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Ciência

Cientistas criaram um cilindro capaz de ajudar prédios a sobreviver a terremotos sem usar eletricidade — e a ideia pode mudar a engenharia sísmica

O sistema desenvolvido por pesquisadores dos Emirados Árabes Unidos utiliza apenas atrito mecânico para absorver parte da energia dos terremotos. Sem sensores, sem fluidos e sem depender de energia elétrica, o dispositivo pode continuar funcionando mesmo durante apagões causados por grandes desastres naturais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Terremotos continuam sendo uma das maiores ameaças para cidades e infraestruturas em diversas partes do planeta. Em poucos segundos, tremores intensos podem comprometer prédios, pontes, torres de comunicação e instalações críticas, especialmente quando os sistemas de proteção falham junto com a rede elétrica.

Agora, uma equipe da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, apresentou uma solução incomum: um amortecedor sísmico completamente passivo, capaz de dissipar a energia das vibrações utilizando apenas princípios mecânicos básicos.

O projeto foi liderado pelo professor de engenharia civil Moussa Leblouba e recebeu patente oficial do Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos no fim de 2025.

O dispositivo funciona usando atrito entre esferas de aço

À primeira vista, o sistema parece relativamente simples. O equipamento consiste em um cilindro metálico oco preenchido com centenas de esferas sólidas de aço.

No centro do cilindro existe um eixo longitudinal conectado a várias barras radiais, formando uma estrutura que lembra galhos saindo de um tronco.

Quando ocorre um terremoto, ventos extremos ou vibrações intensas, o eixo central se movimenta através do conjunto de esferas metálicas. Esse deslocamento gera um forte atrito interno.

É justamente essa fricção que permite transformar parte da energia destrutiva do tremor em calor e movimento controlado dentro do próprio aparelho. Assim, menos força é transferida diretamente para a estrutura protegida.

Segundo os pesquisadores, os testes iniciais indicam que o sistema consegue absorver até 14% da energia sísmica.

A maior vantagem: ele continua funcionando mesmo sem energia elétrica

Celulares Viraram Sensores Sísmicos1
© Unsplash – Onur Burak Akın

Grande parte dos sistemas modernos de proteção sísmica depende de sensores eletrônicos, controles automatizados ou fontes externas de energia.

O problema é que terremotos severos frequentemente provocam apagões imediatos, comprometendo justamente os mecanismos que deveriam proteger as estruturas.

O novo dispositivo elimina completamente essa dependência.

Por operar de forma 100% passiva, ele continua funcionando mesmo em cenários extremos, sem precisar de eletricidade, softwares ou comandos eletrônicos.

Essa característica pode ser especialmente importante em hospitais, centros de emergência, pontes e instalações críticas que precisam permanecer operacionais durante desastres naturais.

O sistema também foi projetado para facilitar manutenção e instalação

Outro diferencial importante do projeto está na modularidade.

Em amortecedores hidráulicos convencionais, danos severos costumam exigir substituição completa do equipamento após um grande terremoto. Já no novo sistema, os componentes podem ser desmontados individualmente.

Isso significa que uma peça danificada pode ser removida e trocada sem necessidade de substituir toda a unidade.

Além disso, o mecanismo possui capacidade de retorno automático. Depois que as vibrações terminam, o dispositivo consegue voltar sozinho à posição inicial, aumentando sua durabilidade operacional.

Os pesquisadores também destacam que a instalação não exige mão de obra altamente especializada. Como as peças são relativamente simples e acessíveis, o sistema pode ser montado diretamente no local de uso.

A tecnologia pode ajudar países onde a engenharia sísmica ainda é cara demais

Uma das aplicações mais promissoras do projeto está no chamado retrofit estrutural — processo de adaptação de construções antigas para atender padrões modernos de segurança sísmica.

Como o amortecedor pode ser acoplado externamente às estruturas existentes, ele permitiria reforçar prédios antigos sem necessidade de grandes reformas ou demolições complexas.

Isso pode representar uma solução mais acessível para países em desenvolvimento, onde técnicas avançadas de engenharia sísmica ainda possuem custos elevados.

O dispositivo também pode ser usado fora da construção civil

Os cientistas acreditam que o sistema possui potencial além de prédios e pontes.

Entre as aplicações estudadas estão torres de comunicação expostas a ventos fortes, máquinas industriais pesadas, vibrações causadas por trens e até equipamentos extremamente sensíveis utilizados em aviões, embarcações e instrumentos científicos.

Por enquanto, o dispositivo segue em fase de validação laboratorial.

A próxima etapa prevê testes em mesas sísmicas de grande escala, conhecidas como shake tables, que simulam terremotos reais de maior intensidade. Os pesquisadores também pretendem analisar como mudanças no tamanho das esferas metálicas e na disposição das barras influenciam a eficiência do sistema.

Mesmo ainda em desenvolvimento, a proposta já chama atenção por apostar em algo raro na engenharia moderna: resolver um problema complexo utilizando mecânica simples, robusta e independente de energia.

 

[ Fonte: Clarín ]

 

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