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Tecnologia

A megacidade chinesa construída para o futuro revela o limite da tecnologia urbana

Sensores, inteligência artificial e um enorme mapa virtual acompanham cada detalhe de uma cidade planejada do zero. Mas existe algo que a tecnologia ainda não conseguiu fabricar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine chegar a uma cidade onde os edifícios possuem versões digitais, os semáforos aprendem com o trânsito em tempo real e milhares de sensores acompanham o que acontece nas ruas. Parece um cenário de ficção científica, mas esse lugar existe e vem sendo construído na China desde 2017. O projeto foi pensado para redefinir a maneira como uma metrópole pode funcionar. O problema é que uma cidade precisa de algo que nenhum algoritmo consegue simplesmente instalar.

Um projeto urbano pensado antes mesmo de existir

A história começa a cerca de 100 quilômetros de Pequim, em uma região que há menos de uma década tinha características muito diferentes das de uma grande metrópole. Em 2017, a China decidiu transformar três condados rurais de Hebei — Xiongxian, Anxin e Rongcheng — em uma nova área urbana planejada para aliviar a pressão sobre a capital.

O projeto recebeu o nome de Xiong’an e nasceu com uma ambição gigantesca. A área inicialmente planejada tinha cerca de 100 quilômetros quadrados, mas o plano completo prevê aproximadamente 1.770 quilômetros quadrados. A conclusão está projetada para 2049, ano que marcará o centenário da fundação da República Popular da China.

O mais interessante, porém, não está apenas no tamanho da obra. Desde o começo, Xiong’an foi concebida como uma cidade digital. Em vez de construir primeiro e descobrir depois como administrar os problemas urbanos, os planejadores criaram uma representação virtual da cidade para acompanhar sua evolução.

Cada novo edifício pode ter uma contraparte digital, enquanto sistemas centralizados reúnem informações sobre trânsito, ambiente e infraestrutura. É como se a cidade tivesse uma segunda existência funcionando simultaneamente em computadores.

A infraestrutura tecnológica também cresceu rapidamente. Mais de 3.500 estações garantem cobertura 5G em toda a área, enquanto milhares de dispositivos espalhados pelas ruas alimentam sistemas capazes de analisar o comportamento urbano praticamente em tempo real.

Quando a cidade começa a tomar decisões sozinha

É no trânsito que essa visão futurista fica mais evidente.

Xiong’an possui mais de 20 mil sensores rodoviários conectados a sistemas de gerenciamento assistidos por inteligência artificial. Eles acompanham o fluxo de veículos e permitem modificar a operação dos semáforos de acordo com as condições encontradas nas ruas.

A ideia é simples, mas suas implicações são enormes: em vez de programar os sinais de trânsito apenas com base em horários fixos, o sistema pode reagir ao que está acontecendo naquele momento.

Segundo dados divulgados por veículos chineses, a tecnologia conseguiu reduzir pela metade o número de paradas feitas pelos veículos. Na prática, isso transforma a própria infraestrutura urbana em um sistema capaz de observar, interpretar e responder.

Enquanto isso, Xiong’an já acumulou mais de 5.300 edifícios e recebeu cerca de 600 empresas de alta tecnologia. Mais de 400 estruturas administrativas também foram instaladas na região.

Grandes grupos chineses transferiram operações para a nova cidade, incluindo empresas ligadas aos setores de energia, produtos químicos, telecomunicações, ferrovias e tecnologia espacial. Algumas dessas organizações possuem mais de mil funcionários.

Mesmo assim, construir prédios e levar empresas para uma nova região não resolve automaticamente a questão mais difícil de qualquer projeto urbano: convencer milhões de pessoas a fazer daquela cidade o lugar onde querem viver.

O detalhe que nenhuma inteligência artificial conseguiu resolver

O projeto também tenta se diferenciar pela preocupação ambiental. Desde o início da construção, aproximadamente 32.200 hectares foram replantados, aumentando a cobertura vegetal para 35,1% do território.

Os resultados aparecem também nos ecossistemas locais. Os pântanos de Xiong’an já registram 296 espécies de aves, 90 a mais do que no começo do projeto. Sistemas de monitoramento apoiados por inteligência artificial ajudam a acompanhar a biodiversidade e identificar mudanças nos ambientes naturais.

Na área social, as autoridades criaram 20 projetos envolvendo educação, saúde, emprego e transporte. Os aluguéis também foram mantidos em níveis relativamente baixos como parte da estratégia para atrair moradores e profissionais.

Mas é justamente aqui que surge o paradoxo de Xiong’an.

O plano urbano de 2018 a 2035 estabelecia uma meta de até 5 milhões de habitantes. No fim de 2024, entretanto, a população residente era de aproximadamente 1,36 milhão.

Ou seja, a cidade conseguiu construir uma enorme infraestrutura, desenvolver sua versão digital, atrair empresas, instalar sensores e criar novos espaços verdes. O que ainda não conseguiu produzir na mesma velocidade é a espontaneidade de uma metrópole consolidada.

Estimativas citadas pelo South China Morning Post colocam os investimentos acumulados acima de 107 bilhões de euros. É uma quantia extraordinária para uma cidade ainda em desenvolvimento.

Xiong’an mostra, portanto, um dos grandes desafios do urbanismo do futuro: tecnologia pode prever trânsito, monitorar florestas, administrar edifícios e otimizar serviços. Mas transformar uma cidade planejada em um lugar realmente desejado pelas pessoas é uma tarefa muito mais difícil.

No fim, talvez o experimento mais interessante de Xiong’an não seja descobrir até onde uma cidade pode ser automatizada, mas descobrir se é possível planejar também aquilo que torna uma cidade verdadeiramente viva.

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