meses acordam pelo menos uma vez durante a noite. Mesmo aos 18 meses, mais de uma em cada quatro crianças ainda desperta enquanto dorme.

Outro estudo conduzido na Finlândia com 5,7 mil crianças apresentou resultados semelhantes. Bebês entre três e oito meses acordam, em média, mais de duas vezes por noite. Aos 12 meses, esse número ainda gira em torno de 1,8 despertares.

Em alguns casos isolados, os pesquisadores chegaram a registrar bebês de oito meses acordando mais de 20 vezes em uma única noite.

Esses números mostram que o padrão de sono infantil pode variar bastante e que dormir a noite inteira não é necessariamente o comportamento mais comum nos primeiros meses de vida.

Quando os despertares noturnos podem indicar algo mais

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© Pexels

Embora acordar à noite seja normal para a maioria dos bebês, isso não significa que todos os casos devam ser considerados típicos.

Algumas condições de saúde podem influenciar a qualidade do sono infantil.

Uma delas é a deficiência de ferro, que afeta cerca de 15% dos bebês nos Estados Unidos. Esse problema pode causar maior frequência de despertares, além de irritação e dificuldade para adormecer.

Outras condições também podem interferir no sono, como alergias alimentares, refluxo gastroesofágico e infecções de ouvido.

Distúrbios específicos do sono também podem ocorrer. A apneia obstrutiva do sono, por exemplo, afeta cerca de 6% das crianças e pode provocar interrupções frequentes do descanso.

Embora esse problema seja mais comum entre dois e seis anos de idade, ele pode aparecer antes e influenciar o padrão de sono infantil.

Nem todas as crianças precisam de 12 horas de sono por noite

Outra crença bastante comum é que os bebês deveriam dormir cerca de 12 horas seguidas durante a noite.

Esse padrão se popularizou especialmente em países ocidentais, onde horários de sono fixos são frequentemente recomendados.

No entanto, pesquisas indicam que muitas crianças simplesmente não dormem tanto tempo.

Um estudo australiano com cinco mil bebês mostrou que crianças com até quase cinco anos dormem, em média, cerca de 11 horas por dia — e não 12.

Em várias regiões do mundo, os números são ainda menores. Em países asiáticos, por exemplo, estudos mostram que crianças pequenas podem dormir menos de nove horas por noite.

Organizações médicas também recomendam interpretar essas médias com cautela. A Academia Americana de Medicina do Sono afirma que bebês entre quatro e doze meses precisam dormir entre 12 e 16 horas ao longo de um período de 24 horas.

Esse total inclui tanto o sono noturno quanto as sonecas diurnas.

As sonecas em movimento realmente funcionam

Muitos pais acreditam que sonecas feitas no carrinho, no carro ou sendo embaladas são menos restauradoras para o bebê.

No entanto, pesquisas científicas não confirmam essa ideia.

Um estudo com bebês de dois meses mostrou que movimentos suaves podem até ajudar os pequenos a adormecer com mais facilidade e reduzir o choro.

Pesquisas realizadas com adultos também apontam que movimentos leves durante o sono podem favorecer o descanso.

Esses estudos mostram que o balanço suave pode aumentar o tempo passado em estágios de sono profundo e ajudar o cérebro a consolidar memórias.

Além disso, o movimento constante não é algo estranho para os bebês. Durante a gestação, eles passam grande parte do tempo dormindo enquanto a mãe se movimenta, o que naturalmente provoca balanços suaves.

A ideia de que “quanto mais dormir, mais sono terá” não é tão simples

Existe também a crença de que quanto mais um bebê dorme durante o dia, melhor será seu sono à noite.

Mas a ciência mostra que essa relação não é tão direta.

Após os dois anos de idade, diversos estudos indicam que sonecas mais longas podem até atrasar o momento de dormir à noite.

Entre bebês mais novos, a situação parece um pouco diferente. Um estudo que utilizou sensores de movimento para monitorar o sono mostrou que bebês de cerca de seis meses que dormiam mais durante o dia tinham apenas um pequeno aumento no sono noturno.

Mesmo assim, o efeito foi mínimo: uma hora adicional de soneca durante o dia resultou em apenas cerca de 14 minutos extras de sono à noite.

Isso ocorre porque o sono também é regulado por um mecanismo biológico chamado “pressão do sono”. Quanto mais tempo uma pessoa permanece acordada, maior se torna a necessidade fisiológica de dormir.

Por isso, se um bebê dorme demais durante o dia em relação às suas necessidades individuais, pode ser mais difícil adormecer à noite.

Cada bebê tem um ritmo próprio de sono

Os especialistas destacam que não existe um padrão universal de sono infantil.

Assim como acontece com adultos, as necessidades de descanso variam bastante de criança para criança.

Em vez de seguir rigidamente expectativas populares, muitos pesquisadores recomendam observar os sinais individuais de cada bebê e adaptar a rotina às suas necessidades.

Compreender essas diferenças pode ajudar a reduzir a ansiedade de muitos pais que acreditam estar fazendo algo errado quando, na verdade, o comportamento do bebê está dentro da normalidade.

[Fonte: Correio Braziliense]

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