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Ciência

Seu corpo pode ter uma idade diferente da sua e uma nova ferramenta começa a revelar o que está acontecendo

A idade registrada nos documentos conta apenas parte da história. Cientistas estão decifrando sinais celulares capazes de mostrar como o organismo realmente envelhece e quais riscos podem surgir.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Duas pessoas podem nascer no mesmo dia e chegar aos 60 anos em condições completamente diferentes. Enquanto uma mantém força, metabolismo e mobilidade preservados, outra pode apresentar sinais normalmente associados a idades mais avançadas. A explicação pode estar escondida nas próprias células. Agora, cientistas descobriram que ferramentas usadas para medir esse envelhecimento não contam exatamente a mesma história e encontraram uma maneira de torná-las ainda mais reveladoras.

Existe uma idade que não aparece na certidão de nascimento

Seu corpo pode ter uma idade diferente da sua e uma nova ferramenta começa a revelar o que está acontecendo
© Pexels

A idade cronológica é simples de calcular. Basta contar quantos anos se passaram desde o nascimento. O envelhecimento biológico, porém, é muito mais complicado.

Genética, alimentação, atividade física, exposição ambiental, estresse e diferentes doenças podem influenciar a velocidade com que tecidos e sistemas do organismo se transformam ao longo da vida.

É por isso que cientistas vêm desenvolvendo os chamados relógios epigenéticos.

Essas ferramentas procuram estimar o envelhecimento biológico observando principalmente a metilação do DNA. Esse processo envolve pequenas modificações químicas capazes de influenciar a atividade dos genes sem alterar a sequência genética propriamente dita.

Essas mudanças fazem parte do epigenoma, conjunto de mecanismos que ajuda a determinar quando determinados genes ficam mais ou menos ativos.

Os padrões de metilação mudam ao longo da vida e podem funcionar como uma espécie de registro molecular do envelhecimento.

Em alguns casos, esses relógios conseguem indicar riscos relacionados à saúde de maneira mais informativa do que simplesmente olhar para a idade cronológica.

Mas havia um problema: diferentes relógios nem sempre apresentavam exatamente a mesma resposta.

Cinco relógios foram colocados frente a frente

Pesquisadores da USC Leonard Davis School of Gerontology decidiram investigar por que isso acontece.

No estudo publicado na revista científica npj Aging, a equipe comparou cinco dos relógios epigenéticos mais utilizados atualmente.

Foram analisadas amostras de sangue de 3.227 participantes do Health and Retirement Study, um amplo projeto de acompanhamento realizado nos Estados Unidos.

Os cientistas não observaram apenas a metilação do DNA.

Também estudaram a expressão gênica, processo que mostra quais instruções presentes no DNA estão efetivamente sendo utilizadas pelas células. Nesse mecanismo, informações genéticas são copiadas para moléculas de RNA e podem posteriormente orientar a produção de proteínas.

Ao cruzar essas duas camadas de informação, os pesquisadores conseguiram observar algo importante.

Embora todos os cinco relógios tenham sido desenvolvidos para avaliar aspectos relacionados ao envelhecimento biológico, eles não parecem medir exatamente os mesmos processos.

Cada um estava captando uma parte diferente da história.

Seu sistema imunológico e metabolismo deixam pistas sobre o envelhecimento

Seu corpo pode ter uma idade diferente da sua e uma nova ferramenta começa a revelar o que está acontecendo
© Nataliya Vaitkevich – Pexels

Alguns relógios apresentaram relações mais fortes com processos envolvidos no equilíbrio energético e no crescimento das células.

Outros estavam mais associados à ativação do sistema imunológico e a sinais de inflamação.

Também apareceram elementos compartilhados entre diferentes ferramentas.

Metabolismo, funcionamento do sistema imunológico e comunicação entre células estavam entre os processos biológicos mais frequentemente relacionados aos indicadores de envelhecimento.

A descoberta ajuda a explicar por que dois relógios epigenéticos podem produzir estimativas diferentes para a mesma pessoa.

Eles podem estar observando dimensões distintas do envelhecimento.

Isso também muda a interpretação de uma suposta “idade biológica”. Em vez de existir necessariamente um único número capaz de resumir todo o organismo, diferentes indicadores podem revelar como determinados sistemas estão envelhecendo.

Mas os pesquisadores foram além e desenvolveram uma nova ferramenta para acrescentar outra camada à análise.

Uma nova pontuação conseguiu antecipar diferentes problemas de saúde

A equipe criou indicadores chamados TAGS, sigla em inglês para transcriptomic aging gene scores, ou pontuações de genes transcriptômicos relacionados ao envelhecimento.

Em vez de analisar apenas modificações químicas no DNA, esses indicadores observam padrões relacionados à expressão dos genes.

Quando os pesquisadores combinaram essas informações com os relógios epigenéticos, a capacidade de prever diferentes condições melhorou em vários casos.

Os novos indicadores mostraram associação com fragilidade física, velocidade de caminhada, doenças cardíacas, diabetes e doenças pulmonares.

Também apresentaram capacidade de prever o risco de mortalidade.

Isso é particularmente importante porque aproxima essas ferramentas de uma finalidade muito mais útil do que simplesmente informar que alguém possui uma idade biológica maior ou menor que a idade registrada no documento.

A verdadeira promessa está em compreender por que determinado organismo parece envelhecer mais rapidamente e quais sistemas podem estar envolvidos nesse processo.

Cientistas começam a abrir a “caixa-preta” da idade biológica

Seu corpo pode ter uma idade diferente da sua e uma nova ferramenta começa a revelar o que está acontecendo
© Unsplash

Os relógios epigenéticos sempre carregaram uma questão importante: mesmo quando conseguem prever determinados resultados de saúde, nem sempre é fácil compreender exatamente quais mecanismos biológicos explicam essa capacidade.

Ao relacionar a metilação do DNA com a expressão dos genes, o novo estudo ajuda a abrir essa espécie de caixa-preta.

A ideia não é substituir a idade cronológica nem transformar o envelhecimento em um único número definitivo.

O caminho apontado pela pesquisa é mais interessante: utilizar diferentes sinais moleculares para construir uma visão mais detalhada sobre a maneira como cada organismo está envelhecendo.

No futuro, ferramentas desse tipo poderão ajudar a identificar pessoas com maior risco de determinadas doenças antes que problemas mais evidentes apareçam.

Ainda será necessário validar e aperfeiçoar esses métodos antes que eles possam assumir um papel amplo na medicina cotidiana.

Mas a direção está ficando mais clara.

Talvez a pergunta do futuro não seja apenas “quantos anos você tem?”, mas algo muito mais revelador: o que suas células estão fazendo com todos esses anos?

[Fonte: meteored]

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