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Tecnologia

A inteligência artificial acelerou o trabalho, mas criou um novo tipo de desgaste profissional

Ferramentas de IA estão transformando a rotina dos escritórios, mas um novo relatório revela que parte do tempo economizado pode estar sendo consumida por uma tarefa inesperada.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos anos, a inteligência artificial se tornou presença constante no ambiente corporativo. A promessa era simples: automatizar tarefas repetitivas, acelerar processos e liberar profissionais para atividades mais estratégicas. Em muitos casos, isso realmente aconteceu. Mas, à medida que essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina diária, surgiu um efeito colateral que poucas empresas haviam previsto. Em vez de apenas reduzir trabalho, a IA também começou a criar novas responsabilidades que exigem atenção constante dos usuários.

A promessa de produtividade esbarra em uma realidade mais complexa

Redigir e-mails, resumir documentos, organizar informações, criar apresentações e produzir relatórios. Atividades que antes consumiam horas agora podem ser executadas em poucos minutos com a ajuda de plataformas de inteligência artificial.

Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e diversos assistentes corporativos passaram a integrar o fluxo de trabalho de empresas de todos os tamanhos. A expectativa era clara: aumentar a produtividade e reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais.

No entanto, um relatório recente chamado Work AI Index, produzido pela empresa Glean, mostra que a situação é mais complexa do que parece. Embora muitos profissionais relatem ganhos significativos de tempo, eles também afirmam que precisam dedicar uma parcela importante da jornada para supervisionar o funcionamento dessas ferramentas.

A comparação é simples. Imagine contratar um assistente extremamente rápido, capaz de produzir resultados em segundos, mas que frequentemente exige correções, revisões e orientações adicionais. O trabalho é feito mais rápido, mas a necessidade de monitoramento não desaparece.

Em muitos casos, a atividade não foi eliminada. Ela apenas mudou de forma.

O trabalho invisível que surgiu junto com a inteligência artificial

Os autores do estudo utilizam um termo curioso para definir esse fenômeno: botsitting.

A expressão descreve todas as tarefas relacionadas ao acompanhamento da IA. Isso inclui fornecer contexto adicional, revisar respostas, corrigir informações incorretas, reformular comandos, ajustar textos gerados automaticamente e verificar se os dados apresentados são realmente confiáveis.

À primeira vista, esse esforço pode passar despercebido. Para quem observa de fora, parece que a inteligência artificial resolveu tudo em poucos segundos. Porém, nos bastidores, o processo frequentemente envolve diversas tentativas até que o resultado seja considerado satisfatório.

Os números ajudam a entender a situação. Segundo o relatório, os trabalhadores conseguem economizar cerca de 11 horas por semana com ferramentas de automação. Em contrapartida, gastam aproximadamente 6,4 horas semanais ajustando, corrigindo e supervisionando os sistemas.

Isso não significa que a IA não gera ganhos. Significa apenas que parte desses ganhos é compensada por uma nova camada de trabalho que não existia anteriormente.

Quando mais ferramentas podem gerar mais confusão

Outro desafio apontado pelo estudo é a multiplicação de plataformas.

Hoje, muitos profissionais utilizam diferentes sistemas para executar uma única tarefa. Uma ferramenta serve para escrever, outra para resumir, outra para pesquisar informações e uma quarta para revisar conteúdos.

Esse vai e vem constante entre aplicações cria um custo invisível. A cada troca de plataforma, é necessário repetir informações, adaptar instruções, ajustar o contexto e garantir que a nova ferramenta compreendeu corretamente o objetivo.

O resultado pode ser justamente o oposto daquilo que a inteligência artificial prometia inicialmente: mais complexidade operacional.

Existe ainda um risco adicional. Quando a revisão constante se torna cansativa, alguns usuários começam a confiar excessivamente nos resultados produzidos pelas máquinas. O relatório chama esse comportamento de botshitting, situação em que conteúdos aparentemente corretos são entregues sem validação adequada, mesmo podendo conter erros, informações inventadas ou conclusões questionáveis.

No fim das contas, a principal conclusão do estudo é que a produtividade não depende apenas da adoção da inteligência artificial. As organizações que obtêm melhores resultados são aquelas que criam processos claros, estabelecem critérios de revisão e definem estratégias eficientes para integrar essas ferramentas ao trabalho diário.

A inteligência artificial continua sendo uma poderosa aliada. Mas, pelo menos por enquanto, ela ainda exige supervisão humana constante. E essa talvez seja a parte menos visível — e mais trabalhosa — da revolução tecnológica que está transformando os escritórios.

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