Durante anos, a inteligência artificial foi apresentada como uma das tecnologias mais promissoras do século XXI. No entanto, por trás dos avanços em chatbots, sistemas de automação e modelos generativos, existe uma infraestrutura gigantesca que raramente aparece nas discussões públicas: os centros de dados.
Agora, uma das ativistas ambientais mais conhecidas dos Estados Unidos quer chamar atenção justamente para esse lado menos visível da revolução digital. Erin Brockovich, cuja história inspirou o famoso filme estrelado por Julia Roberts, lançou uma plataforma online para monitorar a construção de novos centros de dados em todo o território norte-americano.
Segundo ela, muitas comunidades descobrem que um grande empreendimento tecnológico será instalado próximo de suas casas apenas quando as obras já estão avançadas.
Um mapa para mostrar o avanço da infraestrutura da IA
A iniciativa recebeu o nome de Brockovich Data Center e reúne informações sobre projetos existentes, obras em andamento e futuros centros de dados planejados nos Estados Unidos.
O objetivo é oferecer transparência para moradores e autoridades locais sobre uma indústria que cresce rapidamente impulsionada pela inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais.
Desde o lançamento da plataforma, em abril de 2026, milhares de pessoas enviaram informações e relatos sobre empreendimentos próximos às suas comunidades.
Para Brockovich, o problema não é apenas tecnológico, mas também democrático. Segundo a ativista, a população não deveria ser a última a saber sobre projetos capazes de transformar profundamente o ambiente onde vive.
Por que os centros de dados geram tanta resistência?

Embora existam há décadas, os centros de dados entraram em uma nova fase de expansão com o crescimento explosivo da inteligência artificial.
Essas instalações abrigam milhares de servidores responsáveis por processar, armazenar e distribuir informações. O funcionamento contínuo desses equipamentos exige enormes quantidades de energia elétrica e sistemas sofisticados de refrigeração.
É justamente nesse ponto que surgem as principais críticas.
Especialistas e organizações ambientais alertam que um único centro de dados pode consumir energia equivalente à de uma pequena cidade. Além disso, muitos projetos dependem de grandes volumes de água para manter seus equipamentos resfriados.
Em algumas regiões da Índia, moradores relataram dificuldades no acesso à água após a instalação dessas estruturas. Segundo relatos divulgados por organizações ambientais, comunidades passaram a receber abastecimento por períodos limitados do dia devido à crescente demanda hídrica.
Impactos que vão além da energia
As preocupações não se limitam ao consumo de eletricidade e água.
Os críticos também apontam o aumento da produção de lixo eletrônico. Como os servidores precisam ser constantemente atualizados para acompanhar a evolução tecnológica, grandes quantidades de equipamentos acabam descartadas após poucos anos de uso.
Outro problema frequentemente citado é a poluição sonora. Os sistemas de ventilação e refrigeração funcionam ininterruptamente, gerando ruídos que podem afetar tanto moradores quanto a fauna local.
Do ponto de vista econômico, os benefícios também são questionados. Embora os investimentos frequentemente alcancem bilhões de dólares, os centros de dados costumam empregar relativamente poucas pessoas após a fase de construção.
Muitas instalações ocupam áreas equivalentes a dezenas de campos de futebol, mas operam com menos de cem funcionários permanentes.
Onde a expansão é mais intensa
Os Estados Unidos lideram o número de centros de dados no mundo, com aproximadamente 5.400 instalações em operação.
Na sequência aparecem países como Alemanha, Reino Unido, China, Canadá, França, Austrália, Holanda e Rússia.
A tendência, porém, é de crescimento acelerado. Milhares de novos projetos estão previstos para os próximos anos, especialmente em áreas rurais.
Na Ásia, países como China, Japão, Coreia do Sul e Taiwan ampliam rapidamente seus investimentos. No Oriente Médio, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar também apostam fortemente no setor.
Na Europa, a região de Frankfurt, na Alemanha, continua sendo um dos maiores polos globais da indústria.
Comunidades começam a reagir
O avanço dessa infraestrutura tem provocado resistência em diferentes partes do mundo.
Nos Estados Unidos, alguns estados já discutem ou implementam moratórias temporárias para desacelerar novas construções enquanto estudam seus impactos.
Casos semelhantes surgiram na Irlanda, nos Países Baixos e em diversos países da América Latina.
No Chile, grupos ambientalistas conseguiram barrar um projeto ligado à inteligência artificial em 2024. No Brasil, movimentos locais também começam a questionar novos empreendimentos, especialmente na região Nordeste, considerada estratégica para a expansão do setor.
Na Alemanha, a empresa norte-americana EdgeConneX desistiu recentemente de um projeto energético associado a um centro de dados após enfrentar oposição da população local e das autoridades municipais.
O lado invisível da revolução digital

O debate levantado por Erin Brockovich evidencia uma questão cada vez mais relevante: toda inovação tecnológica possui uma infraestrutura física e ambiental por trás dela.
À medida que a inteligência artificial se torna parte do cotidiano, cresce também a necessidade de discutir o custo energético, hídrico e social que sustenta essa transformação.
Para Brockovich, a solução não passa por interromper o avanço tecnológico, mas por garantir transparência, participação pública e planejamento adequado. Afinal, enquanto milhões de pessoas utilizam ferramentas de IA diariamente, poucos sabem o que está sendo construído para tornar tudo isso possível.
[ Fonte: DW ]