A inteligência artificial se tornou uma das tecnologias mais transformadoras do século XXI. Ela está presente em assistentes virtuais, buscadores, sistemas de recomendação, geração de imagens e vídeos, além de aplicações científicas e empresariais. Mas, enquanto o debate costuma se concentrar em produtividade, inovação e riscos éticos, um novo relatório das Nações Unidas chama atenção para outro aspecto frequentemente ignorado: o custo ambiental dessa revolução tecnológica.
Segundo um estudo divulgado pelo Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH), a expansão da IA poderá exigir, até 2030, volumes de água comparáveis ao consumo de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana. E esse é apenas um dos indicadores preocupantes apresentados pelos pesquisadores.
O impacto invisível por trás dos algoritmos

Quando usuários conversam com chatbots, geram imagens ou utilizam ferramentas inteligentes, raramente pensam na infraestrutura física que torna tudo isso possível.
Por trás de cada resposta produzida por um sistema de IA existem gigantescos centros de dados operando ininterruptamente. Essas instalações consomem enormes quantidades de eletricidade e dependem de sistemas de refrigeração que utilizam grandes volumes de água.
De acordo com o relatório, se os centros de dados dedicados à inteligência artificial fossem considerados um país, seu consumo atual de energia elétrica estaria próximo ao da França, alcançando cerca de 448 terawatts-hora (TWh) por ano.
Os pesquisadores destacam que muitos estudos anteriores focaram apenas nas emissões de carbono associadas à IA, deixando de lado outros impactos igualmente importantes.
Água, energia e espaço físico entram na conta

As projeções indicam que, até o final da década, a infraestrutura necessária para sustentar a expansão da inteligência artificial poderá consumir quase três vezes mais energia do que a utilizada anualmente por países como Paquistão, Bangladesh e Nigéria juntos.
No caso das emissões, os números também impressionam. O setor poderá gerar cerca de 400 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano, valor semelhante às emissões totais do Reino Unido.
Outro dado pouco discutido é a ocupação territorial. Segundo o estudo, a infraestrutura da IA e suas cadeias de suprimentos podem ocupar aproximadamente 14.500 quilômetros quadrados até 2030. Trata-se de uma área equivalente a mais de dez vezes o tamanho da cidade de São Paulo ou cerca do dobro da região metropolitana de Jacarta, na Indonésia.
Nem toda energia limpa resolve o problema
Um dos pontos centrais do relatório é mostrar que avaliar a sustentabilidade da IA apenas pelas emissões de carbono pode ser enganoso.
Trocar fontes fósseis por energias renováveis reduz significativamente a pegada de carbono. No entanto, isso nem sempre diminui outros impactos ambientais.
Os pesquisadores explicam que algumas alternativas energéticas podem exigir volumes muito maiores de água ou áreas consideravelmente mais extensas para sua implantação. Em determinados cenários, a redução das emissões pode vir acompanhada de um aumento expressivo da pressão sobre recursos hídricos e uso do solo.
Segundo Miriam Aczel, autora principal do estudo, concentrar a análise em apenas uma métrica pode mascarar problemas ambientais que acabam sendo transferidos para outras regiões do planeta.
Conversar com um chatbot custa menos do que criar vídeos
O relatório também analisou quais aplicações de inteligência artificial demandam mais recursos.
Durante anos, acreditou-se que a fase de treinamento dos modelos era responsável pela maior parte do consumo energético. No entanto, os pesquisadores concluíram que o processo de inferência — quando milhões de usuários utilizam os sistemas diariamente — já representa entre 80% e 90% do gasto total.
Uma conversa comum com plataformas como ChatGPT ou Gemini consome cerca de 200 vezes mais energia do que tarefas simples de IA, como a identificação automática de mensagens de spam.
A diferença aumenta drasticamente em aplicações multimodais. A geração de imagens pode exigir aproximadamente 1.400 vezes mais energia, enquanto a criação de vídeos curtos chega a consumir até 200 mil vezes mais recursos do que funções básicas de classificação de dados.
Quem recebe os benefícios e quem paga a conta

O relatório também aponta uma distribuição desigual dos impactos ambientais da IA.
Enquanto Estados Unidos e China concentram cerca de 90% da capacidade global de processamento especializado, muitos dos custos ambientais acabam sendo compartilhados por outras regiões.
Casos recentes ilustram essa situação. Na Irlanda, os centros de dados já representam mais de um quinto do consumo nacional de eletricidade. No Uruguai, projetos de infraestrutura tecnológica com elevada demanda hídrica coincidiram com uma das piores crises de abastecimento de água da história recente do país.
Além disso, a ONU estima que a indústria da IA poderá gerar cerca de 2,5 milhões de toneladas anuais de lixo eletrônico até 2030, composto principalmente por processadores e equipamentos obsoletos.
O desafio de construir uma IA sustentável
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem maior transparência por parte das empresas de tecnologia e a criação de padrões internacionais para medir os impactos ambientais da inteligência artificial.
O relatório recomenda que governos exijam relatórios padronizados sobre consumo de energia, água e emissões. Também sugere que desenvolvedores utilizem modelos proporcionais às necessidades de cada tarefa, evitando o uso de sistemas gigantescos quando soluções menores seriam suficientes.
Para os especialistas, a questão não é interromper o avanço da inteligência artificial, mas garantir que essa transformação tecnológica ocorra de forma sustentável. Afinal, a próxima grande revolução digital poderá depender não apenas da capacidade dos algoritmos, mas também dos limites físicos do planeta que os sustenta.
[ Fonte: El País ]