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Ciência

A NASA vai afundar a Estação Espacial Internacional no Pacífico, mas o plano levanta uma discussão global sobre lixo espacial e impactos ambientais

A desativação da Estação Espacial Internacional já tem data prevista, mas o destino da maior estrutura já construída em órbita está longe de ser consenso. O plano de fazer a ISS reentrar de forma controlada no oceano Pacífico desperta dúvidas sobre impactos ambientais, lacunas legais e o futuro da gestão do lixo espacial.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A Estação Espacial Internacional (ISS) está se aproximando do fim de sua longa trajetória. Depois de quase três décadas em operação contínua, a plataforma orbital deverá ser retirada de serviço entre o fim de 2030 e o início de 2031. O plano da NASA e de seus parceiros internacionais prevê uma reentrada controlada na atmosfera, fazendo com que os destroços caiam em uma região remota do oceano Pacífico conhecida como Ponto Nemo. Embora a estratégia seja considerada a mais segura do ponto de vista operacional, ela também desencadeou um intenso debate envolvendo cientistas, ambientalistas e especialistas em direito internacional.

Como será a aposentadoria da ISS

Robô Espacial Da Nasa Salva Telescópio De Uma Reentrada Destrutiva — Missão Inédita Pode Mudar A Forma Como Satélites São Mantidos Em órbita
© NASA

A retirada da estação acontecerá de forma gradual. A partir de 2028, a ISS começará a perder altitude por meio de manobras controladas e do efeito natural do arrasto atmosférico. Parte desse processo será conduzida pelo segmento russo da estação.

Na etapa final, prevista para 2029, entrará em ação o Veículo de Desorbitação dos Estados Unidos (USDV), desenvolvido pela SpaceX especialmente para essa missão. Equipado com 46 propulsores Draco, o veículo será responsável por conduzir a ISS até sua trajetória definitiva de reentrada.

Com dimensões comparáveis às de um campo de futebol, a estação se fragmentará durante a passagem pela atmosfera terrestre. Grande parte da estrutura deverá ser destruída pelo intenso calor, enquanto os componentes mais resistentes alcançarão o oceano.

O destino escolhido é o Ponto Nemo, considerado o local mais isolado do planeta em relação a qualquer massa continental. Há décadas, essa região serve como área de descarte controlado para satélites e espaçonaves desativadas justamente por apresentar baixo risco para populações humanas e rotas marítimas.

Ambientalistas pedem estudos mais detalhados

Apesar do histórico de utilização do Ponto Nemo para esse tipo de operação, organizações ambientais afirmam que nunca houve a desorbitação de uma estrutura tão grande quanto a ISS.

A Ocean Foundation está entre as entidades que defendem avaliações ambientais mais abrangentes antes da missão. Segundo o presidente da organização, Mark Spalding, ainda existem muitas incertezas sobre quais materiais sobreviverão à reentrada atmosférica e qual poderá ser o impacto desses fragmentos sobre o fundo do oceano.

As entidades também pedem que a NASA divulgue um inventário completo dos materiais presentes na estação e realize estudos específicos sobre possíveis efeitos na biodiversidade marinha.

Embora a maior parte da estrutura seja consumida durante a reentrada, os críticos argumentam que mesmo uma quantidade relativamente pequena de destroços pode representar um impacto ainda pouco compreendido para ecossistemas localizados em alto-mar.

Um vazio jurídico preocupa especialistas

Além da questão ambiental, o caso reacendeu discussões sobre as limitações da legislação internacional relacionada ao lixo espacial.

Especialistas citam análises da Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do governo dos Estados Unidos, que apontam lacunas nas normas atuais para lidar com resíduos espaciais que caem em águas internacionais.

O principal tratado sobre responsabilidade espacial, firmado em 1972, prevê compensações financeiras quando objetos espaciais causam danos dentro do território de países soberanos. No entanto, ele não estabelece regras claras para situações em que os impactos acontecem em áreas de alto-mar, fora da jurisdição de qualquer Estado.

Na prática, isso permite que agências espaciais direcionem reentradas controladas para regiões oceânicas remotas sem a obrigação de realizar ações posteriores de limpeza ou recuperação ambiental.

O futuro da exploração espacial também está em jogo

Diversas organizações internacionais defendem que a operação seja analisada também à luz da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, do Protocolo de Londres de 1996 e do recente Acordo BBNJ, tratado voltado à proteção da biodiversidade em áreas além das jurisdições nacionais.

Esses grupos argumentam que, diante das incertezas científicas, seria necessária uma avaliação ambiental específica antes da execução da missão.

A NASA, por outro lado, ressalta que a ISS representa um dos maiores projetos científicos da história da humanidade. Desde o início de suas operações, mais de 265 astronautas de cerca de 20 países viveram e trabalharam na estação, realizando pesquisas que contribuíram para avanços em medicina, biologia, física e tecnologia espacial.

A aposentadoria da ISS também abrirá espaço para uma nova geração de estações espaciais comerciais, atualmente em desenvolvimento por empresas privadas. Ainda assim, alguns especialistas alertam para o risco de haver um período sem presença humana permanente na órbita baixa da Terra até que essas novas plataformas estejam plenamente operacionais.

Independentemente do desfecho da missão, a desorbitação da Estação Espacial Internacional deverá estabelecer um importante precedente para futuras operações envolvendo grandes estruturas espaciais. O equilíbrio entre exploração espacial e preservação ambiental tende a se tornar um dos principais desafios das próximas décadas.

 

[ Fonte: Perfil ]

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