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Tecnologia

A internet está ficando irreconhecível e a IA tem feito muita gente desconfiar até do que parece real

Deepfakes, perfis artificiais e uma enxurrada de publicações automáticas estão transformando a experiência online. Uma pesquisa revela até onde chegou a desconfiança dos usuários.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, o grande receio ao navegar pela internet era clicar em um link suspeito ou entregar uma senha ao site errado. A inteligência artificial acrescentou uma preocupação muito mais difícil de perceber: talvez aquilo que aparece na tela simplesmente não seja real. Imagens, vídeos, perfis e textos artificiais estão se multiplicando, enquanto cresce também o medo relacionado à privacidade. Uma nova pesquisa mostra que essa combinação começa a mudar a relação das pessoas com a própria internet.

Mais da metade acredita que seus dados acabarão expostos

A internet está ficando irreconhecível e a IA tem feito muita gente desconfiar até do que parece real
© Pexels

Uma pesquisa realizada pela Incogni revela um cenário de forte desconfiança em relação à privacidade digital.

Segundo o levantamento, 52% dos participantes acreditam que seus dados pessoais acabarão vazando em algum momento.

No outro extremo, apenas 11% demonstram confiança de que suas informações permanecerão privadas e protegidas. Outros 37% adotam uma posição neutra.

Existem ainda diferenças entre gerações.

Millennials e integrantes da Geração X aparecem entre os mais preocupados, com 55% demonstrando temor relacionado à exposição de informações. Entre Baby Boomers e Geração Z, o percentual indicado pela pesquisa fica em 48%.

Mais revelador, porém, talvez seja o impacto emocional dessa percepção.

Metade dos entrevistados afirma se arrepender de já ter compartilhado informações pessoais na internet, enquanto 63% dizem sentir ansiedade diante da possibilidade de roubo de dados.

A privacidade, portanto, deixou de representar apenas uma discussão técnica sobre cookies, bancos de dados ou rastreamento.

Para muitos usuários, tornou-se uma preocupação cotidiana.

Agora existe outro problema: descobrir se aquilo que você está vendo realmente existe

A expansão da inteligência artificial generativa adicionou uma nova camada de incerteza à navegação.

Quase metade dos participantes, 48%, afirma estar cada vez menos segura de conseguir diferenciar conteúdos verdadeiros daqueles produzidos artificialmente.

Isso inclui imagens, vídeos, textos e até pessoas aparentemente reais.

Ferramentas modernas conseguem produzir rostos convincentes, simular vozes, criar fotografias inexistentes e elaborar vídeos cada vez mais difíceis de identificar visualmente.

É nesse contexto que ganhou espaço a expressão “AI slop”.

O termo é utilizado para descrever a enorme quantidade de conteúdo gerado automaticamente, frequentemente produzido em massa e com pouco valor, que passou a ocupar redes sociais, mecanismos de busca e outras plataformas.

Não significa que todo conteúdo criado com inteligência artificial seja necessariamente ruim ou enganoso.

O problema aparece quando a facilidade de produção permite inundar a rede com publicações repetitivas, artificiais ou deliberadamente falsas.

Deepfakes e perfis artificiais começam a mudar a experiência online

A pesquisa mostra que esse fenômeno já provoca rejeição significativa.

Cerca de 40% dos entrevistados criticam criadores falsos e deepfakes, enquanto 27% afirmam que a presença desse tipo de material diminui sua vontade de continuar navegando pela internet.

A consequência pode ser mais profunda do que simplesmente encontrar publicações irritantes.

Durante grande parte da história da internet, fotografias e vídeos funcionaram como formas relativamente convincentes de evidência.

A inteligência artificial está enfraquecendo essa confiança.

Agora, uma fotografia impressionante pode ter sido criada em segundos. Um vídeo de uma personalidade pública pode ser artificial. Um perfil aparentemente administrado por uma pessoa pode publicar conteúdo produzido automaticamente.

O resultado é uma espécie de inversão: não basta mais encontrar uma imagem ou um vídeo para acreditar em determinada informação.

Em muitos casos, tornou-se necessário investigar a origem antes de confiar.

Algumas pessoas já estão abandonando redes sociais

O desgaste também aparece na relação dos entrevistados com as plataformas sociais.

Segundo o levantamento, 47% afirmam já ter eliminado alguma conta por causa da ansiedade, enquanto 41% mencionam preocupações com privacidade como motivo para abandonar uma plataforma.

Isso ajuda a explicar uma contradição interessante.

A internet oferece mais conteúdo do que em qualquer outro momento, mas essa abundância não significa necessariamente uma experiência melhor.

Algoritmos disputam constantemente a atenção, notificações incentivam retornos frequentes e sistemas generativos tornaram a produção de publicações praticamente ilimitada.

Para alguns usuários, o resultado é simplesmente cansaço.

Existe até disposição para pagar por uma experiência diferente, embora ela ainda esteja longe de ser majoritária.

A pesquisa indica que 29% pagariam por uma internet mais privada e sem rastreamento, enquanto 46% não aceitariam pagar por essa alternativa.

O problema da IA talvez não seja apenas aquilo que ela consegue criar

A inteligência artificial oferece ferramentas úteis para trabalho, educação, criatividade e inúmeras outras atividades.

Mas sua expansão também está obrigando a internet a enfrentar uma questão que durante anos parecia secundária: como preservar a confiança quando fabricar algo convincente se torna extremamente fácil?

Deepfakes são apenas a parte mais evidente.

Perfis falsos, comentários automáticos, textos produzidos em escala e imagens sintéticas podem criar um ambiente no qual cada conteúdo exige uma dose adicional de desconfiança.

Ao mesmo tempo, a coleta de informações pessoais continua alimentando preocupações antigas sobre rastreamento, vazamentos e segurança.

A combinação dos dois fenômenos cria uma internet curiosamente contraditória.

Nunca foi tão fácil produzir, publicar e encontrar conteúdo.

Mas, para uma parcela crescente dos usuários, nunca pareceu tão difícil saber em que confiar.

[Fonte: HD Tecnologia]

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