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Tecnologia

A geração que está crescendo ao lado da IA pode enfrentar um desafio que poucos adultos perceberam

Enquanto milhões de crianças incorporam a inteligência artificial ao cotidiano, especialistas alertam que a tecnologia avança muito mais rápido do que as regras criadas para protegê-las.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A inteligência artificial deixou de ser uma novidade reservada a empresas ou profissionais de tecnologia. Hoje, ela faz parte da rotina de milhões de crianças e adolescentes, que recorrem a essas ferramentas para estudar, criar conteúdo e até buscar orientação para problemas pessoais. Mas, à medida que esse uso se torna cada vez mais comum, cresce também a preocupação de especialistas com uma realidade que ainda carece de pesquisas, normas e mecanismos de proteção.

A inteligência artificial já faz parte da infância de milhões de jovens

A geração que está crescendo ao lado da IA pode enfrentar um desafio que poucos adultos perceberam
© Robo Wunderkind – Unsplash

A presença da inteligência artificial na vida de crianças e adolescentes cresceu em um ritmo impressionante nos últimos anos. O que antes parecia uma tecnologia distante passou a integrar atividades simples do dia a dia, como fazer trabalhos escolares, pesquisar informações, traduzir textos, editar imagens e até manter conversas com assistentes virtuais.

Esse avanço, no entanto, acontece muito mais rápido do que governos, escolas e famílias conseguem acompanhar. Um levantamento divulgado pelo UNICEF revela que pelo menos 20 milhões de jovens entre 12 e 17 anos já utilizaram ferramentas de inteligência artificial em dez países analisados. O número chama atenção não apenas pelo volume, mas também porque os adolescentes demonstram usar essas plataformas com uma frequência muito maior do que seus próprios pais ou responsáveis.

A pesquisa reuniu dados de Armênia, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Jordânia, México, Montenegro, Macedônia do Norte, Paquistão e Sérvia. Dependendo do país, entre 18% e 50% dos menores entrevistados afirmaram já ter recorrido à inteligência artificial ao menos uma vez.

A diferença entre as faixas etárias também é significativa. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, 44% disseram utilizar essas ferramentas, enquanto entre aqueles de 12 a 14 anos o percentual ficou em 33%, mostrando que a adoção cresce conforme aumenta a autonomia digital.

O ambiente escolar aparece como principal porta de entrada para essa tecnologia. Cerca de seis em cada dez usuários infantis afirmaram utilizar inteligência artificial para realizar tarefas escolares, o equivalente a aproximadamente 13 milhões de crianças nos países pesquisados. Além disso, quase metade recorre aos sistemas para buscar informações, enquanto cerca de um quarto utiliza recursos de tradução.

Mas um dos dados mais reveladores do estudo vai além da educação. Aproximadamente um em cada dez usuários infantis afirmou procurar a inteligência artificial para pedir conselhos sobre questões pessoais ou preocupações do cotidiano. Em alguns países, esse percentual ultrapassa 20%, indicando que essas ferramentas começam a ocupar um espaço antes reservado à família, amigos ou professores.

A distância entre pais e filhos pode ampliar os riscos

A geração que está crescendo ao lado da IA pode enfrentar um desafio que poucos adultos perceberam
© Pexels

O estudo também identificou uma diferença geracional importante. Enquanto uma parcela expressiva dos adolescentes já incorporou a inteligência artificial à rotina, a maioria dos adultos responsáveis ainda não teve qualquer contato com essas tecnologias.

Em vários dos países analisados, pelo menos três em cada quatro pais ou cuidadores disseram nunca ter utilizado inteligência artificial. Essa distância dificulta que muitas famílias compreendam como essas plataformas funcionam, quais benefícios oferecem e, principalmente, quais riscos podem surgir durante o uso.

Embora adultos com maior familiaridade digital tendam a utilizar inteligência artificial com mais frequência — e seus filhos também façam o mesmo — isso não significa que consigam identificar melhor os perigos envolvidos. Conhecer tecnologia não garante compreender seus impactos sociais, emocionais ou de privacidade.

Por isso, o UNICEF defende que a solução não está simplesmente em proibir o acesso. Restrições excessivas podem limitar oportunidades de aprendizagem e impedir que crianças desenvolvam competências digitais cada vez mais importantes. A recomendação é que famílias, escolas e governos aprendam a utilizar essas ferramentas de forma conjunta, estimulando pensamento crítico, supervisão adequada e limites claros.

Os benefícios existem, mas os riscos também preocupam especialistas

Apesar do entusiasmo com as possibilidades oferecidas pela inteligência artificial, muitos adolescentes já demonstram consciência de alguns riscos.

Segundo o levantamento, 34% dos entrevistados se preocupam com o uso dessas tecnologias para aplicar golpes ou enganar pessoas. Outros 32% temem a disseminação de informações falsas produzidas por inteligência artificial, enquanto 26% citaram o receio da criação de imagens ou vídeos íntimos falsificados.

Ao mesmo tempo, essa percepção varia bastante entre os países pesquisados. Em alguns deles, quase um terço das crianças afirmou não enxergar preocupação em nenhuma das situações apresentadas. Para o UNICEF, isso não significa necessariamente que estejam mais protegidas, mas pode indicar que muitos jovens ainda não conseguem reconhecer os perigos aos quais estão expostos.

Uma das maiores preocupações envolve os chamados deepfakes, conteúdos manipulados por inteligência artificial para parecerem totalmente reais. A organização estima que pelo menos 1,2 milhão de crianças, em onze países analisados, tiveram imagens alteradas para produzir conteúdo sexual falso durante o último ano.

Em alguns locais, essa realidade equivale a aproximadamente um estudante em cada sala de aula tradicional. Entre as práticas identificadas está a chamada “desnudez digital”, em que ferramentas modificam fotografias existentes para remover ou alterar roupas, produzindo imagens íntimas falsas sem qualquer consentimento da vítima.

A tecnologia avança mais rápido do que a proteção das crianças

Embora o uso da inteligência artificial continue crescendo, o conhecimento científico sobre seus efeitos ainda está muito atrás dessa expansão. Pesquisadores sabem pouco sobre os impactos dessas ferramentas no desenvolvimento emocional, na aprendizagem, na capacidade de raciocínio ou na exposição de crianças a novos tipos de danos.

Diante desse cenário, o UNICEF pede investimentos em pesquisas focadas especificamente na infância, além da ampliação da alfabetização digital e da educação sobre inteligência artificial nas escolas.

A organização também defende a redução das desigualdades de acesso à tecnologia, exigências mais rigorosas para empresas de tecnologia desenvolverem produtos com mecanismos de segurança desde sua criação e leis mais robustas para impedir a produção e a circulação de material de abuso sexual infantil gerado por inteligência artificial.

Entre as recomendações estão avaliações de segurança antes do lançamento de novos modelos e controles mais eficientes nas plataformas digitais para impedir a disseminação desse tipo de conteúdo.

Para o UNICEF, a principal questão já não é descobrir se crianças e adolescentes utilizarão inteligência artificial no futuro. Isso já está acontecendo. O verdadeiro desafio passa a ser garantir que essa geração cresça cercada por regras, proteção e educação suficientes para aproveitar os benefícios da tecnologia sem ficar vulnerável aos riscos que ainda estão surgindo.

[Fonte: News]

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