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Ciência

Cientistas descobrem mudança no cérebro durante a adolescência que pode dificultar o acesso às lembranças da infância

Um estudo identificou um processo biológico que altera temporariamente a forma como o cérebro acessa memórias antigas durante a adolescência. A descoberta pode ajudar a explicar por que algumas lembranças parecem desaparecer nessa fase da vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Muitas pessoas têm a impressão de que certas lembranças da infância ficam mais distantes durante a adolescência, como se o cérebro simplesmente deixasse de acessá-las por algum tempo. Agora, uma nova pesquisa em neurociência oferece uma possível explicação para esse fenômeno. O estudo aponta que mudanças naturais na estrutura cerebral podem tornar essas memórias temporariamente menos acessíveis, sem que elas sejam apagadas.

Pesquisa revela que o cérebro reorganiza temporariamente a memória durante a adolescência

Cientistas descobrem mudança no cérebro durante a adolescência que pode dificultar o acesso às lembranças da infância
© Unsplash

Pesquisadores do Albert Einstein College of Medicine identificaram um mecanismo que pode explicar por que algumas lembranças antigas se tornam mais difíceis de recuperar durante a adolescência.

O estudo, publicado na revista científica PLOS Biology e divulgado pelo portal especializado MedicalXpress, foi realizado com camundongos e sugere que essa dificuldade não representa uma falha do cérebro, mas sim uma etapa normal do desenvolvimento.

Segundo os cientistas, durante a adolescência tardia ocorre uma reorganização temporária na córtex retrosplenial, região cerebral associada à consolidação e à recuperação das memórias de longo prazo.

Esse processo faz com que determinadas lembranças da infância fiquem momentaneamente menos acessíveis, embora continuem armazenadas no cérebro.

A pesquisa reforça uma ideia já conhecida pela neurociência: memórias não são guardadas como arquivos fixos, mas dependem da força das conexões entre os neurônios.

Sempre que uma experiência é vivida, grupos de neurônios são ativados simultaneamente e fortalecem suas conexões, processo conhecido como potenciação de longo prazo.

Cada vez que uma lembrança é revisitada, repetida ou reforçada por experiências emocionais e pelo sono profundo, essas conexões tornam-se ainda mais estáveis.

Inicialmente, o hipocampo é responsável por registrar rapidamente as novas experiências. Com o passar do tempo, essas informações são gradualmente transferidas para diferentes regiões do córtex cerebral, onde permanecem armazenadas de forma mais duradoura.

Entre essas áreas está justamente a córtex retrosplenial, considerada um importante centro para recuperar lembranças antigas.

Estrutura molecular funciona como um suporte para as memórias e muda durante essa fase da vida

Os pesquisadores descobriram que a estabilidade dessas memórias depende de estruturas chamadas redes perineuronais.

Essas redes funcionam como uma espécie de andaime molecular que envolve determinados neurônios e ajuda a manter estáveis as conexões responsáveis pelas lembranças já consolidadas.

Quanto maior a presença dessas estruturas, mais difícil se torna modificar os circuitos cerebrais relacionados à memória, protegendo as recordações contra alterações.

Entretanto, a pesquisa revelou que esse suporte não permanece constante ao longo da vida.

Durante a adolescência tardia, foi observada uma redução temporária das proteínas que formam essas redes especificamente na córtex retrosplenial.

Curiosamente, esse fenômeno não ocorreu em outras áreas importantes para a memória, como o hipocampo.

Para os cientistas, essa diferença indica que o cérebro executa uma reorganização extremamente precisa, limitada a uma região específica e a um período bem definido do desenvolvimento.

Nos experimentos, camundongos que haviam aprendido a associar determinado ambiente a uma experiência desagradável antes da adolescência deixaram temporariamente de recordar essa associação quando atingiram essa fase.

Mais tarde, já na vida adulta, essas memórias voltaram a ser acessadas.

No entanto, elas reapareceram de forma menos detalhada do que originalmente, sugerindo que a recuperação nem sempre acontece com a mesma precisão.

Proteína pode ser a responsável por controlar esse processo

A equipe também identificou uma proteína chamada TGFβ2 como uma das responsáveis por desencadear essa reorganização temporária.

Segundo os pesquisadores, esse fator de crescimento parece comandar a retirada provisória das redes perineuronais na córtex retrosplenial.

Quando os cientistas manipularam experimentalmente os níveis dessa proteína, conseguiram preservar a estrutura das redes e impedir que as lembranças se tornassem temporariamente inacessíveis durante a adolescência.

Esse resultado sugere que a dificuldade em recuperar memórias antigas não ocorre por acaso, mas faz parte de um programa biológico cuidadosamente controlado pelo cérebro.

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores alertam que o estudo foi realizado em camundongos.

Ainda será necessário investigar se exatamente o mesmo mecanismo ocorre em seres humanos e compreender como essas estruturas voltam a se reorganizar naturalmente após a adolescência.

Mesmo assim, a pesquisa oferece uma nova perspectiva sobre o funcionamento da memória ao longo do desenvolvimento.

Em vez de indicar perda definitiva das lembranças, os resultados sugerem que o cérebro passa por um período de reorganização temporária, durante o qual certas recordações ficam mais difíceis de acessar antes de voltarem a integrar os circuitos da memória na vida adulta.

[Fonte: Infobae]

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