Nos últimos anos, a inteligência artificial se tornou presença constante no ambiente corporativo. A promessa era simples: automatizar tarefas repetitivas, acelerar processos e liberar profissionais para atividades mais estratégicas. Em muitos casos, isso realmente aconteceu. Mas, à medida que essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina diária, surgiu um efeito colateral que poucas empresas haviam previsto. Em vez de apenas reduzir trabalho, a IA também começou a criar novas responsabilidades que exigem atenção constante dos usuários.
A promessa de produtividade esbarra em uma realidade mais complexa
Redigir e-mails, resumir documentos, organizar informações, criar apresentações e produzir relatórios. Atividades que antes consumiam horas agora podem ser executadas em poucos minutos com a ajuda de plataformas de inteligência artificial.
Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e diversos assistentes corporativos passaram a integrar o fluxo de trabalho de empresas de todos os tamanhos. A expectativa era clara: aumentar a produtividade e reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais.
No entanto, um relatório recente chamado Work AI Index, produzido pela empresa Glean, mostra que a situação é mais complexa do que parece. Embora muitos profissionais relatem ganhos significativos de tempo, eles também afirmam que precisam dedicar uma parcela importante da jornada para supervisionar o funcionamento dessas ferramentas.
A comparação é simples. Imagine contratar um assistente extremamente rápido, capaz de produzir resultados em segundos, mas que frequentemente exige correções, revisões e orientações adicionais. O trabalho é feito mais rápido, mas a necessidade de monitoramento não desaparece.
Em muitos casos, a atividade não foi eliminada. Ela apenas mudou de forma.
O trabalho invisível que surgiu junto com a inteligência artificial
Os autores do estudo utilizam um termo curioso para definir esse fenômeno: botsitting.
A expressão descreve todas as tarefas relacionadas ao acompanhamento da IA. Isso inclui fornecer contexto adicional, revisar respostas, corrigir informações incorretas, reformular comandos, ajustar textos gerados automaticamente e verificar se os dados apresentados são realmente confiáveis.
À primeira vista, esse esforço pode passar despercebido. Para quem observa de fora, parece que a inteligência artificial resolveu tudo em poucos segundos. Porém, nos bastidores, o processo frequentemente envolve diversas tentativas até que o resultado seja considerado satisfatório.
Os números ajudam a entender a situação. Segundo o relatório, os trabalhadores conseguem economizar cerca de 11 horas por semana com ferramentas de automação. Em contrapartida, gastam aproximadamente 6,4 horas semanais ajustando, corrigindo e supervisionando os sistemas.
Isso não significa que a IA não gera ganhos. Significa apenas que parte desses ganhos é compensada por uma nova camada de trabalho que não existia anteriormente.
Quando mais ferramentas podem gerar mais confusão
Outro desafio apontado pelo estudo é a multiplicação de plataformas.
Hoje, muitos profissionais utilizam diferentes sistemas para executar uma única tarefa. Uma ferramenta serve para escrever, outra para resumir, outra para pesquisar informações e uma quarta para revisar conteúdos.
Esse vai e vem constante entre aplicações cria um custo invisível. A cada troca de plataforma, é necessário repetir informações, adaptar instruções, ajustar o contexto e garantir que a nova ferramenta compreendeu corretamente o objetivo.
O resultado pode ser justamente o oposto daquilo que a inteligência artificial prometia inicialmente: mais complexidade operacional.
Existe ainda um risco adicional. Quando a revisão constante se torna cansativa, alguns usuários começam a confiar excessivamente nos resultados produzidos pelas máquinas. O relatório chama esse comportamento de botshitting, situação em que conteúdos aparentemente corretos são entregues sem validação adequada, mesmo podendo conter erros, informações inventadas ou conclusões questionáveis.
No fim das contas, a principal conclusão do estudo é que a produtividade não depende apenas da adoção da inteligência artificial. As organizações que obtêm melhores resultados são aquelas que criam processos claros, estabelecem critérios de revisão e definem estratégias eficientes para integrar essas ferramentas ao trabalho diário.
A inteligência artificial continua sendo uma poderosa aliada. Mas, pelo menos por enquanto, ela ainda exige supervisão humana constante. E essa talvez seja a parte menos visível — e mais trabalhosa — da revolução tecnológica que está transformando os escritórios.